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Full text of "O Arquéologo portugués"

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► 



Case 



Shelf 



HARVARD UNIVERSITY 




LIBRARY 

OF THE 

PEABODY MUSEUM OF AMERICAN ' 
ARCH/KOLOGY AND ETHNOLOGY 

IN EXCHANGE WITH 

S %úO AYltUejCjjLímJ 
Received Ol^.T, »"?'»• 



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o AROHEOLOGO 

PORTUaUÊS 



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o ARCHEOLOGO 




COLLECÇHO ILLDSTRADA DE NATERIAES E NOTÍCIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



REDACTOR— J. Leite oe V*stONCEUOt 



■VOL. "V 



I 



1 




i 

=3 

I 



Veterum volvens monwnenla virorum 
LISBOA 

IMPREKSA NACIONAL 
1900 



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COLLABORADORES DO VOLUME V 



A. B. DE F.: 24. 

A. F. Barata: 87. 

Albano Bellino: 295. 

Albino Pereira Lobo: 14, 44, 79, 105, 114, 13G, 143, 184, 249, 

279, 290, 336. 
António de Vasconcellos : 75. 
Arronches Junqueiro: 7. 
Arsénio Alvares da Silva: 168. 
A. DOS Santos Rocha: 205. 
A. Vieira da Silva 305. 
C DA Camará Manoel: 327. 

E. Húbner: 49. 
Epiphanio Dias: 334. 

F. Alves Pereira: 34. 
Gabriel Pereira: 110. 
Henrique Botelho: 281. 

J. Leite de Vasconcellos : 1, 12, 13, 17, 31, 32, 33, 40, 43, 46, 
52, 74, 79, 87, 93, 104, 109, 120, 123, 138, 166, 167, 170, 192, 
193, 206, 225, 253, 281, 282, 287, 295, 330, 337. 

Joaquim de Castro Lobo: 167. 

José Callado: 42. 

José Joaquim Nunes: 102. 

José Pessanha: 65, 97, 129, 161. 

JuLio Meili: 54. 

L. de Figueiredo da Guerra: 2, 134, 151, 175. 

Manoel Joaquim de Campos: 10, 47. 

Manoel José da Costa e Silva: 107. 

P. Belchior da Cruz: 122, 177, 202. 

Pedro A. de Azevedo: 26, 49, 81, 90, 115, 146, 153, 187, 212, 
254, 257, 297, 337, 343. 

Robert Mowat: 17. 



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VOL.V 1899-1900 N." 1 



O ARCHEOLOGO '"'' »n 

•^600/ iiusEOJH. 




COLLECÇiO ILUISTRiDA DE NATERUES E NOTIdiS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 







S3 



Veterum volvens monumenta virorum 
LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 
1900 



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SXJ3^3^AJRIO 



Aos Leitores: 1. 

LiMiÁ E Brutobriga: 2. 

Estudos sobre Tróia de Setúbal: 7. 

Numismática colonial: 10- 

Moeda de chumbo da republica romana: 12. 

Bibliographia: 13. 

O Castro do Lombeiro de Maquieiros em Gondesende (Bra- 
gança): 14. 

P.** José Augusto Tavares: 17. 

Monnaie de Baesuris, ville de Lusitanie: 17. 

Sêllo do padre-mestre Gonçalo Origiis, dominicano em San- 
tarém: 24. 

Extractos archeologicos das «Memorias parochiaes»: 2G. 

Notícias várias: 31. 



Este fascículo vae illustrado com 11 estampas. 



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o ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 



COLLECÇÀO ILLUSTRADA DE MATERIAES E HOTICIAS 
MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



VOL.V 1899-1900 N.» 1 



AOS LEITOKES 

Por effeito de variadas circamstanoias O Archeologo Português tem 
saído com algum atraso, e n%o pôde mesmo publicar-se volame especial 
no anno de 1899. O vol. v corresponde pois a esse anno e ao de 1900. 
D'aqui em deante espero qne, segundo o que me prometteram na Im- 
prensa Nacional, a publicaçSo se fará com regularidade, devendo appa- 
recer normalmente por mês um fasciculo. 

Mais uma vez me dirijo ás pessoas que se interessam pelo estudo 
da archeologia nacional a pedir-lhes o obsequio de enviarem para este 
periódico noticias, photographias e desenhos de objectos que possuam 
ou de que tenham conhecimento, ou quaesquer artigos que se relacionem 
com o assunto. Ko fim de alguns annos o Archeologo formará assim vasto 
repositório, que servirá da maior utilidade aos especialistas dos vários 
ramos da archeologia. 

Em verdade O Archeologo nSlo morrerá á mingoa de artigos, porque 
nos museus, nas minhas pastas, nas minhas carteiras, e, ia a dizer, de 
baixo do solo, possuo materiaes para, embora no meu pouco, só por 
mim mesmo o encher; mas é evidente que com a collaboraçSo dos 
outros investigadores (e tem ella sido até hoje t%o dedicada) o perió- 
dico realizará melhor a sua missão. 

Lisboa, Janeiro de 1900. 

J. Leite de Vasconcellos. 



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o Archeologo Português 



Limia e Brutobriga 



É tempo de acabar com as erróneas crenças, que por ahi andam 
arreigadas, sobre a identificação de cidades antigas que se julga ha- 
verem florescido nas margens do nosso decantado Lima; também os 
archeologos portugueses dos séculos xvii e xvm, embuidos num ex- 
cessivo amor pátrio, teimaram em localizar na pequena facha do ter- 
reno que occupamos na Península quantas povoaç5es notáveis os es- 
criptores latinos referiram á Hispânia. 

A Lusitânia e a Tarraconense Occidental, na parte respeitante a 
Portugal e á Galliza, tinham povoações importantes, conservando o 
maior número a sua denominação nacional, anterior á invasão romana. 
Convém synthetizar as ultimas investigações toponymicas. 
A Lusitânia dividia-se em três conventus: 
I — Pacense. 
II — Escallabitano, e 
III — Emeritense. 
No primeiro ficavam: 

Ossónoba, Faro. 
Balsa, Tavira. 

Metallum Vipascense, Ajustrel. 
Merobriga, Santiago de Cacem. 
Salacia, Alcácer do Sal? 
Cetobriga, Setúbal? Tróia? 
Pax Júlia, Beja. 
Ebora, Évora. 
No segundo: 

Olbipo, Lisboa. 

Scallabis, colónia Praesidium Julium, Santarém. 
Collipo, Leiria. 

Conimbriga, Aeminium, Condeixa, Coimbra. 
Civitas Aravorum, Castello Branco? 
Civitas Igaeditanorum, Idanha. 
E no terceiro: 

Augusta Emérita, Mérida. 
Metellinum, Medelim. 
Norba, colónia cesarina, Cáceres. 
Caurium, Cória. 



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o Archeologo Português 



Mirobríga, Cidade Rodrigo. 

Salmantica, Salamanca. 

Cesaróbriga, Talavera de la Reina. 

Augustóbríga, Talavera a Velha. 
A Tarraconse continha, entre outros, os três conventos: 
I — Bracaraugustano. 
n — Lucense, e 
III — Astaríco. 
No primeiro apenas as cidades de: 

Brácara 

Fórum Limicorum, Guizo, e 

Tudae, eTuy. 
No segundo: 

Lucus Augusti, Lugo. 

Iria Flavia, Padrão, e 

Flavium Brigantium ou Brigantia, Betanços, perto da 
Corunha. 
E^no terceiro: 

Astures Augustani, Astorga. 

Zoelae, Castro d^AvellSs (?) e 

Legio*Gemina, LeSo. 

Todas as demais povoaçSes nSo mencionadas nas inscripçSes lapi- 
dares e numismáticas as reputamos de somenos importância, ou, se a 
tiveram, foi isso em epocha posterior ao dominio dos latinos, como por 
exemplo Aóbriga, Aúrega, Áurea, hoje Orense, cidade sueva do sé- 
culo IV da era christã. 

A toponymia tem a grande vantagem histórica e etimológica de 
nos indicar o roteiro que os vários povos seguiram na sua emigração 
através da Peninsula. 

Precioso legado este sobre que devemos basear os nossos estudos, 
e que convém augmentar por subsequentes investigações. 

n 

o Fórum ou Cúria dos Limicos assentava na planura do monte 
do Viso, perto da serra de Baldriz, distando as suas minas, no sítio 
onde hoje chamam — a cidade — , uns 13 kilometros para o nascente 
de Guizo, e 7 a ESE. da «laguna» de Antela, que dá origem ao nosso 
rio Lima; esta lagoa tem 5:000 hectares de superfície, e dissecada 
constituiria fértil veiga, que seria uma riqueza para estes povos. 



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o Archeologo Português 



AUi jazia ainda no anno de 132 de C. a civitas Limicorum, cujos 
homens livres erigiram uma memoria de adhesão e affecto ao Impe- 
rador Adriano, e outra em 141 ou 142, ao bom Antonino Pio; ambos 
estes monumentos os vimos mettidos no firontispicio da capella de S. Pe- 
dro, único edifício que resta de pé da famosa Limica. 

Sabe-se, pois, com exactidão que as ruinas que se alastram em 
grande extensSo ao sul do nascente do nosso rio pertencem á Limia. 

Chamar a Ponte do Lima Fórum Limicorum é de ignorância pas- 
mosa, que nem os Estrangeiros no Lima, i, 114 e 119, ousam sus- 
tentar, fugindo pela tangente de fazer distincçfto entre civitas e foram 
Limicorum. 

O próprio bispo Idacio (390-470), no seu curioso Chronicon, nos as- 
severa ser límico. Vid. a EspaSla Sagrada, de Henrique Florez, iv, 347. 

E se únda os monumentos existentes no mesmo local e o teste- 
munho de um escríptor antigo, insuspeito e d'alli natural, vos nSo bas- 
tem, lede um curioso artigo do nosso collega hespanhol D. Aureliano 
Fernandez Guerra y Orbe, na Revista Archeologica, publicada em 
Lisboa em 1888, ii, 96-98, onde trata da inscripçlo da ponte de 
Chaves. 

m 

Entre as antigas moedas da Hispânia ha uma que nos merece par- 
ticular interesse; apresentou-a pela primeira vez Henrique Florez, na 
sua Collecção de moedas peninsulares, na tabeliã 67, e ultimamente 
vem transcripta no tomo i, 45, do magnifico TVatado de numismática 
de D. António Delgado, publicado em Madrid em 1871. E de cobre, 
com 0°,027 de diâmetro ou módulo; na face tem uma cabeça de ho- 
mem, voltada á direita, com a legenda: 

T. MANLIVS. T. F. SERGIA 

e no reverso um navio, e debaixo um peixe, e em volta a palavra 

BRVTOBRICA 

Decididamente que é este o nome da cidade que cunhou a me- 
dalha; e que foi povoaçXo de navegantes e pescadores no-lo denunciam 
o barco e o peixe, symbolos favoritos dos moedeiros celtibericos do 
meio-dia e occidente da Hispânia. 

Dois illustres archeologos, Delgado, acima referido, e o Dr. Emilio 
Hubner, coUocam aquella Brutobrica em Portugal, determina&do-lhe 



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o Archeologo Português 



o sábio professor allemão a situaç&o entre Thomar e Abrantes, na foz 
do rio Zêzere, sobre o Tejo. Vid. Arch, PorL^ iii, 164. 

Nesta mesma carta que o exímio philologo berlinês escreveu, em 
11 de Março de 1897, ao nosso amigo Dr. J. Leite de Vasconcelios, 
director doeste jornal, confessa que o nome de Brutobrica deriva de 
Decio Junio Bruto Caliaico. 

Ora se o nosso* Lima foi o termo da expedição de Bruto, cujos 
soldados, passando o Lethes, se estabeleceram aqui, esquecendo a sua 
antiga pátria, e se o capitão romano, por sua vez, se appellidou Cal- 
iaico, é no valle do Lima, é na Gallecia, á beira-mar ou nas suas pro- 
ximidadeS; que devemos buscar a alludida cidade. 

Certamente que Brutobriga deve a sua fundaçSo a Junio, que a 
edificou nesta provincia, ou então impoz o seu nome á cidade indí- 
gena mais importante doestes sitios, sem que esta perdesse a sua feição 
typica. 

Os attributos das moedas brutobrigenses provam que a cidade era 
marítima. 

Alguns antiquários pretendem, sem fundamento solido, e apenas 
pelas distancias milliarias do Itinerário, dispor Araducca na emboca- 
dura do nosso Lima. 

A Vianna dei BoUo, sobre o rio Bibey, na Galliza, corresponde a 
cidade de Volobriga. 

IV 

Costuma-se hoje em dia chamar á extincta povoação do monte 
de Santa Luzia, em Vianna, — BRITONIA — , e num relatório, do- 
cumento official, acha-se a seguinte estranha menção: Ruínas prehis- 

TORICAS DA BrITONIA. 

Para a archeologia é uma novidade que a Britonia seja uma po- 
voação anterior aos tempos históricos! 

Sempre cuidei, pelos documentos ecclesiasticos da idade média, 
que Britonia fosse uma cidade episcopal que o bispo de Tuy, o chro- 
nista Fr. Prudencio de Sandoval, e todos os escriptores hespanhoes, 
antigos e modernos, identificam, a 10 kilometros de Mondonhedo, 
com Santa Maria de Bretonha, próximo das fontes onde nasce o rio 
Minho. 

A existência de Britonia é-nos revelada simplezmente pelos es- 
criptos dos cartórios; não conhecemos lapide nem moeda que se lhe 
refira. 

Historiemos agora: 

No anno de 870 veiu Saborico I, Bispo de Dume, junto a Braga, 



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o Aecheologo Portugdês 



fugindo aos musulmanos, e estabeleceu a sua residência a duas léguas 
de S. Martinho de MondonhedO; persistindo a Sé dumiense neste sitio 
até 1112, em que a. rainha D. Urraca a passou para Villa Mayor, pri- 
mitiva denominação de Mondonhedo, que distava 3:000 metros do sítio 
actual. Chamou-se a esta igreja dumiense, valíbriense e mindoniense ; 
sendo conseguintemente o bispado de Mondonhedo a continuação do 
de Dume, nos arredores da cidade bracarense. 

Seriam Brutobriga e Britonia uma e a mesma cidade? 

Cremos que nSo. 

É certo que sXo duas cidades distinctas: Britonia nunca se escreveu 
Brutonia, ficando aquella.no pais dos Brittones, na alta Galliza, em 
Mondonhedo, sendo irrisórios os argumentos adduzidos pelos nossos 
chronistas e chorographos para avocarem para as margens do Lima 
aquella cidade episcopal gallega. 

As ruinas até hoje exploradas no nosso districto de Vianna paten- 
teiam simples estações indígenas, de somenos importância, nSo podendo 
com ellas identificar-se a Brutobriga, a nào querermos suppô-la, como 
é meu parecer, uma povoaçSo que se subtraiu á influencia romana, e 
da qual apenas recebeu o nome, que passou á historia; porque neste 
caso apontaremos as extensas ruinas de Santa Luzia como a prin- 
cipal póvoa da costa maritima entre Lima e Minho, e nas condições 
de convirem e serem indicadas como restos da antiga cidade de Decio 
Junio. 

Em parte alguma convém tanto situar Brutobriga como na margem 
direita do Lethes, esse celebrado rio, cujas aguas vadeadas fizeram 
esquecer aos soldados romanos a sua pátria. Para que repetir aqui 
textos e citações? 

Identificado o Lethes com o Lima, localizada está a Brutobriga 
em questfto. 

V 

Ainda hoje uma errada tradição litteraria, certamente originada 
nas chronicas ecdesiasticas, pretende coUocar: 

— Aramenha, nas ruinas do monte do Santinho ou Roques, no 
planalto entre Villa Franca e Villa de Punhe, no concelho de Vianna ; 

— Carmona, Caramona ou Carbona, nas ruinas do monte detrás 
do mosteiro benedictino de Santa Maria de Carvoeiro, sobre os limites 
de BalugSes e de Poiares, no ponto onde se reúnem os concelhos de 
Vianna, Barcellos e Ponte do Lima; 

— Norba, no alto da Nó, Nahor, ou Nora, no monte da Facha, no 
concelho de Ponte do Lima, e que merece especial referencia; 



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o Archeologo Português 



— Cauca e Córium em Coura, no alto Minho; e 

— Áurea, na capella de S. Miguel o Anjo, defronte da villa de 
Ponte do Lima, fazendo- a derivar, bem como Arga, de Aurega. 

Nos cimos dos montes de Roques, Carvoeiro e da Nó ha restos 
de vastos circuitos amuralhados com casas, antigas estações, do typo 
da de Santa Luzia; taes ruinas apparecem em todas as elevações da 
ribeira do Lima, na costa do mar, do Neiva ao rio Minho, e até mesmo 
no centro das serras da Armada, Ourai e da Amarella. 



L. Figueiredo da Guerra. 



Estudos sobre Tróia de Setúbal 

8. Cerâmica romana 

A valiosa serie de artigos que O Archeologo Português tem publi- 
cado sobre este assumpto, venho juntar a notícia de uns objectos que, 
por mero acaso, encontrei na Tróia, e hoje fazem parte da minha 
collecçâo archeologica. 




Flg. l 



O primeiro é o vaso representado na fig. 1, cuja forma lembra a 
almotolta usada nos nossos campos. 



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8 



O Abcheologo Português 



l" 



É de barro muito grosseiro, de côr vermelha, tendo, na massa, 
grãos de areia, o que lhe dá apparencia dos barros do período neo- 
lithico; e accentua mais esta semelhança a irregular espessura das 
paredes, as quaes parecem ter sido moldadas á mão, e nlo na roda 
do oleiro, de que nSo apresenta o mais leve vestigio. 

Tem este vaso 0"',095 de alto por 0"*,083 de diâmetro máximo e 
na boca 0™,025. 





Flg. 2 



Fig.3 




Fig.A 



Os vasos que as figs. 2 e 3 representam sào de barro vulgar e de 
côr vermelha escura. O da fig. 2 tinha sobre a boca a valva superior 
de uma vieira pecten maximus; mas como os vasos estavam cobertos 
e cheios de areia, o que prova, a meu ver, que as ágoas do mar 
revolveram e confundiram tudo naquelle ponto, pôde — o que eu 
creio — ter sido accidental a adaptaçSo da vieira á boca do vaso. 

Como nâo encontrei no sítio mais conchas, por isso tomei nota 
d^aquella particularidade. 

Um pouco adeante, também envolvidos na areia, encontrei dois 
vasos de barro branco muito fino. 

Como sâo perfeitamente iguaes, desenhei um só (fig. 4). 



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o Abcheologo Português 



9 



Junto a estes vasos estava um objecto de barro, também branco, 
mas muito mais grosseiro. E massiço e de forma cylindrica (fig. 5.) 




Flg.5 

Por ultimo encontrei a lucerna com ornatos no disco (fig. 6). E de 
barro branco, e apresenta em vários pontos vestígio de que fôra reves- 
tida de uma ténue camada de barro diluido, e ligeiramente vermelho. 

Tem cr, 103 de comprimento, 0"™,076 de largura e 0",02õ de altura. 

O orificio exterior mede 0"*,(X)9, e o do centro (y",007. 




Fig. 6 



Eis os objectos que encontrei. Se bem que pouco valiosos, porque 
nada esclarecem do passado, sSo, comtudo, interessantes, como inte- 
ressante é tudo o que se relaciona com a mysteriosa Tróia. 

Setúbal, Quinta da Lage. 

AuRONCHES Junqueiro. 



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10 o Archeologo Português 



Numismatioa oolonial 

Egtado a propósito de moedas de prata indo-portngaesas 
eom as datas oblitteradas 

Temos visto, especialmente no reinado de D. Jofto V, vários exem- 
plares com 08 cunhos j)arcialmente esmagados, por effeito de pesos 
que os opprimiram nos legares em que foram perdidos. Semelhante 
estrago não deve attribuir-se a outra causa. 

Alguns numismatas tem regeitado moedas nestas circimistancias, 
banindo-as como fazenda avariada que não tem arrumação em luxuosos 
mostradores, e assim vão perdendo raridades apreciáveis, que outros, 
mais práticos e menos exigentes, aproveitam, rindo-se da ingenuidade 
fidalga. Uma rupia, hoje nossa, correu de mão em mão, tida por inútil 
perante os desdenhosos, só porque o cerceio eliminara a parte inferior 
de cada um dos algarismos do anno de 1726. Nós tivemos occasião 
de pôr termo áquelle gyro infeliz, arrecadando a jóia rara. Outra rupia 
igual, sem vestígios de data, oblitterada por esmagamento (veja-se o 
n.® 250 do catalogo de Shulman, leilão de 5 de outubro de 1896) foi 
adjudicada á Universidade de Leyde por 27,70 florins, ou 12i$952 
réis em moeda portuguesa ao cambio da epocha. O estrangeiro, apre- 
ciador entendido, foi cobrindo os lanços dos numismatas portugueses, 
entre os quaes nós fomos representados por alguém. 

Nenhum numisma indiano se deve desprezar desde que seja reco- 
nhecível. O tempo e o uso sempre macularam antiguidades de toda a 
espécie. Não queremos porém dizer que se arrecadem moedas safadas, . 
ou chapas, descidas á classe de anepígraphas. 

Desde que um exemplar seja authentico, verificado o reinado a 
que pertence, evidenciada a espécie e outros attributos, não deve con- 
demnar-se ás urtigas, por não possuir a respectiva data, ou porque 
enfermou envelhecido nos vaivéns da sua missSo. Estampas de catá- 
logos estrangeiros contém desenhos de moedas gastas, furadas, cer- 
ceadas, mas que nSo perdem cotação nos leilões, mesmo fora da classe 
das raras. O coUeccionador não poderia rodear se deflores de cunho e 
de bellas conservações, dado que lhe fosse fácil reunir os materiaes de 
todos os museus numismáticos para formar um só museu. NSo é possivel 
arre^mentar soldados de igual estatura, nem pautar as cidades com 
edificios de idêntica architectura e grandeza. A numismática não é 
um luxo de metaes sem mácula. O estrago torna-se ás vezes, por 
assim dizer, útil, quando concorre para provar authenticidade. A his- 
toria, a chronologia, a geographia, a ethnographia, e outras sciencias 



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o Archeologo Português 1 1 

que a namismatica elacída, nSo prescrevem ao numisma encantos de 
formosura por condição indispensável á estima. Convém apurar as 
raças, mas nSo se deve excitar a paixão do apuro até o desdém, se as 
enfermidades da velhice reduziram á condição de múmia exhumada 
aquelle numisma que não merecer a quietação da morte em leito de 
valia commum. A archeologia arrecada religiosamente o acicate oxy- 
dado, a lança de silex partida; a numismática, sua dilecta fllha, não 
deve arremessar no monturo a alcofa do ferro-velho, só porque as fi- 
bras tem dilaceradas, ou não conserva atilhos. 

Deve registar-se que as moedas indo-portuguesas não formam se- 
quencias de bellas conservações no circulo dos colleccionadores; que 
a imperfeição das cunhagens sempre dava o primeiro passo no caminho 
do estrago, desde a percussão do martello a ferir conforme calhava 
em bordoada de cego; que as flores de cunho propriamente ditas se 
limitam aos raros ensaios monetários do tempo de D. Maria II e a 
diversos valores fabricados em Bombay no reinado de D. Luiz I, os 
quaes vários curiosos arrecadaram na epocha da emissão. 

Para achar a verdade numa data que offereça dúvida, oblitterada 
parcial ou totalmente, nós seguimos o methodo comparativo com o 
auxilio de conhecimentos adquiridos no estudo de collecçoes alheias. 
Os pseudo-retratos dos monarchas portugueses impressos nas moedas 
indianas, variados em todos os annos, se o estudioso os conhece, ac- 
cusam as datas que tiveram, e assim na classificação de um meda- 
Iheiro, chronologicamente seguida, não fica logar vago para hospede 
anonymo. Quanto á numismática romana também se decifram legendas, 
corroidas pelos séculos, reconhecendo-se os bustos dos Imperadores, in- 
confundiveis. Existe um parentesco notável entre os dois principies na 
busca de uma incógnita. Aconselhamos e seguimos o methodo compa- 
rativo, o de melhor confiança na prática, certificando que outro não 
lográmos encontrar no vasto caminho de investigações numismáticas, 
que temos percorrido infatigavelmente. 

Se o coUeccionador novato pensar que na moeda, após a cunha- 
gem, foi destruído o miilesimo premeditadamente, visado um fim qual- 
quer, pouco digno, filho de circumstancias que concorreram na escolha, 
na contagem ou não emissão, affirmamos que elle se illude. O numisma, 
sempre mal obsequiado pelo martello, entrava na circulação com a 
respectiva data, que o gravador gentio muito raramente dispensava, 
desde o tempo de D. João IV, embora o povo, na maior parte anal- 
phabeto, não procurasse conhecê-la, porque da moeda apenas apreciava 
o bom titulo do metal. Era motivo secundário o typo, cuja mídor ou 
menor imperfeição deixava de prender as attenções geraes. Elle era 



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12 O Archeologo Português 

a garantia, a marca officiai, a authenticidade perante o publicO; por 
tanto nSo convinha destrui-lo. Os crimes de lesa-numismatica eram: a 
falsificação, limitada a certas epochas quasi exclusivamente nas moedas 
de cobre, fundidas ou cunhadas fora da colónia portuguesa^ e o cer- 
ceio, frequentíssimo em todos os reinados. 

Ainda quanto ao fabrico é forçoso confessar que houve irregula- 
ridades nas officinas de Goa e Diu; algumas se tomaram célebres. 
Por muito favor nào vemos hoje moedas batidas com dois anversos 
ou dois reversos idênticos. Os cunhos de alguns annos trabalharam 
nos annos inmiediatos. Os pesos não corresponderam á lettra das esti- 
vas. Em certos annos, quando um reverso quebrava, escolhia-se no depó- 
sito qualquer outro, mais antigo, e o fabrico não cessava. Era uma questão 
de economia, e por ella na Casa da Moeda de Goa se emendaram datas, 
quanto ao algarismo da unidade, porém nunca se apagaram. 

Ha quarenta annos andados o indio vivia na ignorância de leis 
monetárias e de typos do numisma antigo. Hoje succede o mesmo 
phenomeno oriental relativamente a homens illustrados; ainda em 1898 
nós tivemos occasiXo de o conhecer. O Dr. Sacarama Sinay Ludo, 
hindu, visitando o museu da Sociedade de Geographia de Lisboa, nâo 
conheceu as nossas moedas indo-portuguesas, expostas ali durante as 
festas conmiemorativas do quarto centenário do descobrimento do ca- 
minho marítimo da índia. 

Antigamente o colleccionador indiano usava de um meio singular- 
mente original na exposição dos seus numismas. Collava-os em cartSes 
e d'estes formava quadros envidraçados que suspendia nas paredes 
das salas. Neste luxo decorativo existia a verdade no estado em que 
tinha apparecido. O indio nSo cuidava de inutilizar legendas ou datas, 
porque nenhum interesse lhe poderia inspirar tal estrago. Hoje são 
raros na índia os vestígios de tão simples meio de exposiçSes particu- 
lares. Aquelles quadros numismáticos foram substituídos por oleogra- 
phias depois que o numisma antigo embarcou para o occidente. 

Manoel Joaquim de Campos. 



Moeda de cliimíbo da republioa romana 

O Sr. Francisco Gnecchi, no n.® xxiii dos seus suggestivos e im- 
portantes Appunti di numismática romana, Milano 1892, trata de vá- 
rias moedas de chumbo romanas, que elle, por várias razSes, considera 
como falsas, embora pertencentes ás epochas a que se referem. 



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o Archeologo Português 13 

Em 1895, por occasiSo de proceder a uma excavaçâo archeologica 
no castro lusitano ou «Castello» de Domes*, encontrei a seguinte 
moeda de chumbo, que sem dúvida se relaciona com as muitas de que 
falia o Sr. Gnecchi. Eis uma estampa: 




Anverso: Cabeça da deusa Roma, voltada para a direita, com ca- 
pacete alado; na nuca M pontuado nas extremidades. 

Reverso :Yictona, numa biga, a galope, á direita. No campo, deante 
da cabeça da deusa, III. No exergo, em duas linhas, D- SILANV« — 
ROMa. 

De Decimo Junio Silano, que foi monetário por 89 A. C. 

Cfr. Babelon, Monnaies de la republique romaine, li, 108, n.® 16. 

É possível que muitas moedas d'este género tenham apparecido 
em Portugal; mas nXo sei de mais nenhuma. 

J. L. DE V. 



Bibliograpliia 

Revista de Guimarães, xvi, n." 1. — Materiaes para a archeologia 
do concelho de Guimarães, por F. Martins Sarmento (notícias archeo- 
logicas de S. Salvador do Souto, Santa Maria do Souto, Gondomar 
e Garfe; com um appendice á cerca da crítica publicada por mim 
n-0 Arch, PorL, rv, 233-240, assunto em que nSo insisto por Martins 
Sarmento ter fallecido); Couto de Ronfe, por Oliveira GuimarSes; Tra- 
dições populares, por João de Vasconcellos (costumes funerários: cfr. 
as minhas Tradiçdes populares de Portugal, nos respectivos §§). — N.° 2. 
Capdla e morgado de GuUhomil, por José Machado; Caldas de Vizella, 



1 Ao meu amigo, o Sr. José Maria Pereira, de Domes, devo o conhecimento 
da existência doeste castro, e de outras estações archeologicas na região do Zêzere, 
por onde andei, e onde obtive vários objectos que vieram para o Museu Ethno- 
lógico. Receba mais uma vez o Sr. José Maria Pereira o meu sincero agradeci- 
mento pelo bem como me tratou, e pelo serviço que prestou á archeologia. — 
^esta excursão acompanhou-me o Sr. Maximiano Apollinario, adjunto do Museu. 



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14 O Archeologo Português 

por Oliveira Guimaries ; Catalogo das moedas romanas, celtibericas e wi- 
sigodas, por Albano Bellino. 



O DOLMEN DA Barrosa, Dotícia abreviada doeste monumento pelo 
general Mesquita Carvalho, Porto, Magalhães & Moniz, 1898, 130 pag.^ 
in-8.^, com uma estampa do monumento na capa, e uma planta e 
cortes no fim. Preço 500 réis. 

Illude-se o leitor, se espera encontrar neste livro alguma noticia 
archeologica de certa importância. O auctor é espirito cultivado, e es- 
creve com facilidade e elegância; mas, em relação ao monumento que 
serviu de pretexto para o seu trabalho, limitou- se a dar d'elle uma 
estampa, a tomar umas medidas, e a fazer uns esboços (o mais que 
ahi incluiu sSo meras divagações). Desconhece (pag. 98) que existem 
muitos monumentos d'este género no Minho, e nem mesmo cita o que 
sobre o dolmen da Barrosa em especial se tem já escrito. A cerca da 
explicação (pag. 100) que dá da remoção das lages que constituem os 
dolmens feitos pelos homens prehistoricos confirma o que eu também 
disse nas Religiões da Lusitânia, i, 274. 

J. L. DE V. 



O Castro do Lombeiro de Maquieiros em Gondesende 

(Bragança) 

Na margem direita do Rio Vasseiroe termo de Gondesende, a poente 
e distante doesta povoação da margem esquerda do mesmo rio 2 ki- 
lometros e de Bragança 14, proximamente, encontrei a inscripção A 
numa fraga a que chamam «molar», que está quasi toda soterrada 
pelo terreno da encosta, ficando apenas a descoberto a parte que a 
contém, que me parece completa e considero exacta, pois tirei várias 
provas d'ella, sendo todas conformes. A 0^,1 á esquerda dos caracteres, 
e correspondente á 2.* linha vê-se um pequeno buraco de 0",04 de 
diâmetro e O^yS de profundidade. Por baixo da fraga informaram-me 
ter-se visto noutro tempo uma grande cavidade que suppunham ter sido 
tã^por individues que tivessem vindo ali á procura de thesouros. In- 
feriormente e quasi contigua a ella está outra fraga de côr negra e 
de natureza mais rija, que parece pela sua collocaçâo ter alguma rela- 
çâo com esta. A sua situação vae indicada no esboço B que tirei á vista 
doesta posição, e pelo qual se pôde fazer uma ideia bastante approxi- 



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o Archeologo Português 15 

mada da sua forma, configuração e natureza das suas encostas, que a 
nSo ser pelo poente, para onde se continua formando o terreno pequenos 
ondulações, pelos outros lados s&o de tal modo Íngremes que toma dif- 
ficillimo o seu accesso, principalmente a do lado do sul, que é fonnada 
por um rochedo enorme cortado a pique. E por isso raras vezes sSo 
cultivadas por ser custoso o seu fabrico, razSo porque o mato de 
carvalho e de esteva toma taes proporções, que mal se pôde penetrar 
nelle e fazer a sua exploração. 

No alto d'esta posição encontrei um formoso castro, cuja configu- 
ração se vê também do esboço, formado por muralhas de pedra solta, 
apresentando na parte do poente uma elevação circular que ora me 
pareceu ser uma pequena torre desmoronada, ora se me afigurou, pela 
sua forma, que fosse alguma mamôa ou modorra. Em volta das mura- 
lhas, cujas ordens de andares nSo pude bem precisar, por o meu reco- 
nhecimento ser feito muito á pressa, vêem-se ainda, em partes, vestipos 
de fosso. 

Existindo até hoje numa obscuridade absoluta, sem ter ninguém 
que fallasse da sua inscripçâo, das suas muralhas, das suas fragas e 
dos outros vestigios que nelle se encontram á superfície do solo, taes 
como pedaços de granito trabalhado, que calculo haverem pertencido 
a mós manuarias, e fragmentos pequeníssimos de louça grosseira, o 
nosso Castro não era conhecido pelas povoações oircumvizinhas senSo 
pelo nome de cLombeiro de Maquieiros». Muito longe se estava de se 
suppor que elle era, a avaliar pelas suas inscripções (pois dizem-nos que 
alem d'esta ainda lá existe outra muito semelhante que não fomos capaz 
de encontrar) uma estação archaica da m^s alta importância e digna 
de ser estudada e venerada, como um marco que assignala a passagem 
de uma civilização e como um fragmento da immensa historia da hu- 
manidade, no período em que ella é mais interessante e curiosa, por 
nos dizer do homem e da sociedade quasi na sua infância. 

Assim, sobre esta inscripção, o nosso amigo J. Leite deVascon- 
cellos, a quem pedimos o obsequio de a decifrar, disse-nos: — cAoc 
opus, Mc labor estl Aquillo não serão lettras das nossas, mas o que 
eu nas Religides da Lusitânia chamo insculpturas pre-historicas : lá, a 
pag. 350-390 do vol. i, estudo este assunto, dando desenho de muitas, 
— algumas análogas á sua, — e mostrando a relação de várias d'ellas 
com os castros». 

O conhecimento da epocha a que o castro pertence é ainda, por 
outro motivo, de uma importância capital por poder lançar immensa luz 
sobre o estudo da archeologia doesta região, dando-lhe orientação e 
permittindo a classificação dos diversos castros que por aqui se encon- 



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16 O ArCheologo Português 

tram, que até hoje mal se conjecturava o que fossem, considerando-os 
alguns, á falta de melhor fundamento, de «touraes dos mouros» ou de 
«atalayas» ! Mas, se o confrontarmos agora com os castros da Sapeira, 
em Babe, com o de Samil, aonde a pouco mais de 100 metros a sul se 
vê uma fraga com a € pegada da Senhora i», e próximo da vertente Occi- 
dental outra chamada da €Salvage3, com o de Fromil ou ^Toural doê 
mouro8i>, com o de OuzilhEo* ou a ^Mwraddha^, e com vários outros, 
somos levados a crer que elles sSo todos do mesmo tempo. 

Isto se induz, alem de outros indicies, da semelhança da sua posição, 
natureza e forma da sua construcçSo, e grandeza e amplitude do seu 
recinto. De modo que, parece-me, sem commetter grande erro,. po- 
demos assentar em classificar os castros doestes sitios em cprehistoricos 
ou do typo do de Maquieiros», e em c luso-romanós ou romanos ou do 
tjpo do de Sacolas». Áquelles pertencem os já mencionados, e a estes, 
entre outros, o de S. Pedro Velho em Babe, Torre Velha (Castro de 
Avelias), Lombeiro Branco (Meixedo), Devesa (Villa Nova) e o Sagrado 
de Donae. 



O que é facto é que se sente o que quer que seja que nos impres- 
siona sobre modo ao andar por cima da muralha do nosso castro ; ao 
observar o horizonte que d^elle se descortina, que ainda é bastante 
vasto para o nascente; ao reparar nos seus enormes fraguedos, alguns 
dos quaes nos parecem estarem ali postos pela mio do homem, e no 
escarpado das suas encostas, que dSo a esta posição o aspecto de pre- 
cipício ; e particularmente ao ver essa inscrípçãò ou antes esses cara- 
cteres ainda desconhecidos e indecifrados que contém o segredo, a his- 
toria dos que o habitaram, e de que lhes traduzem, talvez, um dos seus 
sentimentos mais elevados — o da sua crença ou da sua religião. Então 
como que vemos surgir por entre áquelles matos e rochedos, por entre 
áquelles arbustos, seres humanos, caracterizados por uma feição pri- 
mitiva, que aproveitavam os abrigos naturaes para sua guarida e de- 
fesa, parecendo estarem a contemplar-nos com um olhar mysterioso, 
vago e incerto, e a articular uma lingoagem que não comprehendemos, 
nós, por ventura, os seus descendentes! 

Bragança, Janeiro de 1899. 

Albino Pereira Lopo. 



^ Em OuzilhSo, alem doeste castro, existe catre que ainda não tive occasiáo 
de o ir ver, mas que, a julgar pelas informações qa? tenho e pelas moedas nelle 
encontradas, é romano. 



GoQçIe 



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V 



indzc€L sy^n€ie9ca.vcuío7^ 
muito l^eiramenté 

^DiatancicL tina lelffxts €U? Ituna?^ ^'C^^, 
JaMl0ttra9f^ulíL por 0,09 
^O p€tryílíetoffrxíim?rw ^tie limita, a inscrippc^ 
r*epreaent€L a/hrrrut {icLf7*Ma^o7xuJeL terr^tiu 







aAís^ 



^JéUnaZKoM I f±T Arvores 

l^raa%iL € tÍ9S 



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o Abcheologo Português 17 



P.' José Augrosto Tavares 

Á propósito da offerta de um objecto archeologico para o Museu 
MuDicipal de Bragança, lê-se numa folha d'aquella cidade o seguinte, 
que gostosamente aqui transcrevo: 

•Padre José Augusto Tavares Teixeira, rev.**® abbade de Maçores, 
um dos espirites illustrados e esclarecidos da actual geragSo trasmou- 
tana, que tem dedicado a sua acti^dade intellectual ao estudo daa 
antiguidades doesta provinoia, tanto da linguistica como de tudo o que 
pôde concorrer para o conhecimento do seu passado. Sacerdote axem- 
plarissimo, ao mesmo tempo que exerce a evangélica missXo da direc- 
ção espiritual dos seus pistrochianos, vae, como espirito sagaz, obser- 
vador, colhendo entre elles e nos seus hábitos, usos e costumes, todas 
as jóias archaicas perdidas que hSo de um dia servir para formar um 
thesonro de subido valor para a historia doesta regiXo. 

Como homem culto foi um dos primeiros, que lá de uma escondida 
aldeia, levantou a voz e saudou com a sua penna fluenta a fundação 
do Museu Municipal de Bragança, e para o qual tem ofFereeido, por 
diversas vezes, vários objectos». 

(Da Gazeta de Bragança, de 22 de outubro de 1899). 

Faço com tanto maior prazer a transcriçio, quanto é certo, que ao 
desvelado amor que o meu amigo o Rev.**® P.* Tavares vota á sciencia 
deve também o Museu Ethnolo^co Português a posse de importantes 
donativos archeologicos. 

J. L. DE V. 



Monnaie de Baesuris, ville de Lusitanie 

Bien que le nom de la ville lusitanienne Besuris fftt connu par un 
passage du géographe anonyme de Ravenne ^, on s'était habitue à lui 
préférer la forme Esuris donnée par la plupart des manuscrita de 
Vltinéraire d'Antonin*. 



1 Ravtmnatiê anonymi Casmographia et GtUdonis Creographica^ ed. Finder et 
Parthey, 1860, m, 43, p. 305. 

2 Fortia d'Urban, Becueil des itinérairea andenê, 18i6, cxr, p, 128, cxtui^ 
p. 130. Itineraritm Ântomni Áugtuti, ed. Parthey et Pinder, 1848, p. 204, 205. 



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18 O Archeolooo Poetdguês 

Cette préférence semblait justifiée par le fait que, sur une monnaie 
défectueuse de moyen-bronze conservée au médailler de Madrid, Heiss * 
et Zobel* croyaient lire ESVRI et que, sur un autre exemplaire re- 
cueilli par feu Estacio da Veiga, cet antíquaire avait dóchiffré ^SVRT, 
leçon adoptée, d'après sa copie, par Delgado^ et par Hiibner*. Or dès 
1883, sur une empreinte de ce même exemplaire communiquée à la 
Société des Antiquaires de France, les membres présents y ont aisé- 
ment reconnu toutes les lettres du mot B-S3SVRI. Ce résultat inté- 
ressant pour la numismatique et pour la topographie lusitaniennes fut 
signalé en son temps ^, mais ne parait pas être sorti du cercle des pu- 
blications spéciales françaises; le directeur de VArcheologo português 
a dono voulu qu'il fíit porte d'uiie façon plus directe à la connaissance 
des savants de son pays, et c'est ce qui me vaut Thonneur d'être au- 
jourd^hui son collaborateur. 

Je commence par la description des deux seuls exemplaires de la 
monnaie de Baesuris connus jusqu'à présent. 




B^SVRI, en legende rectiligne au milieu du champ , hauteur des 
lettres, 4 millimètres; ligature de AE. Au dessus et au dessous, un épi 
couché, le sommet à droite. Cordon de grénetis. 

^. — M-ÍT-ÍT-ET I CON- en deux ligues au milieu du champ; 
hauteur des lettres, 2yj millimètres; ligatures de ANT (deux fois) et 



* Aloiss Hciss, Description générale des monnaie» antiques de VEspagne^ 1870, 
p. 414, fl. Lxiii. 

2 Zobel de Zangroniz, Estúdio histórico de la moneda antigua espanola, ii, 
1880, p. 18. 

3 António Delgado, Nuevo método de dassificadon de las medallas autónomas 
de Espana, ii, 1871, p. 30, pi. xxiv. 

* Aemilius Hubncr, Corp. inscr. lat., ii, Suppl. 1892, p. 785. Monumenta Un- 
guae ibericae, 1893, p. 134. 

^ BuUetin de la Société des Antiquaires de France, 1883, p. 101, 102, figure, 
174-, 1884, p. 139, 140. Bulletin épigraphique de la Gaule, iii, 1883, p. 152, 153 ; iv, 
1884, p. 93. Revue numismatique, 1883, p. 114; 1884, p. 3S8, figure. 



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o ÂRCHEOLOGO PORTUGUÊS 19 

de NL. Au dessus, un poisson (thon?) nageant à droite. Grénetis. 
Bronze; diamètre, 24 millimètres. Conservation passable. De Tancieiíne 
collection Estacio da Veiga; on ignore ce qu^il est devenu; il n'en est 
même point fait mention dans le catalogue qu^il avidt dressé des mon- 
naies hispaniques recueillies par lui ; heureusement un fac-similé en a 
été publié dans le BuUetín de la Société des Antiquaires de France, 
1883, p. 101 et dans la Remire numismatique, 1884, p. 383. 

L'exemplaire du Cabinet de Madrid parait être une variété du 
précédent à cause de quelques différences de détail qui s'opposent à 
ridentité des coins; le module est de 27 millimètres, et le poisson j 
est figure nageant à gaúche. L'état de conservation est três médiocre: 
au droit, on n'aperçoit aucune trace de B ni de A, en sorte que la 
legende se réduit à ESVRI; au revers, la deuxième ligne ne laisse plus 
voir que deux lettres presque oblitérées, ON. Cette pièce se trouve 
gravée dans Touvrage de Heiss, pi. LXin, et dans celui de Delgado, 
tome n, pi. xxiv. 

La legende du droit leve définitivement toute incertitude sur la 
forme Baesuris et confirme sur ce point Texactitude du renseignement 
foumi par le Bavenuate dans son énumération de vingt cinq villes lu- 
sitaniennes^: 

Item super fretum Sepiem sunb civitates, id est Bersippon (lisez, 
Baesippon), Merifabion (Itin. Anton. Mercablo), Cadiiana (lisez, Go- 
ditana)y Portum, Asta, Serpa, Pace Itdia, Mirtílin, Besurin, Balsa, etc. 



1 lY, 48 (éd. Parthey-Piuder, p. 305). Dans maint autre passage, le frtivm 
Sepiem est appelé tout au long Septtmgadinatym; cf. ibidem, i, 3, 17; lu, 11, 12; 
lY, 41, 46; y, 4^ 16, 33. II s*agit du détroit de Gadès, y^-eíu^ qui dicitur Sepiem, . . 
quique Gctditanuê vocatur (Guido, Geogr., 84, p. 516). L^explicatiou de ces noms 
nous est donnée par Pline, Nat. Hist.y iv, 36 : Gadir, ita púnica lingua sepem 
síffnifioarUe. lí est visible que sepem ou son sjnonjme septum au sens de «enceinte, 
pare» a fini par prendre un faux air de ressemblance avec le nom de nombre 
septem quand rétymologie du mot punique Gadir (gr. rá^upx, lat. Gades) a été 
oubliée; c*est ce qui a donné naissance au pléonasme Beptemgaditanmm. Main- 
tenant si Ton considere que la colonie tyrienne de Gadir 8'élevait sur Templace- 
ment de Fantique Tartessus, résidence du roi Géiyon auquel Hercule ravit ses 
troupeaux de boeufs, on en conclura que son noin signifíant «enclos, pare à bé 
tail» rappelle précisément le souvenir de Texploit du héro3 tyrien ; et de même 
que Septem, pour sepem ou septum est la traduction latine du punique Gadir, 
de même il est vraisemblable que Gadir n*est lui-même que la traduction phé- 
nicienne du nom ibère Tartessos. Pour Tidentité topographique de Tartessos et 
de Gadir, voir Strabon, iii, v, 4 et Pline, iv, 22, 36, 120. Cf. Movers, Die Phõ- 
nizier, ii, p. 622, note 89; p. 624; p. 626. 



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20 O Archeologo Português 

Ij*Itínéraire d'Antonin nomme deux fois Esuri; premier passage, 
ód. Parthey-Pinder, p. 204: 

425, 6 Item de Esuri Pace lulia mpm cclxvii (sic) 

426, 1 Balsa mpm xxim 

2 Ossonoba mpm xvi 

3 Aranni mpm lx 

4 Salacia mpm xxxv 

5 Eboram mpm xliui 

6 Serpa mpm xiu 

427, 1 Fines mpm xx 

2 Arucci mpm xxv 

3 Pace lulia mpm xxx. 

La préposition de pour ab est une faute grammaticale introduite 
dans le texte primitif à une basse époque ^ ; quant aux erreurs topo- 
graphiques ce n'est point ioi le lieu de les discuter'. 

Voici le second passage de Vltinéraire (ibid., p. 205): 

431, 4 Item ab Esuri per compendium 

5 Pace lulia mpm lxxvi 

6 Myrtili mpm xl 

7 Pace lulia mpm xxxvi. 

Or, si au lieu de lire a& Esuri avec tous les commentateurs qui 
m'ont précédé on lit a Besurí, en avançant simplement Ia lettre b, 
on retrouve dans le texte même de Vltinéraire, les éléments néces- 
saires à la restitution de la forme Besuri en conformité avec la leçon 
donnée par le Ravennate et avec la legende de notre monnaie. Cette 
correction si naturelle que j 'ai indiquée il y a une quinzaine d^années 



^ Pour d^autres exemples de ce genre, voir Max Bonnet, Le latin de Grégoire 
de Tours, 1890, p. 607 et sqq. 

* M. Cortez y Lopez, Diccionário geográfico hiêtôrioo de la Eapaíka antiga, 
1835, I, p. 265. L*auteur pense avec raisoD que les copistes ont confondu en 
UQ seal deox itinéraires différents qa'íl propose de rétablir de la manière sni- 
vante : 

Iter ab Esuri Pace lulia: Balsa xxir (Tavira) — Ossonoba xxvi (Faro) — 
Arani xl (Monchique) — Rarapia xxx (Ourique) — Pace lulia xxxix (Beja). 

Iter ab £suri Ebora: Serpa lx (Serpa) — Pines xvi (Moura) — Arucci xxir 
(Mourão: Arucci nova) — Ebora xxix (Ebora). 



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o Aecheologo Português 21 

enleve le demier argument à oeux qui tiendraient encore parti pour 
la forme íautiye Emri. 

Philologiquement, Baes-uri est comparable, pour le premier mem- 
bro, à Baes-ippo et à Baes-ucci, Tun, forme conmie CoU-ippo, Ir-ippo, 
01Í8-ippo, Or-ippo, Ost-ippo, Vent-ippo, Tautre, comme Ar-ncci, It-ucci; 
pour le second membro, à Oo-uri. Je trouve cette remarque dans la 
correspondance de M. Leite de Vasconcellos et je no saurais mieux 
la mettre en valeur qu^ici, sur le propre terrain de son auteur. Dos 
rapprochements de ce genre conduiront peut-être à Tétymolo^e de 
Bae9uri quand on saura si c'est un mot composé de deux termos, ou 
un mot dérivé à Taide d'un suffixe ur. 

Je rapporte ici, simplement pour cause de similitude curieuse, 
le nom d'un peuple lusitanien, les Paesuri mentíonnés par Pline, 
Nat. Hist, IV, XXXV, 21: a Durio Lustíania incipit, Turduli veteres^ 
Pciesuri, flrnnen Vacca. Le même ethnique était grave sur une ins- 
cription d' Alcântara* parmi les municipes lusitaniens qui contribuè- 
rent à la construction du fameux pont jeté sur leTage sousTrajan, 
en Tan 105. 

Je passe maintenant à Tétude de la legende du revers. 

Le premier monogramme fT doit cert^nement être développé en 
Ant(pniu8)^ nom gentílico, conmie sur le quinaire d'argent de Marc- 
Antoine frappé à Lyon*: M-ÍT-IMP, lituus, praefericulum, corbeau. 
5r. Victoire à droite, couronnant un tropbée. Quant au deuxième mo- 
nogranune, iT, qui ne differe du précédent que par la surélévation 
du T, je condus de cette similitude qu'il represente un cognomen dé- 
rivé du gentílico; or il 8'en trouve un qui est historiquement connu 
dans la gens Antónia, c^est le diminutíf "Avru^ç attribué par Dion 
Cassius et par Plutarque au fils que le célebre triumvir avait eu de 
Fulvie, sa première femme; seulement je ferítí observer que c'était une 
appellation familière n'ayant rien d^officiel, puisqu'elle ne figure pas 
sur la monnaie' frappée en Thonneur de ce jeune homme par ordre 
de son père avec la legende M • ANTONIVS • M • F • F; ainsi en est-il 
du sumom Kaiaopcojv donné par les mêmes auteurs à Ptolémée XVI 
Philométor César, fils de Jules César et de la fameuse Cléopatre VII. 
Dans le recueil des inscriptions de TEspagne on n'en rencontre pas 
moins de troís dans lesquelles le cognomen AntuUus est joint au gen- 



1 Corp, Insc. Lat, ii, 760. 

* CoheD, DescripHon des mormaies impériaUê ramaines, i, 1860 (2« ed.), p. 46, 
fyure. 

' Ibid., p. òS^ figure. 



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22 O Abcheologo Português 

tílice Antonius, tandis que cette association n'est gucre connue que par 
un seul exemple en dehors de TEspagne. A Cadiz, c'est-à-dire dans 
le voisinage même de Baesuris, on a découvert les épitaphes* d'un 
Zr. Antonius C, f. Antullus et d'un L. Antonius Q. /. Gal(eria tríbu)^ 
Anttdlus, IIIT vir aed{ilicia) pot{estaté); à Barcelone, une inscription * 
mentionne un Aquitain du Comminges pyrénéen, M. Antonius Antul- 
lus, eives Convena, Ce groupe d'inscriptions a pour eflfet de faire sup- 
poser que les Antonii Antulli d'Espagne avaient pour ancêtre quelque 
client du triumviV qui avait reçu de lui le droit de cite romaine et 
qui, par reconnaissance, avait ajouté à son gentilice le sumom popu- 
laire de son jeune íils. Le magistrat qui a signé la monnaie de Bae- 
suris, M(arcu8) Ant(onius) Ant(ullus), devait donc être prochement 
apparenté à ses homonymes de Gadès et exercer, comme Tun d^eux, 
les fonctions de quatuorvir dans son municipe. 

A la suite des noms de ce personnage viennent les mots ET CON. 
que je crois devoir développer en et conl{egae)^ au pluriel, plutôt qu'en 
et conl(egà)j au singulier. En effet, s'ít n'avait eu qu'un seul coUègue, 
celui-ci aurait eu les mêmes droits à être inscrit nominativement au 
lieu d^être designe sons une forme impersonnelle d^autant que la place 
était plus que suffisante. D'ailleurs Tadage juridique' três faciunt coU 
legium nous apprend qu'il fallait au moins trois magistrais pour con- 
stituer un coUège: donc, pluralité de collègues. On comprend alors que 
le graveur ne disposant pas d^assez de place pour les noms des quatre 
quatuorvirs se soit resigne à n'inscrire nominativement que leur doyen 
et à designer les trois autres en bloc par le mot conl(egae). La for- 
mule n'en est pas moins insólito et correspond vraisemblablement à 
une situation exceptionelle ; contrairement a Tusage, le titre des magis- 
trats n'est pas indique ainsi qu'on le voit marque sur les monnaies 
municipales ou coloniales, suivant le cas, ti vir (Bilbilis, Ercavica, 
Osca, Saguntum, Tarraco, etc.), m vir (Carteia), iiii vir (Clunia), aed 
(Carteia, Clunia, Obulco, Saguntum). Pour expliquer cette apparenté 
anomalie, j'ai songé ^ à une carence de ma^stratures, devenues vacantes 
tontos à la fois pendant une période électorale prolongée; on en a un 
exemple épigraphique remarquable dans le décret édicté par les dé- 
curions de la colonie de Pise pour un deuil public, á Toccasion de la 
mort de L. Caesar, petit-fils d'Augu8te, cum in colónia nostra proj>ter 



1 Corp, Insc. Lat, ii, 1727, 1728. 

2 Ibid., Suppl b. 149. 

3 Digesta, 50, 16, 85. 

♦ Bulletin de la Sodété des Antiguaires de France, 1883, p. 174. 



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o Archeologo Português 23 

contentiones candidatorum magistratus non essent (Wilmanns, Exempla 
inscriptionum, 883). A défaut de magistrais titulaires, ce sont les dé^ 
curions qui pourvoient directement aux services de Tédilité et de la 
frappe des monnaies; mais leur graud nombre empêche qu'ils soient 
toas mentionnés sar la monnaie; la règle, suivant laqueiie la liste 
complete des quatre quatuorvirs est inscrite sur les moyens-bronzes^ 
de Clunia, devient matériellement inapplicable à la totalité des décu- 
rions; dans ce cas, le premier d'entre eux, le princeps municipii, 
signe seul nomÍDativement pour son compte, et collectivement pour ses 
coliègues. 

Feu Estacio Veiga lisait sur sa pièce *, ^suri — M. Ant(onii) Antei 
conl(egarum)^ assemblage incompréhensible de mots inexactement dé- 
chiffrés ou mal completes. M. Hiibner a essayé d^améiiorer cette lecture 
et de Ia rendre intelligible en la mettant sur la forme* ^suri — Jf. 
An(níu8 Ant(htis) et conl(egà)] il n'y aurait aucun intérêt à la discuter, 
car ce serait répéter les arguments que j 'ai développés à Tappui de ma 
lecture Baesuri — M. Ant(oniu8) Ant{uUu8) et conl(eg<ie). 

II ne me reste qu'à dire quelques mots sur les types figures: le 
poisson et les épis couchés. 

Le poisson est Temblème naturel d'une ville maritime; quant aux 
épis, ils symbolisent certainement la fertiiitó du territoire qui en dé- 
pend; nous ne sommes nuilement surpris de les rencontrer ici, car la 
Bétique et Ia Lusitanie étaient d'une fertilité proverbiale qui explique 
la justesse du surnom de Tun de leurs principaux centres de produc- 
tion agricole, Ebura quae Cerialis (Pline, Nat. Hist., iir, 3, 5). Mais 
sur la monnaie de Baesuris on constate une particularité qui enleve 
au symbole des épis quelque chose de sa banalité habituelle: ces épis 
sont couchés; dans ce détail qui n'e8t pas indifférent je reconnais Tin- 
tention de figurer la moisson coupée par opposition à Ia moisson sur 
pied signifiée par des épis verticaux. Or, dans le sud de la Péninsule 
la moisson se fait en juin, vers le solstice d'été; ce serait donc pen- 
dant les fêtes rurales célébrées á cette occasion que la monnaie de 
Baesnris aurait été frappée. 

Même observation pour celles de Bailo, Baisippo, Itugi, lulia Tra- 
ducta, Obulco, et Curri Regina, en Bétique et de Myrtilis en Lusi- 
tanie, caractérisées par un épi couché; pour celles d^Acinippo, Callet, 
Carmo, Ceret, Ilipla, Laelia, Lastigi, Onuba, Oster et Searo en Bé- 



* Corp. Ifiêc. LaJt.f ii, SuppL, p. 785. 

* Monumenta UngtKxe ibericae, p. 13G. 



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24 O Akcheologo Português 

tique et de Salacia et en Bétiqae, marquées de deux épis couchés, 
comme celle de Baesuris. 
Paris, 21 juin 1899. 

ROBERT MOWAT. 

^ P. /S. Pendant Timpression du présent artiole, la Rewie numisma- 
tigue a para, contenant une note ^ que je lui avais communiquée pour 
rendre compte de la trouvaille monétaire d*Alcacer do Sal, olim Sala- 
cia, signalée par M. Leite de Vasconcellos. J*ai été amené à mettre en 
rapport les monnaies de Salacia avec celles de Baesuris et à repro- 
duire quelques-unes des considérations que je viens d^exposer ici. 

R. M. 



Sôllo do padre-mestre Oongalo Origiis, 
dominicano em Santarém 

Este sêllo tem a forma quadrilobada produzida pela intersecção 
de um quadrado com quatro circules. E circumdado por uma legenda 
oncial gravada entre fios de pérolas. Occupa a melhor parte do campo 
do sêllo o baptismo de Christo ladeado por seraphins; sob um arco 
trilobado, aos pós doeste grupo, um frade em meio corpo ergue as 
mftos ao céu. 

A maior dimensão do sêllo, isto é, o diâmetro da circumferencia 
circumscripta ao seu contorno, mede 0™,038. Produz grande relevo ás 
figuras, pois a profundidade da gravura tem cerca de 0°',002. 

A legenda nasce no alto, e corre da direita para a esquerda 
seguindo os accidentes do contorno; os seus extremos silo separados 
por uma +. Lê-se claramente o seguinte: 

S-IMDIQORRIQIEPORCIONARIISCI: 
NICHOLAYSCAREN + , 

Que quer dizer: 

Sígillum magistri domini O. Orrigk porcionarii sancti Nichólay 
(=Nicholaij) Sanctaren, 



* Reuut nvmismatique, iii, 1899, pp. 240-246: «Numismatiqiie lusitaniennc ; 
Salacia, Baesuris». 



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o Archeologo Português 26 

Doesta legenda o M é a única lettra que nfto é oncial. Na pri- 
meira syliaba de Orrigie e de porcionarii o R está ligado ao O; em 
Sanctaren também o R está ligado ao A que o precede; nesta palavra 
o gravador esqueceu abrir o corte central do E, que, por ser oncial, 
parece um C. 

O baptismo de Chrísto é o assumpto da gravura. 

Na direita S. JoSo, olhando á esquerda, está envolto numa pelle 
que lhe cobre quasi toda a perna direita; com a m&o direita faz a 
menç&o de tocar Chrísto, e, com o braço esquerdo erguido, despeja- 
lhe sobre a cabeça a ágoa contida em um enorme vaso. A perna 
esquerda, em acçSo de subir um degrau, parece querer apoiar o pé 
no ponto culminante do arco trilobado que cobre o frade e faz a base 
da composição do baptismo. Christo, de frente, com a cabeça circum- 
dada pela aureola, está inmiergido até os joelhos nas ágoas do Jordão; 
tem as mSos postas e está nu da cintura para cima. 




A figura de Christo apresenta todos os caracteres de muitas figuras 
da pintura gothica : cara redonda e gorda, claviculas e costellas muito 
apparentes, seios salientes, contorno das costellas, e m&os dispostas 
em arco o^val. 

Os seraphins, de perfil, saindo de entre nuvens, com as suas asas 
elevadas, e mantendo os thuríbulos oscillantes, emmolduram as figuras 
proenúnentes de Chrísto e S. Jo2o Baptista. 

O frade, em baixo, olha á esquerda; veste habito e está de mSos 
postas com os dedos muito desunidos. E o padre-mestre Fr. Gonçalo 
Orígiis, beneficiado de S. Nicolau e dono do sêllo. 

Foi achada a matriz em 1892 no pateo de um prédio que deita 
para o largo de S. Nicolau, por occasi&o de umas escavaçSes, e á 
mistura com muitas ossadas. 

Os caracteres da legenda pela sua natureza e grupamento, o cavado 
da gravura, e a maneira do desenho das 'figuras, fazem prever uma 



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26 O Archeoloqo Português 

matriz do período que vae de cerca do meado do sec. xin ao terceiro 
quartel do sec. xiv. 

Sobre Fr. Gonçalo Origiis extraímos do P.* Ignacio da Piedade 
e Vasconcellos o que vae ler-se e se encontra na sua Historia de San- 
tarém edificada. 

fFoi grande religioso em virtude e lettras, e era idoso em 1287. 
Em 1290 deu ordem regular ás irmSes dominicanas de Santarém, as 
quaes governou com o titulo de prior, tudo por ordem do Geral, 
Fr. Munio, a quem Domingas JoSo impetrou aquella graça por occa- 
siâo do Capitulo geral reunido em Bordéus em 1287». 

Foi pois Fr. Gonçalo Origiis quem lançou os hábitos ás antigas 
emparedadas de junto de Nossa Senhora da Âbobeda (cerca de S. Fran- 
cisco), ao tempo já com a denominação de Donas e no seu mosteiro 
do Sitio da Magdalena. 

D'este mosteiro do sec. xin pouco existe : as principaes edificações 
ficavam ao poente do actual convento. 

Lê-se na Historia da Ordem de S. Domingos que as donas tem 
outro prior em 1298; deve d'aqui inferir-se que a morte de Fr. Gon- 
çalo foi cerca d'este anno. 

Pelo sêUo do padre mestre Gonçalo Origiis vemos que elle foi 
beneficiado de S. Nicolau, devendo ter sido um dos seis collados e 
n&o dos cinco de S. Pedro, porque estes foram instituidos em 1371. 

Pelo local do achado ficamos sabendo que aquelle — grande reli- 
^oso em virtude e lettras — nJo foi sepultado no seu convento de 
S. Domingos, mas no adro da igreja onde tinha o beneficio. 

Santarém. 

A. B. DE F. 



Extraotos aroheologioos 
das cMemorias parooliiaes de 1758» 

253. Inflas 1 (Beira) 

Letreiro antigo 

« he constante que esta villa he a mais antigua que ha por 

estas vezinhanças pois a sua freguezia se estendia antiguamente athe 
a Carrapichana que hoje he do Bispado de Coimbra, e por esta re- 



1 InfidioB, PorL Mon. Hist, Dipl., p. 11. 



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o Archeologo Português 27 

zam, os moradores da hi estam obrigados a vir en Romaria a esta 
Igreja em todos os annos no primeiro Domingo de Maio, e a traze- 
rem duas vellas de cera branca de ofFerta e consta por tradiçam an- 
tigua que eram obrigados a trazer dois cirios também. Ha em hua 
caza que esta no fundo da villa pêra a parte do sul hua pedra que 
tem hum letreyro que por antigo se nam sabe ler»*. (Tomo xviir, 
fl. 176). 

254. Sfio-Jofto-de-Bei (Entre-Donro-e-Minho) 

Pretondido Monte-de-Oastro 

cTambem não vejo, pelo que toca a este numero, couza algua de 
que informe, porque esta f reguezia nSo tem muros nem castello ; tem 
sim muitos montes estéreis que somente dSo hum mato muito rasteiro 
a que chamio carrascas e saganhos. E supposto a dita Corografia^ 
falle em hu monte do Crasto, que foi fortificação dos Romanos ; eu lhe 
nSo vejo signaes de tal fortificação, ou vestígios alguns ; nem ouço fal- 
tar nisso aos seus moradores, e mais vezinhos desta minha freguezia: 
e o informariâo falsamente para assim o escrever». (Tomo xvnr, 
fl. 221). 

255. StoJordSo (Álemtejo) 

Cot» 

n no mayor dos quaes Outeiros a que chamam Serra da Es- 

pinheyra esta huma cova, aonde dizem estivera o Sr. JoSo Jordão fa- 
zendo vida de Anacoreta; nam tem Igreja nem Ermida, se não só 
montes de pedras, telhas, que lhe levam os seos Devotos, e algumas 
cruzes: dista da Igreja Parochial hum quarto de Legoa». (Tomo xviii, 
fl. 239). 

256. Sfto-Jorgre (Beira) 

Caldaa antigas 

cNão tem privilégios, nem antiguidades alguas, mais do que a tradi- 
ção de que no Ryo Huyma que por ella passa no districto ou sitio do 
matto da Negrinha, Passais desta Igreja, houverão huas caldas que se 
desfizerão por se romper hua pedreira no mesmo sítio, no qual ainda ha 



^ [Eu o li quando lá estive ha annos. — J. L. de V.]. 
2 Do P.« António Carvalho da Costa. 



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28 O Archeologo Português 

signais de agoa tépida que curte linhos verdes em rama em três ou qua- 
tro dias, sendo necessários oito dias em outros sitios, e no tempo de verSo 
se conhece hum laço por sima da agoa a modo de enxofre». (Tomo xym, 
fl. 243). 

257. Janeal (Eztremadara) 

Aisento primitivo 

cHa nesta Freguezia oyto Ermidas : a Primeyra de S. Miguel do 
Peral, distante da Parochia quasi de meyo quarto de legoa, hoje mujto 
pequena, mas com uestigios de alicerces de que antigamente foy três 
▼ezes major do que hoje he ; e perto delia em hum alto (dizem) ti- 
vera este Povo o seu primeyro domicilio, que dezertou por falta de 
agoa. Pertence esta Ermida aos Freguezes ; e nella costumSo hir muy- 
tas pessoas, pela tradiçSo e experiência que ha de que o S. Miguel 
(Imagem antiga e pouco ornada) que nolla se venera, tira as cezltes, 
sem mais donativo, que a pequena e humilde offerta de hS bolo co- 
zido nas brazas ou lar, e repartido pelos pastorinhos, que de ordiná- 
rio firequentSo aquelle vizinho lavradio». (Tomo xvni, fl. 283). 

25S. Janqaelra (Enire-Doiiro-e«Minho) 

Cidade de Bracbal no monte da Cividade 

cHe do termo de Barcellos da Sereníssima Caza de Bragança, 
hinda que actualmente contendem os Religiozos do Mosteiro da mesma 
freguezia que são da CongregaçSo reformada de Santo Augostinho 
por que esta freguezia seja Couto, e o seu Mosteiro, senhor donatá- 
rio delle, fundados em hua doacam do Senhor Rey D. Affonso Hen- 
riques, a qual se acha no Cartório do mesmo Mosteyro, cuja cauza 
corre com a Camará da mesma villa de Barcellos». (Tomo xvm, 
fl. 303). 

cNo monte da Cívidade asima referido houve antiguamente hua 
Cidade chamada Brachal ou Brachalense, ou por outro nome de Aze- 
roso, e pella parte do Norte lhe ficava por sua defensa hum castello 
que se chamava de Argifonso, e hoje com pouca corrupç&o se chama 
o Castello de Gifonso, e desta Cidade e Castello so aparecem hoje al- 
guns vestígios*. (Tomo xvin, fl. 305). 



* Brachalense é evidentemente Bracharenêe ou terrilorio de Bracara. No Port, 
Mon, fíiêt. ba cinco citações do Castro Argifons. 



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o Abcheologo Português 29 



259. Joramenha (iJeiiitc(]o) 

Veitlifios 

tEsta villa tem a sua derivaçSo e etimulogia (segundo a openiSo 
e voz dos antigos) de hum Homem chamado JuUio Menia, ou de hua 
Molher chamada Juramenha ; qne hoie (corructo vocabolo) he Jurome- 
nhai. (Tomo xvni, fl. 311). 

cEm contorno da Villa forSo achados muntos alisserces, colnmnas, 
e bazes, no que mostra ter sido antiguamente lugar nobre e grande, 
o que jA hoie nSo he». (Tomo xviii, fl. 315). 

260. JaTim ^ (Entre-Doiiro-e-Minho) 

Castello de Aguiar e Cidade de «Ripa Fldell» 

^c Desta freguezia procede a Caza dos Morgados de Attaens, e 
nella tem hiia quinta chamada de Attaens, que he o seu solar, e dei- 
xada a opiniSo de alguns curiozos que dizem que Attaens^ tomou o 
nome de ^ttaces, Rey dos Alanos, quando veyo contra Hermenerico, 
Rey dos Suevos thé o rio Douro etc.» (Tomo xviii, fl. 333). 

cNo alto do monte, que hoje chamS de Aguiar, por sima da al- 
deya de Cabanas, se acha hum terreno que parte pertence a esta fre- 
guezia, e parte a freguezia de S%o Cosme e por esta parte tem o lo- 
guar chamado de Aguiar também na descida do mesmo monte, e no 
alto dito houve em outro tempo hum Castello chamado de Aguiar, o 
que consta nSo só por fama mas também por cauza de alguns cam- 
pos de vários lauradores reterem ainda hoje a denominação de Cam- 
pos do Castello, e terem se tirado daquelle citio munta pedra la- 
vrada. 

Pello que julguo que naquelle citio era o em que existia o Castello 
chamado antiguamente de Aguiar, e os moradores destas partes e 
dito Castello tiverSo grandes guerras e choques com os moradores da 
Cidade antigua denominada Ripa Fidelis ^ sobre o Rio Douro, e mais 
próxima ao Rio Souza do que pareceo ao P. M. Fr. Manoel Leal no 
seu Crisol purificativo ainda que teve sufficiente fundamento pêra as- 
sim o entender, como também do dito Castello pellos fundamentos asima 
expostos, fica sem duvida ser aquelle o próprio citio do dito Castello, 



^ luvini, genitino de luvinus. Port. Mon. HÍ9t., Dipl,, p. 3. 

2 Vem de Atanis, geoitivo de Âian, Francês AttainvUle, 

3 Talvez seja Pena FideUs, boje localizada na Arrifana-do-Soosa. 



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30 O Aecheologo Português 

e a Cidade Kipa Fiãdis na freguezia do Sousa, medeando o dito Rio 
Souza entre a Cidade e Castello dito. E sobre a dita Cidade nXo me 
extendo por me nâo pertencer. Só o dizer que por extinção desta e 
da Povoaçào do Castello se erigio a Villa de Arrifana de Souza ; cuja 

fundação e colónia nova se attribue ao valor de D. Fayâo Soares 

etc.» (Tomo xvm, fl. 338). 

201* Izeda (Tras-os-Montes) 

Cidade de Mede* 

«Tem três Ermidas, hua de Santa Eulália dista do lugar meya Le- 
goa situada em huas vinhas há tradição que foy antigamente hua Ci- 
dade chamada Medea de que ainda parecem vestígios ; t (Tomo 

xvin, fl. 334). 

262. Santo-Isidoro (Eztremadnra) 

Inscripç&o romaua 

c por tradiçSes e algíis vestigios foy esta terra de nome em 

tempos antigos por serem entXo navegaueis os dous rios delia; o do 
sul hu quarto de legoa, e o do norte hua legoa donde vem o chamar- 
se o lemite desta Igreja em escriptos antigos — Santo Izidoro em 
Ilhas^ termo de Mafra — assim conserva o Rio do Sul o nome de Ri- 
heyra ds Ilhas; e o lugar de Paço de Ilhas — por estar neste lugar hii 
Palácio arruinado dos Ex.*"*** Condes da Ericeyra. E o rio do norte 
conserva o nome de Fanga da Fé^; por ter ahi havido alfandega em 
distancia do mar hu quarto de legoa. Nesta terra deixarão os Roma- 
nos sua memoria que se acha escripta com letras Romanas em hua 
pedra de oyto palmos de comprido e quatro de largo que esta no Al- 
tar do Espirito Santo na forma seguinte^: (Tomo xvui, fl. 355). 

268. Lagares (Beira) 

Etymologia popular 

«Esta terra está entre dois rios hum chamado o Cobrai porque 
antigamente junto d^elle andava huma cobra mui grandíssima que 
matava os homens ^^ (Tomo XEX, fl. 50). 



^ Effectivamente, numa inquirição sem data, que parece ser muito antiga, vem 
Fandegadafe. Memoria$ para a historia das InquisiçÕtê, ttc. (J. Pedro Ribeiro, 
p. 13 dos Documentos. 

2 Publicada no Supplemento do Corp. Inscr. LaL 

3 O mesmo conta o Cura de Lageosa a fl. 62. 



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o Archeologo Português 31 



264. Lagrog (Algarve) 

Kninas 

«A terra que se descreve he a Cidade de Lagos, a qual ou fosse 

edificada por El Rey Brigo que governou as Espantas etc. 

e também he certo que foy edificada junto ao citio do Paul, distante 
da povoaçam que hoje existe pouco mais ou menos de huma milha. 
Teve por nome Lacobríga ou Lago de Brigo, talvez, por estar junto 
a huns campos pantanozos que hoje se chamam Paul, ou porque 
junto á mesma povoaçam pella parte do nascente estava huma fonte 
chamada hoje Arca do Paul de que esta Cidade se provê e da qual 
se dezia antigamente que se a arte nam compremisse as suas agoas 
bastariam ellas para innundar a mesma Cidade, ainda que fique distante. 

No lugar desta povoaçSo não se ve hoje mais que huns pardieyros 
alguns pequenos alicerses de cazas e muitos tijolos indicio de que forSo 
edeficados os seos Palácios. Também parese n%o ser esta povoaçam 
de muita grandeza, porque o citio ainda que acomodado para mayor 
entemçam com tudo he de sua natureza áspera pela vezinhança dos 
-montes, e serros e doentio pella proximidade do Paul, e ainda hoje os 
moradores que habitão junto delle padesem o effeito da sua vezinhança 
deste citio, não se sabe o tempo da sua duração e menos a cauza que 
ouve para que totalmente se extinguise de sorte que apenas se sabe 
que existio». (Tomo xix, fl. 117). 

Pedro A. de Azevedo. 



Notícias várias 
1. Fonte de Olivença (Elvas) 

A propósito de uma pergunta feita n-0 Archeologo Português, o 
meu amigo António Thomás Pires, de Elvas, que não perde um único 
ensejo de prestar serviços á sciencia portuguesa*, enviou-me a seguinte 
communicação : 



1 António Tliomás Pires é auctor de muitos trabalhos sobre ethnograpbia 
portuguesa, aos quaes me referi nos meus Ensaios EtlnwgrapJucoSj i, 329 sqq. 
Ultimamente publicou os interessantes Materiaes para a historia urbana portu- 
guesa do sec. XVI -XVIII (vid. Boletim da Sociedade de Geographia, 1897, pag. 703 
sqq.) ; agora tem no prelo os Cantos populares do Alemtejo, obra monumental, 
€ acaba de colligir, para ser publicado na Revista Lusitana, onde o será em breve, 
um Vocabulário Âlemt^ano. 



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32 O Abcheologo Pobtuguês 

No vol. 1, pag. 64, d- O Archeologo Português disse o meu amigo 
constar-lhe, que na freguesia da Ajuda d'este concelho havia, debaixo 
da ponte ^, algumas pedras com lettras, e pedia que lhe fossem dadas 
infonnaçSes mais precisas a semelhante respeito. Tive ensejo de pro- 
ceder directamente á. investigação, e conheci que, de facto, nas pedras 
de cantaria de um dos pilares dos arcos derrubados da ponte, ha lettras 
e números, mas representam as siglas ou marcas dos canteiros (cf. 
O Arch. Port., iv, XOS)* ^^^ * configuração de algumas d 'essas siglas: 

V T ISI o + 

2. Sepultaras romanas em Marco de Canareses 

Um amigo meu, muito dedicado aos estudos archeologicos, teve 
a bondade de me communicar o seguinte em carta (1898): 

cHa tempos appareceram no Freixo, em uma sorriba, vários obje- 
ctos de louça e vidro. Fui lá logo; mas perdi o meu tempo. Um 
objecto de barro cozido, que descreveram de modo que faz suppor 
que se trata de um galheteiro, ou cousa parecida, tinham-no dado 
para o Porto; outros objectos, a que chamavam tijellas e que conti- 
nham ossos, quebraram-nos, na forma do costume, e enterrai*am tudo 
na sorriba; um copo de vidro, que estava ao pé de uma das taes ti- 
jellas, partiu-se casualmente, e d'este conservo uns pequeninos cacos . 
que restavam. Todos estes objectos estavam dentro de sepulturas de 
forma circular, de pequeno diâmetro, abertas no solo, a pequena pro- 
fundidade. Ha annos, a uns 30 ou 40 metros arredados d^ali, vi eu 
uma outra sepultura do mesmo género, que estava revestida interior- 
mente de grandes pedaços de tegvlas, e continha uma linda e variada 
mobília funerária, que remetti para o Museu de Guimarães». 

J. L. DE V. 



^ £ a ponte chamada de Olivença (construcçSo de D. Manoel), ponte em parte 
destruída pelos castelhanos, em 1709, por occasião da guerra da Liga. 



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EXPEDIENTE 



O Archeologo Português pubIicar-B6-ha mensalmente. Cada número 
será sempre ou quasi sempre illustrado, e não conterá menos de 16 
paginas in-8.^, podendo, quando a affluencia dos assumptos o exi^r, 
conter 32 paginas, sem que por isso o preço augmente. 

PREÇO DA ASSIGNATURA 

(Pagamento adoantado) 

Anno IfJõOO réis. 

Semestre 7õO > 

Numero avulso 160 » 

Estabelecendo este módico preço, julgamos facilitar a propaganda 
das sciencias archeolo^cas entre nós. 



Toda a correspondência á cerca da parte litteraria d'esta revista 
deverá ser dirigida a J. Leito de VasoonoellOS, para a Biblio- 
theca Nacional de Lisboa. 

Toda a correspondência respectiva a compras e assignaturas 
deverá, acompanhada da importância em carta registada ou em vales 
de correio, ser dirigida a J. A. Dias Coellio, para a Imprensa 
Nacional de Luòoa. 



Á venda nas príncipaes livrarias de Lisboa, Porto e Coimbra. 



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VOL.V 



1899-1900 



N. 1 



o ARCHEOLOGO '''' m 

PEflBOOy MUSEUM. 




COLLECÇlO HLDSTHADA DE HATERUES E N0TICII8 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 







Veterum volvens monumenta virorum 
LISBOA 

IMPKENSA NACIONAL 
1900 



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^TJlsJÍlsjSlJ^TlXO 



Archeologia do Alto-Minho: 33. 

Novas inscripçues ibéricas do Sul de Portugal: 40. 

InscripçXo sepulcral romana: 42. 

Inscripçao romana de Ossonoba: 43. 

Aula de archeologia no Seminário Diocesano de Bragança: 44. 

Numismática colonial: 47. 

Cornelius Bocchus: 49. 

Extractos archeologicos das cMemorias parociiiaes» : 49. 

BlBLIOGRAPHLá.: Õ2. 

Contos para contar: 52. 



Este fascículo vae illustrado com 6 estampas. 



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i 



o ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 



COLLECÇiO ULUSTRAD Dl HAT£RI£S E HOTICIÂS 

PUBLICADA PELO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



VOL. V 1899-1900 N.*» 2 

Aroheologia do Alto-Minho 
Dadiva ao Museu Ethnologico Português 

O meu amigo o Sr. Dr. Félix Alves Pereira, a quem o Archeologo 
Português deve importantes artigos sobre archeologia do Alto-Minho, e 
que tinha organizado em sua casa, nos Arcos-de-Val-de-Vez, uma coUec- 
çSlo archeologica regional, dignou-se oíFerecê-la toda ao Museu Ethno- 
logico Português. NSo ha palavras com que elogiar suflScientemente 
o acto de generosidade e de abnegaçSo praticado pelo Sr. Dr. Alves 
Pereira. Ao passo que existem coUeccionadores tEo aferrados a meia 
dúzia de cousas que lhes chegaram ás mSos, que não só as não dão 
aos estabelecimentos públicos, que, por serem públicos, são de toda 
a gente que os queira frequentar e estudar, mas chegam mesmo por 
vezes ao ponto de nem sequer as mostrarem a quem deseje vê-las, — 
o Sr. Dr. Alves Pereira cedeu em proveito do Museu Ethnologico- 
Português, com a maior franqueza e a melhor vontade, os numerosos 
objectos que possuia, e que lhe haviam custado não pouco dinheiro, 
cuidado e trabalho. 

O Museu Ethnologico Português, onde é meu intento ir pouco a 
pouco reunindo exemplares archeologicos de diflferentes localidades do 
país, estava ainda muito pobre em relação á província do Minho; 
agora, com esta bella dádiva, fica a archeologia do Alto-Minho já bem 
representada lá. 

Para que os leitores possam fazer ideia do mérito da coUecção, aqui 
publico o inventario circumstanciado, que a acompanhava, e que foi 
obsequiosamente elaborado pelo próprio Sr. Dr. Alves Pereira. 

J. L. DE V. 



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34 O Akcheologo Português 

I.— Objectos queji entraram no Husen 

1 a — Fragmento de um machado de bronze; appareceu na quinta 
da Commenda, freguesia de Távora. Vid. Arch. Port,, iv, 88. 

1 b — Fragmento do mesmo machado. 

1 c — Fragmento do mesmo machado. 

2 — Carranca de bronze. Vid. Arch. Port», ii, 319. 

3 — Alfinete de bronze, proveniente do Castello de S. Miguel-o-Anjo 
(Azere). Vid. Arch. PoH., i, 167, fig. 2, n.^ 15, (Mede 0%085 de com- 
primento). 

4 — Argolinha de bronze; mesma procedência. \'id. Arch. Port., ij 
167, fig. 2, n.^ 22. 

ò — Argola de bronze; mesma procedência. Vid. Arch. Port., iv, 237. 
(Mede 0"\036 no diâmetro exterior). Cfr. Mortillet, Musée préhistorique, 
LXXXV-976, em que se vêem idênticas, pertencentes a arreios de cavallos. 

6 a — Pedaço informe de bronze; mesma procedência. Vid. Arch. 
Port, IV, 234. 

6 b — Pedaço informe de bronze; id., id. 

7 — Fragmento de vaso de vidro; mesma procedência. Conservação 
perfeita, sem patina nem côr alterada. Vid. Arch. Port, i, 166. 

8 a — Fragmento do bordo de um vaso metallico (será cobre?); 
mesma procedência. Vid. Arch. Port., iv, 234. 

8 b — Fragmento provável do mesmo vaso. 

9 — Vários pedaços de ferro, dos quaes um parece ser um fragmento 
de clavas. Mesma procedência. Vid. Arch. Port., i, 167, fig. 2, n.^* 14, 
16 e 24. 

10 — Fragmento de vaso de barro; mesma procedência. Tem orna- 
mentação composta de dois traços ao redor do vaso; vestígios de ter- 
ceiro; entre dois d^elles ha uns pequenos riscos enfileirados obliqua- 
mente e parallelos. Vid. Arch. Port, i, 167, fig. 2, n.® 34. 

11 — Fragmento de vaso de barro; mesma procedência. Tem uma 
fileira de pequenos riscos obliquos e parallelamente outra de cruzes 
inscriptas em circules, ornamentação feita a sinete. Vid. Arch. Port., i, 
167, fig. 2, n.® 20, e Mortillet, Mmée préhistorique, pi. xc\aii-1232. 
Aqui são stvastíkas. 

12 — Dois fragmentos collados de vaso de barro; mesma proce- 
dência. Ornados de uma fileira de pequenos traços obliquos; de outra 
com as mesmas marcas do n.® 11 e de terceira com um zig-zag. Vid. 
Arch. PoH., I, 167, fig. 2, n.*» 17. 

13 — Fragmento de vaso de barro da mesma procedência. Mostra 
duas faxas limitadas por traços; em uma ha uma espinha de peixe e 



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o Archeologo Português 36 

na outra uin zig-zag duplo e cruzado, que forma losangos. Vid. Arch. 
Port., I, 167, fig. 2, n.*^ 11. . 

14 — Fragmento de testo de barro, tendo resto de uma espinha de 
peixe em circulo. Mesma procedência. Vid. Arch. Port., i, 167, fig. 2, 
n.* 25. 

15 — Fragmento de vaso de barro; mesma procedência. Tem restos 
de uma simples ornamentaçSo composta de uma serie de petadelas 
em redor do vaso. 

16 — Fragmento de vaso de barro; mesma procedência. O barro é 
de inferior qualidade e ennegrecido; tem vestigios de um traço em 
ondulações e dois orifícios estreitos. 

17 — Pedaço de barro circular, como esboço àe fusaiola. Mesma 
procedência. ^ 

18 — Fvsaióla. Mesma procedência. Vid. Arch., i, 167, fig. 2, n.® 24. 

19 — Fusaiola apenas começada a perfurar. Mesma procedência. 
Tid. Arch. Part., i, 167, fig. 2, n.* 13. 

20 — Fragmento de pequeno vaso de barra fino; tanto interior 
como exteriormente foi aperfeiçoado e alisado. Mesma procedência. 

21 — Fragmento de prato de barro chamado Saguntino. Tem ves- 
tigios de ligeira ornamentação. Mesma procedência. • 

22 — Fragmento de vaso de barro claro, evidentemente importado 
e feito com esmero. Mesma procedência. Vid. Arch. Port., i, 167, 
fig. 2, n.^ 26. 

23 — Fragmento de vaso de barro com filetes salientes. Mesma 
procedência. 

24 — Fragmento de pequeníssimo vaso de barro claro, pintado só 
exteriormente de negro^ parece have-los análogos de Sabroso. Mesma 
procedência. Vid. Arch. Port., i, 167, fig. 2, n.*^ 12. 

25 a — Fragmento de vaso fino de barro claro, pintado interna e 
externamente de preto. Mesma procedência. 

25 b — Fragmento pertencente ao mesmo vaso. 

26 — Fragmento de vaso de natureza idêntica ao n.® 22. Mesma 
procedência. 

27 — Fragmento de vaso da mesma natureza e procedência. 

28 — Fragmento pequeno de vaso bojudo de barro claro, pintado 
só exteriormente de preto. Mesma procedência. 

29 — Fragmento de testo de barro. Mesma procedência. Vid. Arch. 
Port., I, 167, fig. 2, n.^ 29. 

30 — Fragmento de pequeno púcaro de barro, pintado exteriormente 
e na boca também interiormente de vermelho ; tem asa. Mesma proce- 
dência. Vid. Arch. Port., I, 167, fig. 2, n.^ 18. 



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36 O Archeologo Português 

31— Fragmento de pequeno puoaro de barro. Mesma procedência. 
Vid. Arch. Port., i, 167, fig. 2, n.^ 30. 

32 — Fragmento de pequeno vaso bojudo, com vestidos de expo- 
sição ao fogo e duas estrias que parecem abertas em sêcco. Mesma 
procedência. 

34 — Fragmento de pequena taça de barro muito grosseiro. Mesma 
procedência. 

34 a — Asa de vaso que não é de fabricação local ou regional pela 
natureza do barro. Está coberta de uma aguada côr de tijolo. Mesma 
procedência. 

34 b — Asa igual, provavelmente do mesmo vaso. 

35 — Fragmento de vaso pequeno com resto de asa. Mesma pro- 
cedência. 

36 — Asa de grande vaso de barro, com aguada côr de tijolo. 
Mesma procedência. Vid. Archi Port., i, 167, fig. 2, n,® 4. 

37 — Bordo de grande vaso de barro micaceo. Tem na parte interna 
ornamentação feita a dedo representando um traço cruzado com outro 
e um pequeno circulo. Mesma procedência. Vid. Arch. Port., i, 167,. 
fig. 2, n.*^ 8. 

38 — Fragmento de tijolo ou tegula, tendo impressões das patas 
de um cão. Mesma procedência. Vid. Arch, Port., i, 167, fig. 2, n.** 38. 

39 — Metade de púcaro de barro com asa que se ramifica em três 
nervuras sobre o bojo. O gargalo é alisado á espátula. Mesma proce- 
dência. Vid. Arch, Port,^ i, 167, fig. 2, n.® 27. Tem em redor duas 
estrias que parecem abertas em sêcco. Esta forma existe ainda ao 
presente. 

40 — Fragmento de um púcaro do mesmo modelo. É todo alisado 
á espátula. Mesma procedência. 

41 — Fragmento de bordo de grande vaso de barro; boa cozedura. 
Mesma procedência. 

42 — Fragmento de bordo de grande vaso de barro; cozedura im- 
perfeita; vestigios de asa de ferro. Mesma procedência. 

43 — Fragmento de vaso que parece ser o do n.** 42: é parte do 
fundo 6 do bojo; teve também pés de ferro. 

44 — Fragmento de fundo de vaso igual aos precedentes; vestigios 
de pó de ferro cravado directamente no fundo. Vid. Arch. Pcyti., i,. 
167, fig. 2, n.*^ 7. 

45 — Fragmento de bordo de vaso idêntico; vestigios de peças de 
ferro cravadas. Vid. Arch. Port., i, 167, fig. 2, n.° 6. 

46 — Fragmento de bordo de vaso grande de barro; tem na parte 
interior duas marcas, profundas, feitas com puncção, representando uma 



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o ÂRCHEOLOGO PORTUGUÊS 37 

cruz em relevo inscripta num circulo; iguaes ás que ornam os fra- 
gmentos n.®' 11 e 12. Mesma procedência. Vid. Arch., i, 157,íig. 2,n.® 31. 

47 — Fragmento de grande vaso de barro, tendo marca análoga 
na parte interna do bordo. Mesma procedência* 

48 — Fragmento de grande vaso de barro com três grossos filetes 
salientes e parallelos. Mesma procedência. Vid. Arch. Port., i, 167, 
fig. 2, n.^ 10. 

49 — Fragmento de vaso ornamentado com serie de pontos pequenos 
e um sulco em zig-zag, marcado por pontos nos angulosi. Vid. Arch. 
PoH.j I, 167, fig. 2, n.*^ 28. 

ÕO — Fragmento do pé de uma amphora, tendo um signal feito em 
sêcco.Vld. Arch. Port,, i, 167, fig. 2, n.« 19. 

õl — Fragmento de bordo de grande vaso com asa interior. Mesma 
procedência. Vid. Arch. Port., i, 167, fig. 2, n.*^ 33. 

52 — Fragmento análogo. Tem ainda na parte convexa e exterior 
depósitos de fuligem. Mesma procedência. 

Õ3 — Testo de barro mal cozido e feito sem roda, ao que parece. 
Mesma procedência. Vid. Arch. Port., i, 167, fig. 2, n.® 1. 

54 — Fragmento de vaso baixo e largo; muita mica. Mesma pro- 
cedência. 

55 — Fragmento de vaso bojudo, tendo orificio de suspensSo no 
bordo; tem exteriormente deposito de fuligem. Mesma procedência. 
Vid. Arch. Port., i, 167, fig. 2, n.^ 35. 

56 — Fragmento idêntico. 

57 — Fragmento de vaso bojudo e bôca estreita, de barro. Mesma 
procedência. 

58 — Fragmento de uma tegida^ com a impress&o das patas de 
nm porco ou cabra. Mesma procedência. Vid. Arch. Port., iv, 234. 

59 — Fragmento de vaso de barro muito ornamentado com pequenos 
traços em zig-zágs contignos; parece fabricação regional. Mesma proce- 
dência. Vid. Arch. Port., IV, 237. 

60 — Pequena esphera de barro, perfurada, tendo um hemispherio 
ornado de pequenos traços no plano do diâmetro perfurado, feitos em 
sêcco. Mesma procedência. Talvez conta de colar; ha no Museu aná- 
logas em azeviche, quartzo, etc. 

61 — Instrumento de pedra de uso desconhecido. Mesma proce- 
dência. Vid. Arch. Port., i, 173, fig. 3, n.*» 2. 

62 — Instrumento de pedra análogo ao precedente e docnmentando- 
«e «8 dois reciprocamente. Vid. Arch. Port., i, 173, fig. 3, n.® 3. 

63 — Instrumento contundente de pedra. Mesma procedência. Vid. 
Arch. PoH., I, 173, fig. 3, n.^ 1. 



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38 O Arcueologo Pobtuguês 

64 — Instrumento contundente de pedra. Mesma procedência. 

6õ — Instrumento de pedra. Mesma procedência. 

66 — Instrumento de pedra. Mesma procedência. 

67 — Instrumento de pedra. Mesma procedência. 

68 — Instrumento de pedra de uso análogo. Mesma procedência. 

69 — Instrumento de pedra. 

70 — Instrumento de pedra que parece ter servido de pedra de 
amolar. Mesma procedência. 

71 — Pedra de funda. Mesma procedência. Vid. Arch. Port,, i, 173, 
fig. 3, n.* 6. 

72 — Pedaço de escumalho de forja. Mesma procedência. Vid. Arch. 
Port., I, 164, note 2. 

73 — Fragmento de machado (?) de pedra em piçarra amphibolica. 
Procede do Castro de Alvora, freguesia do concelho. 

74 — Fragmento de teguia com três ensaios de perfuração caracte- 
rística. Procede do Castello (castro) de Rio Frio, freguesia do concelho. 
Foi colhido do chio. 

75 — Ponduê de barro. Procede do Castro de S. Thiago de Cendufe, 
freguesia do concelho. 

76 — Fragmento de um objecto dé barro, provavelmente vaso gran- 
de, tendo numa aresta a impressSo das pontes dos dedos; abrange sete 
depressões. Provém de Antr'o8'Cra$tro8, freguesia de S.Vaya de Ko 
de Moinhos, mesmo concelho. 

77 — Instrumento de granito, com a forma de esphera achatada e 
tendo signaes de uso de um lado. Parece servir para triturar grSo. 
Provém do Coto da Coroa, freguesia de Ermello. 

78 — Objectos idênticos ao anterior, mas de menores dimensSes. 
Foram encontrados ambos numa antella ou oiste, segundo a narraç&o 
dos achadores analphabetos. 

79— ^Machado de pedra polida, em fibrolithe (?). Diz-se proveniente 
do concelho, ignorando-se condições do achado. 

80 — Pedaço de pedra que parece ser fragmento de mó ou de tri- 
turador. Provém do Castello de S. Miguel-o*Anjo, freguesia de Azere. 
Tem signaes de uso em duas superfícies oppostas. 

81 — Pedaço de granito que parece ter sido fragmento de um tri- 
- turador ou amolador. Mesma procedência. Vid. Arch. Port., iv, 235, 
fig. 1, n.o 8. 

82 — Pedaço de granito com uso idêntico. Mesma procedência. 

83 — Pedaço de granito molle, de fim pouco reconhecível; parece 
. uma mó pequena. Mesma procedência. Vid. Arch., iv, 235, fig. 1 9 
n.« 7. 



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o Archeologo Português 39 

84 — Pedaço de granito; parece fragmento de amolador ou antes 
triturador de grXo. Mesma procedência. 

85 — Pedaço de granito análogo ao anterior. 

86 — Machado de bronze. Quebradas as aselhas e a cabeça. Provém 
do sitio do Auditor, concelho de Ponte da Barca. 

n.— Objectos que, por dlffleoldade de eondoeçlo, ainda nio entraram no losea 

a) — Uma pedra circular lavrada com o desenho de roseta ou estrella 
hexagonal e apresentando ainda vestigios de pintura atijolada. Este 
desenho, que parece ter origem oriental, aipda se vê perpetuado hoje 
na mesma regiSo minhota, entalhado em almofadas das portas eto., e 
é vulgar em pintura nas carroças de Lisboa. Proveniente de Azere. 
Vid. Arch. Port., i, 166, fig. 1. 

h) — Um pequeno cippo de granito com inscripçlo em três faces. 
A inscripçSo é de certo legivel a um epigraphista perito. Parece-melerem- 
se entre outras estas palavras • . .CARO. • . CONS . . . e algumas siglas 
de abreviaturas usadas na epigraphia romana. Adduzo isto unicamente 
para a identificar, visto achar-se únda (Janeiro de 1900) em meu poder. 
Provém das paredes da capella de S. Cypriano, situada nas vertentes 
de Crasto de Roboreda (freguesia de Santa Vaya). 

<5)— Duas grandes tegulae, medindo uma 0",3l X 0",39 X 0",5 e 
outra 0",32 X 0",35 X 0",46; esta tem na parte mais estreita três 
riscos convergentes e aquella dois traços sinuosos e parallelos no sentido 
do comprimento da tegula. Ambas as omamentaçSes sXo feitas a dedo. 
Provém de um local, onde parece ter havido um antigo cemitério chris- 
tSo, Samjoanne, freguesia de Parada. 

d) — Dois pedaços de mós dormentes de granito. Provém de Azere, 
do castello de S. Miguel-o-Anjo. 

é) — Um fragmento de fuste de columna(?) de secçSo elliptica. Mesma 
procedência. Vid. Arch. Port., iv, 235, fig. 1, n.* 2. 

f) — Um g^rande seixo partido que parece ter servido de triturador. 
Mesma procedência. Vid. Arch. Port,, iv, 236, fig. 1, n.* 1. 

g) — Uma pedra pequena, mostrando ao meio uma covinha. Vid. 
Arch. Port., rv, 235, fig. 1, n.® 3. Mesma proveniência. 

h) — Um juntoiro de granito, medindo de comprimento 0°*,45. Mesma 
procedência. Vid. Arch. Port., iv, 235, fig. 1, n.^ 5, 

i) — Pedaço de granito que parece ter servido de triturador. Mesma 
procedência. Vid. Arch. Port., iv, 235, fig. 1, n.® 4. 

j) — Pedaço de granito análogo ao antecedente, embora de menores 
dimensSes. Mesma procedência. Vid. Arch. Port.y rv, 235, fig. 1, n.® 6. 



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40 



O Archeologo Português 



Novas insoripções iberioas do Sul de Portugal 

2. InseripçSo de Salir 

Em 1897 appareceu na fazenda das Lagoas, freguesia de Salir, 
concelho de Loalé, reino do Algarve, uma sepultura rectangular feita 
de pedras postas de cutello, a qual tínha á cabeceira, a pino, uma la- 
pide que foi quebrada, mas de que resta parte em poder do Sr. Prior 
de Salir, na qual se lê a seguinte inscripçSo, que copiei do próprio 
original: 





"^^^^^ 




A lapide é de schisto, e mede de altura 8,5 poUegadas, e de* largura 
9 pollegadas. Está quebrada em dois lados, como se vê na figura 
junta. 

O facto de esta lapide estar a pino confirma o que eu disse n-0 Arch. 
Port., ra, 186, á cerca da posiçXo primitiva e uso da lápide ibérica 
de Bensafrim, descrita ibidem. 

A inscripçSo de Salir lê-se como a de Bensafrim, isto é: 



? 



í 



indo da direita para a esquerda, e de baixo para cima, seguindo depois 
para baixo, conforme o que já se notou n-0 Archeologo, ibid., e o que 
indicam as settas no eschema precedente. 



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o Archkolooo Português 4i 

Na occasi&o em que eu copiava a inscrípçSo, informou-me um indi- 
viduo, que estava presente, e que assistiu ao apparecimento da sepul- 
tura, que no fim da 1/ linha havia uma haste, que dava á lettra que 
lá se vê o aspecto de N; a informação foi-me ministrada sem eu a pedir, 
por isso nXo duvido d'ella. 

Temos pois: 

1. MOqA^AO 

2, v^MM 

o que transcrito nos nossos caracteres corresponde ao seguinte: 

1. n o r a ê a o 

2. inn 

ou, da esquerda para a direita, segundo a nossa maneira de escrever: 

Odêaron nni 

Comparando esta inscripçHo com a de Bensafrim, achamos que se 
esta termina em nii, a de Salir termina em nni (creio que é nm, e 
nlo nii; pelo menos na minha cópia tenho ^^^ e nXo ^^^), e achamos 
em commum ás duas os elementos saro e oa. 

Do que fica dito condue-se que as duas inscripçSes pertencem sem 
dúvida á mesma civilização, e aos tempos protohistoricos. 

Ao Rev.*® Prior de Salir agradeço o haver-me facultado o exame da 
sua lapide, e tomo a liberdkde de lhe manifestar o meu desejo de que, 
se um dia resolver desfazer-se da lapide, se lembre do Museu Eihno- 
logico Português, por ser estabelecimento do Estado, pertencente pois 
a nós todos, e já lá haver monumentos congéneres, a que convém, no 
interesse da sciencia, associar outros que forem apparecendo. 



Eis aqui mais algumas noticias archeologicas que colhi em Salir. 

Perto d'esta aldeia ha uma montanha, chamada pleonasticamente 
Rocha-da-Pena, que, pelo que me disseram, é um castro. Por esses 
sities tem apparecido vários machados de pedra polida. 

Do sitio de Palmeiros, da mesma freguesia, provieram vários obje- 
ctos antigos de metal (figuras de animaes), tegulas e imbrices. D'ahi 
proveiu ainda uma moeda árabe. 



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42 O Arcqeologo Português 

Também em poder do Sr. Prior existe uma lapide (cippo) de uns 
2 palmos de altura^ e de 1 de largura, com uma inscripçSo romana 
bastante çafada, em que só pude ler o seguinte: 

1. VC...I...VM 

2. >VP]MGVS 

3 VI'NV 

4 OLIRI.. 

Linha 1.* Lembra VOTVM; mas ha espaço de mws para T. 

Linha 2.* A 1/ lettra será S; a 3.» será R; a 4.* será M. Certa é 
apenas a terminaçSo ICVS, pn IGVS. 

Linha 3.* Talvez Paulinus como me suggere o Sr. Hiibner. 

Linha 4.* Depois do O parece haver U, mas será LI. 

N%o me ati*evo a fazer conjectura nenhuma sobre esta inscripçSo'. 
Se a pedra estivesse em Lisboa, onde eu a podia estudar com descanso, 
talvez apurasse outra leitura melhor. 

Creio que o cippo foi achado nos arredores de Salir. 

J. L. DE V. 

Insoripçfto sepuloral romana 



ALERIJ 

SIMIQVIR 
....OLLiPONEí.., 
ANN XX 
FLAVIA MAXSi 
MATER FILIO 
P C 



Inédita. Comquanto mutilada, nSo offerece difficuldades na leitura. 
Encontrei-a em Setembro de 1898 no logar das Debarbas, freguesia 
de Maceira, aldeia vizinha de Leiria. Outras inscripçSes romanas tem 
sido por mim descobertas nas proximidades d'aquelle logar, e se vêem 
publicadas pelo Sr. E. Hiibner, da Academia de Berlim, no Corp. 
Inscr. Lat., no AddiL ad Corp. Inscr. Lat., ou na Ephemeris epigra- 
phiea, para onde as enviei. Tenho adquirido todos estes cippos por 
compra, e mandei-os conduzir para minha casa, no Juncal, a fim de os 
offertar um dia a qualquer instituto que os aprecie. 



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o Abchbologo Pobtúgués 43 

Este cippo, que é também de mármore rosado e igual aos outros 
que encontrei; apresenta maiores dimensões. 

Mede O^jôô de largo e 0",47 de espessura; e pela disposiçSo da 
inscripçâo vê-se que deveria ter a altura superior a 1",50. 

Os caracteres s2o do tempo de Augusto ; o corpo da lettra tem 0™,06« 

É singular que em quasi todas as inscripçSes encontradas nas vi- 
zinhanças de Maceira se notam plebeísmos, que n&o deixam de ser 
interessantes ao estudo orthoepico da lingoa. 

Salvo melhor interpretação, pôde traduzir-se: 

Aos manes de Valério Máximo, da tribu Quirina, natural de Collipo, 
que morreu de vinte annos, sita mãe Flavia Máxima erigiu este monu- 
mento. 

Juncal, Maio de 1899. 

José Callado. 



Insoripç&o romana de Ossonoba 

Por diligencia de Monsenhor Cónego Pereira Botto foi ha tempos 
para o Museu do Infante D. Henrique, de Faro, a seguinte inscripçSo, 
que copio de um calco que da mesma me foi offerecido pelo Sr. Luciano 
Cordeiro, — inscripçfto encontrada nas muralhas d'aquella cidade: 

IMP CÃES 

Lc^DOMITIo 

AVRELIANO 

PIOc^FELc^AVG 

5 Pc^Mc^Tc^Pc^Pc^P 

lIc^COSc^PRoC 

Rc^Pc^OSSONOB 

EX DECRETO 

ORDIN 

10 Dc^Nc^Mc^EIVS 

Dc^ D 

Isto é: Imp(eratori) Caes(arí) L{ueio) Domitio Aurdiano, Pio, 
Fel{ici), Aug(usto), P(ontifici) M(aximo), TÇrihunicia) P{otestaJte)y P(a' 
tri) P(atriae), II co(n)s(uli), Proc{onsúli), R(es) P(vUica) Ossono- 
b(ensis), ex decreto Ordinis, d(evota) N{umini) M(ajestatique) ejus, 
d{edU), d{edicamt). 



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44 O Archeologo Português 

Traducçfto da inscripçSo : 

Ao Imperador César Lúcio Domicio Aurelianoj Pio, Feliz, Augusto, 
PonJtifice Máximo, investido da auctoridade tribunicia, pae da pátria, 
por duas vezes cônsul, procônsul, — a communidade (ou, como quem 
dissesse, o concelho) de Ossonoba, addicta ao poder e majestade d^elle, 
offereceu-lhe e dedicou-lhe, por decreto dos decurides, [este monumento]. 

O monomento era certamente uma estátua, de que a lapide com a 
inscripçâo constituía a base. 

Ao mesmo imperador, que governou entre 270 e 275 da era christS, 
se referem outras inscrípçSes de análogo teor, achadas na Península, 
e publicadas no Corp. Inscr. Lai., ii, 2201, 4506 e 4732. Semelhante 
a esta aqui publicada é a que vem no Corp. Inscr. LaU, ii, 1, também 
•de Faro, mas referida a Publio Licinio Valeríano. 

A fórmula final, que aqui se acha escrita com as simples iniciaes, 
acha-se completa noutras inscrípçSes: vid., por ex., o Corp. Inscr. 
Zoí., n,3555: DEDIT DEDICAVIT. Da expressão «c decrírfo 
Ordinis se. Ossonobensis, vid. outros exemplos no Corp. Inscr. Lat., 
II, Suppl., pag. 1162 (índice). A cerca do titulo procônsul, dado ao 
imperador, cfr. Cagnat, Traiti d'épigraphie romaine^ 2.* ed. 



NSo é esta a única inscripçSo romana extrahida dos muros de 
Faro; ha outras, de várias espécies. Ainda hoje, quem passeia por 
junto da muralha, do lado da praia, vê nella, aqui e alem, vários 
mármores antigos, que devem ter, como o de que aqui se trata, per* 
tencido á velha Ossonoba. De modo que dos muros de Faro pôde 
dizer-se o que Cornelio Nepos, na Vida de Themistodes, cap. vi, 

diz dos da cidade de Athenas: quo factum est, ut ex sacdlis 

sepulcrisque constfirent. 

J. L. DE V. 



Aula de aroheologla 
no Seminário Diocesano de Bragança 

cjá noutra occasiSo dissemos neste jornal que era principalmente 
ao clero, tendo á sua frente o seu íUustre e venerando Prelado, que 
se devia o accentuado movimento pelos estudos archeologicos, nesta 
diocese, a ponto de em pouco tempo se ter enriquecido, com ver- 
dadeiras preciosidades o Museu Municipal, que, sem dúvida, já hoje 



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o Abcheologo Português 45 

attrae a atiençSo de todos pelos objectos curiosos e interessantes que 
contém. 

NSo se limitou, porém, Sua £x.^ Rev.™* a fazer reoommendaçdes 
e a manifestar os seus bons desejos e interesse por este assunto, coma 
o fez com a publicação da sua notável Circular Archeclogica ^, que teve 
08 justos e merecidos applausos tanto da imprensa jornalistica, como- 
scientifíca; a sua illustraçSo e amor pelo desenvolvimento doesta scien- 
cia levou-o a tomar obrigatório o seu ensino no Seminário, creando a 
cadeira de Archeologia e Iconographia annexa á de Historia Eccle- 
siastica. É este melhoramento de tal modo importante e de tanto alcance, 
que nSo passará despercebido aos que desejam ver crescer o nivel intel- 
lectual de imi povo, e especialmente aos que se dedicam e trabalham 
pelo progresso da sciencia archeclogica. É incontestavelmente um facta 
culminante da historia doesta diocese, que muito ennobrece e engrandece 
o episcopado português. 

Só o demasiado ignorante é que julgará que a archeologia é estudo- 
esteril, de mera curiosidade e sem principies; quando é certo que é 
verdadeira sciencia, que elucida, esclarece e completa a historia; que^ 
nos diz o viver das geraçSes passadas; que finalmente nos fornece 
elementos importantíssimos de progresso, e nos educa o gosto artístico. 
K%o é sciencia fácil, como á primeira vista parece; é difficil e muita 
complexa, pois requer conhecimentos iiò paleontologia, geologia, ethno- 
graphia, linguistica, etc., emfim de quasi todos os ramos do saber 
humano. 

Já vêem, portanto, os brigantinos o importantíssimo serviço que O' 
seu venerando Prelado acaba de lhes fazer, promovendo a educaçXo 
do seu clero de maneira que o habilite para poder concorrer pelos 
seus conhecimentos archeologicos para o progresso de sciencias neste 
bispado.. 

O reverendo parocho, de futuro, nesta diocese, nSo representará 
8Ó o pastor que guia as almas e as educa nos mysterios da religião,, 
será também obreiro da sciencia, que guardará e tomará conhecidos os 
elementos interessantes e curiosos da arte e da civilização, que até 
agora a ignorância tinha abandonado e desprezado. 

Pela nossa parte, d'este lugar, como um dos seus mais humildes 
cooperadores para o desenvolvimento da archeologia neste districto, 
damos a Sua Ex.* Rev.™* milhares de felicitações por haver realizado- 
um deaideratum, que em breve ha de produzir resultados que muito^ 



* Reproduzida n-O Arch. Port., iv, 58-62. 

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46 O Abcheologo Poetuquês 

h2o de concorrer para o engrandecimento e esclarecimento da historia, 
particularmente da doesta região, que, como diz o Sr. Dr. Emilio Htibner, 
sábio professor berlinês, necessita ainda de que algum douto a percorra, 
e como que arranque das trevas os monumentos d'ella: — tota vero régio 
haec adhtic desidercU peregrinatorem àliquem doctum, qui ejus monU' 
menta quasi e tenebris ertuUw. 

(D- O Nordeste, de 19 de Outubro de 1898). 

Albino Pebeiba Lopo. 



Ê com vivo jubilo que O Archeologo Português transcreve o ar- 
tigo precedente. O illustre prelado de Bragança honra-se a si, e honra 
o clero a que pertence, e o pais. Oxalá que todos os outros senhores 
bispos, em cujas dioceses n&o haja ainda cadeiras de archeologia, sigam 
este e os outros exemplos já apontados n-0 Arch. Port., i, 17 (semi- 
nário de Portalegre), 92 (seminário de Faro), 310 (seminário de San- 
tarém), e m, 61 (seminário de Évora). 

Infelizmente faltam em lingoa portuguesa bons mannaes de ar- 
cheologia que sirvam de texto nas aulas e ministrem aos alumnos no- 
ç5es exactas da sciencia; poderSo pois ter alguma utilidade as indica- 
ções bibliographicas que dei n-0 Arch, Port,, i, 151; lembro ainda 
as seguintes obras: 

— Cours ã'épigraphie latine, par R. Cagnat, Paris, Thorin, 1898, 
3.» ed., 13 fr. ; 

— Storia deU' arte etrusca e romana, do Prof. Gentile, preço 2 li- 
ras; Atlas, 2 liras (Bibliotheca Hoepli, MilSo); 

— Monete romane, de F. Gnecchi, 1,50 lira (mesma Bibliotheca), 
com estampas; 

— Numismática, do Dr. Ambrosoli, 2.* ed., 1,50 lira (mesma Bi- 
bliotheca), com estampas; 

— Epigrafia latina, do Prof. S. Ricci, 6,50 liras (mesma Biblio- 
theca), com estampas; 

— Antichità private dei romani, do Prof. W. Kopp, 1,50 lira (mesma 
Bibliotheca) ; 

— Lexique des antiquités rotnahies, dos Prof. Cagnat & Goyau, 
com estampas; 

— Lecciones de arqueologia sagrada, de D. António López Fer- 
reiro, Santiago (Galliza), 1894. 

Os Índices d- O Archeologo Português poderXo também auxiliar o 
estudo dos alumnos. 



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o Abch£Ologo Poktuguês 47 

Embora algumas das obras mencionadas sejam em italiano, nXo ter2o 
os alumnos grande embaraço em lê-las, porque todos sabem um pouco 
de latim, que lhes facilita muito o conhecimento d'aquella lingoa. 

J. L. DE V. 



Numismatioa oolonial 

E fora de dúvida que a moeda mais abundante na índia Portu- 
guesa foi a de cobre, desde o reinado de D. José I, necessária entre 
uma populaçXo geralmente pobre e dispersa em muito grande número 
de aldeias. As exigências do pequeno commerciO; quasi o exclusivo no 
território português, determinaram a abundância de valores differentes 
e até excessivamente minimos naquelle metal, valores que muito se 
damnificaram, em termos de nEo haver hoje exemplares ájlôi' do cunho, 
ou perfeitamente conservados, para os medalheiros, salvo raríssimas 
excepçSes. 

Em 1 831 o povo indiano queixou-se das falsificações, que já eram 
bem antigas, e a Junta de Fazenda em 15 de Julho do mesmo anno 
mandou recunhar as tangas e meias tangas. Cumpriu-se esta disposiçfio 
em Goa, onde as moedas verdadeiras, existentes na cidade e em seus 
arredores, facilmente foram conduzidas á officina monetária. 

SSo estas as tangas e meias tangas, simplesmente recunhadas, os 
n.^^ 3 e õ da estampa ix de ÁragSo. Existem exemplares doestas que 
tem a sobrecarga do carimbo PR — 809; tinham saido recunhadas da 
Casa da Moeda e nas províncias receberam tal carimbo, que foi uma du- 
plicação desnecessária no modo de as tornar legaes, por inadvertência, 
por erro e porque com respeito ao meio circulante indo-português raras 
vezes as providencias decretadas foram bem comprehendidas pelos seus 
executores. 

Tangas e meias tangas ha, que mostram os cunhos do tempo de 
D. Maria I e D. JoSo VI, que nSo foram a Goa receber o recunha- 
mento, e, por isto, apenas mostram o carimbo provinciano PR — 809. 
Mas que carimbo foi este? Que significou? 

Vamos patentear a nossa opinião, sem receio de que os senhores 
numismatas nos expulsem da Irmandade, provisória ou definitivamente. 
NSo era possivel reunir em Goa todo o cobre da colónia. A Junta de 
Fazenda nSo tinha igual quantidade disponivel para pôr em circulação, 
emquanto apartava o cobre falso do verdadeiro e realizava o recunha- 
mento que havia decretado. No cofre da Jimta vivia a pobreza, como 
fidalga arruinada em pardieiro antigo. 



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48 O Archeologo Português 

Naquella epocha a falta de caminhos, bem praticáveis de aldeia 
para aldeia, obstava ao fácil transporte de t2o grande quantidade de 
arrobas de metal até á Casa da Moeda de Goa. Os povos tinham outros 
misteres em que empregar o seu tempo, esquivos da enfadonha dili- 
gencia de num prazo dado visitarengi Goa e esperarem ali a legalização 
do seu magro pecúlio, na falta de um interesse immediato, que com- 
pensasse semelhante violência, como, por exemplo, augmento de valor. 
Isto comprehende-se. Para obstar ao inconveniente ordenou-se em Por- 
taria Registada' sob o n.** 809, que em differentes povoações, por con- 
veniência dos povos, se carimbassem todas as moedas, nfto idas a Goa 
ao recunhamento, por meio de um carimbo, indicativo de tal regalia — 
PR— 809. 

Se alguém disser que tudo isto é uma historia, architectada á custa 
de considerações plausíveis, nós diremos que n2o se pode admittir 
que PR — 809 signifique Príncipe Regente e data de 1809 para o ef- 
feito de uma providencia decretada em 1831. Este carimbo não é um 
só e nSo foi achado por acaso em qualquer dependência da Casa da 
Moeda; de sobejo nos convencemos d^isto, por elle nXo ser igual no 
feitio das letras P e R nos exemplares que possuímos e em vários que 
examinámos, como se mostra nas gravuras. Estas differenças devem 
corresponder aos loeaes onde os puncçòes foram feitos e applicados. KJla 
ha exemplar algum em que se leia 1809 ; o algarismo 1 falta sempre* 
Nalguns exemplares o algarismo 9 está invertido; noutros vê-se um 
ornato em forma de S, gravado em sentido horizontal por baixo de 
PR, a substituir 809. O carimbo ora está contido dentro de um circulo 
simples, ora dentado; por vezes o circulo nXo é dentado. Tudo isto nSo 
abona o pensamento da regalia para difterentes localidades? 

Nem todo o cobre, porém, recebeu a consagração do carimbo. Mai» 
tarde, por edital de 4 de Julho de 1832, como ainda existisse nas 
províncias cobre velho nSo legalizado, o Governador teve de impor 
graves penas a todos aquelles possuidores da moeda em taes condi- 
ções, que a nSo entregassem na Thesouraria em troca de outra legali- 
zada. Então, provavelmente, o povo das mais longínquas aldeias, para 
não ser vexado, optou pelo cadinho e novas baterias de cozinha foram 
fabricadas. D'aqui a raridade das tangas de D. Maria I e D. João VI^ 
primitivas, não recunhadas ou carimbadas, de cuja falta os medalheiros 
de agora tanto se lamentam. Se no futuro se encontrarem os livros 
que foram destinados ao registo das portarias provinciaes doesta epocha^ 
e se o registo n.** 809 se referir ao assunto, ficará absolutamente pro- 
vada a nossa opinião. 

Manoel Joaquim de Campos. 



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o Archeologo Português M 



OorneliuB Boochus 

Tendo já sído publicada* n-O Árchmlf^o várias referencias a Comei io Boccho 
(vid. Yú]. 1^ 69 6 256), julgo eonTeniente aqtii inserir mnÍB eBta, poato que um poneo 
ajitiquada, — que copiei ua Bibliotheca Keal de Berlim em 1899. 

J. L. DK V. 

.f, 

«Ais Verfasser der von Solinus benutzten Weltchronik hat Momm- 
sen (in seiuer Anagabe praef. S, xvii) dea Cornelius Bocchuis nacfa- 
gewiesen, denaêlben Scbriflatêller, welcheo Plinius in dea índices and 
an mehreren Stellen aeinesWerkes anfíihrt, aber immer nur fiir die 
iberísche Halbinsel bettrefeiide Dinge. In deui lusitanischen Miinicipitim 
Salacia, dem heutigen Alcácer do Sal, hat BÍch díe folgende Inschrift 
gefundeo: L, Comélio C^ f(iHo) Boccho ^Jl4im(ini)prou(inciae)^tr(i^ 
miUitum)^ colónia ScaUabitana (d. L das heutíge Santarém) oh merUa 
ín cohniam, Biiher war nur eín ganz linverstandlicber Text derselben 
(bei Mnr< 1117, 4} bekannt; den riehtigen babe ích nach der Abschrift 
eines neueren Reisenden bekannt gemacht (Mmiatsber. der Bert Akaã. 
von 1861 S, 747, jetzt C. L L., u, 35). An der Identitat dieses Boc- 
chus mit dem Schriftsteller wird nicht zu zweifeln aem, denn die Zeit 
der Inschrift (sie gehort ihrer ganzen Fassung nach und weil beim 
Tríbnnentital die Angabe der Legion fehlt in díe augustisch Zeit) und 
der Fundort (vielleicht war Bocchtis von Geburt ein Lusitaner; der 
Name ist in jenen Gegenden háufig) stimnien durchans», 

(Da revista berlineea Hermes, i (1866), p. 397). 

E. HÚBNEB. 



Extractos arclieologlcoa 
das «Memorias parooMaes de 1768» 

S00. Lamares (Trás -os -Montei) 

...... nam há nesta freguezta couza digna de memoria mais 

que bnnias ruínas de huma moralha do tempo dos mouros das quais 
nam Ha ao tempo prezente mais que os alieerses aem couza que se 
possa nomear», (Tomo xix, fl. 170}- 



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50 O Akcheologo Português 

266. Lamas (Extremadnra) 

o log^r de Pragança ' 

cA Ermida de Santo António em o lugar de Pargança a cujos 
moradores pertense a sua administração — A Ermida de N. Senhora 
da Fortaleza em o Lugar da DamdurXo». (Tomo xix, fl. 190). 

267. Lamas-de-OreUiSo (Tras-ofl-Monies) 

Muralhas dos Mouros 

cFica mistico nesta villa huma prassa que hera murada e dizem 
os antiguos que hera donde os cristãos asestiam a que chamam Muro 
ainda há pessoas que lhe lembra ver as portas inteiras achace no 
mejo da mesma prassa hum posso que Já esta atuido, e também se 
tem achado moedas de dinheiro de cobre muito antiguas algum com 
cara e outro cem ella dizem as pessoas mais antiguas (que ouue hum 
por nome Domingos Fernandes Seis Dedos que faleceu de cento e 
vinte annos e outros que faleceram de cem annos, e ainda havia hoie 
Mathias Fernandes de Idade de sento e des annos que se conserva 
sem ainda, ter sido purgado nem sangrado e há mais ou menos de 
outo annos que faleceram) e deziam se lembravam ver a dita prassa 
murada e as portas delia inteiros e defronte delia distante meya legoa 
havia outra prassa que fica no cabesso do Rey de Grelham situada 
em terra muito áspera de montes, e fragas que dizem hera dos mou- 
ros — ainda tem bocados de muralhas e ao pe da mesma prassa se 
acha huma fonte debidxo de huma fraga que dizem hera dos mouros d. 
(Tomo XIX, fl. 200). 

268. Lamas-do-Yoogra (Beira) 

Cidade deVacca 

fHe tradiçam constante que no monte ou Cabeço de Vouga esti- 
vera antigamente hua Cidade denominada Vacca em cujo Lugar ainda 
se acham tijolos, pedras lauradas e outros vestígios de edeficios e 
muralhas». (Tomo xrx, fl. 207). 

269. Lamego (Beira) 

Ruínas. — InscrípçHo romana 

Fregtiesia da Sé. — «Foy tam opulenta esta Cidade, que diz Joam 
Gerund. no séo Paralipom. ser a mayor de Espanha athé o tempo 
do Imperador Trajano, e porque se rrebelou depois contra o Império 



* Cfir. O Arch. Port., i, 5 e 6. 



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o Archeologo Português 51 

Romano, foy destruída e queymada. O que ahinda hoje com mudas 
e dolorozas vozes no-lo testefica hum lugar que está no alto do ditto 
valle chamado — Queymada — donde topiou o nome a sobredita Ca- 
pella de Sam Domingos de Queymada, e outros muitos Lugares cír- 
cumvizinhos que em* huns se descobrem sepulturas muy estreitas, 
quanto podessem accommodar hum corpo e do mesmo feytio d'elle 
e se admira em alguas estarem ahinda corpos com seos ossos orga- 
nizados e serem do comprimento de dez palmos, e em outros que- 
rendo-se fundar algum edifício se encontra debayxo da terra muyta 
quantidade de tejollos pegados com cal; e em partes o mesmo lastro 
de cazas com suas paredes e revestimentos de tejollo de altura de 
dous ou trez palmos ; que todas estas ruinas nos estXo contando com 
innanimados ecos e sua fatal destruição e asim vierâo os Gregos 
esprimentar nesta cidade, o que na de Troya em tempo de Priamo 
cauzarão». (Tomo xix, fl. 223). 

Freguesia de Almacave. — «Creyo que nSo será desagradável ao 
publico a noticia de huma inscripção que se achou em huma pedra 
que apareceo na reedificaçâo da Capella Mor da Igreja de Almacave, 
isto he no sitio em que estava o altar Mayor antigo servindo-lhe 
como de intulho, em o mes de Mayo de 1750, a qual se mandou 
colocar na parede da dita Capella Mor para a parte do Nascente. 

Terá esta pedra quatro palmos de comprido, e três de largo tem 
em circuito seos lavores munto bem figurados; he de mármore branco 
com a inscripção pelo modo seguinte, e abaixo se ve: 

IVIIAI • MARCII 

MARCIIIAI 

Q. SCAIVIVS» 

VIGIIVS • VXORI 

Hum corioso desta Cidade assentou que se devia ler assim : Juliae 
Marcii Marciliae Quintus Scalvius Vigilus vxori — Que vem a ser que 
Quinto Seal vio Vigilo consagrou a sua molher Júlia Marcilia, filha de 
Mareio, este monumento. 

Se esta pedra se nâo trouxe de outra parte para este sitio o que 
nSo é crivei fosse muy grovavel o crer-se que aqui fosse o primeiro 
sitio de Lamego etc.v (Tomo xix, fl. 365). 



^ Scaemus. Esta inscripção está dentro de um friso ornado que eu não re- 
produzo. Cf. Corp, Inscr. Lat., ii, Suppl.j n.® 5251 : «luliae Marci f{iliae) Mar- 
cellae: Q. Scaevius Vegetua uxori». 



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52 O Abcheologo Português 



270. Lainoso (Entre-Doaro-e-Minlio) 

Mouros - 

cEsta (sic) freguezía cituado em hum vale pegado no Pe de hua 
serra que chamSo Capello Vermelho adonde antiguamente estiveram os 
Mouros e está continuo para a parte do nacente tem em partes penedos 
e delia se avista a villa de Guimarais e a villa de Aveiro». (Tomo xix, 
fl. 391), 

271. Lanlieseg (Entre-DonnHe-Miiilio) 

Minas de eitanho 

cHa na dita freguesia hua Fabrica de telha, que se coze em oito 
fornos pello tempo do bram, donde se provê toda a comarca e fora 
delia os que a querem pella qualidade do barro com que se fabrica ser 

milhor que doutros territórios etc. Ha na mesma freguesia por 

sima do lugar das Roupeiras hum cabesso de Monte com muitas minas 
ou possos mui fundos; donde ha tradiçam antiga que foram minas 
de estanho». (Tomo xix, fl. 434). 

Pedro A. de Azevedo. 



Bibliograpliia 

Revue Archéologique, 3.* serie, t. xxxni, Nov.-Dez. de 1898, 

A propósito do artigo em que o Sr. De Laigne estuda Les nécro- 
polés pheniciennea en Andcdousie (1887-1895), notarei que o tumulo 
figurado na estampa xiii-xrv já havia servido de assunto a um ar- 
tigo do Sr. Berlanga publicado num jornal português, — Revista Ar- 
cheólogica, vol. ii, pag. 33 sqq., — onde vem uma estampa do mesmo 
tumulo. 



Contos para oontar 

Ha muito tempo que ando a reunir elementos para o estudo dos 
ccontos para contar» Qxijetons portugueses, poise assunto ainda quasi 
virgem. 

Além de umas indicações de Severim de Faria (sec. xvn), que con- 
fundiu contos com moedas ^, algumas observações do Sr. Teixeira de 



1 Noticias de Portugal, discurso ly, §§ zxn e xxx. 



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o Abcheologo Português 53 

Aragio nas Moedas de PorttLgal ^, um artigo do mesmo auctor na sua 
HUtoire du iravail^j e umas notas dos auctores do Diccionario de 
NumiÊmatíca?, nada mais me occorre á cerca da matéria. As únicas 
estampas por ora publicadas s2o também, que eu saiba, as que vem 
na Historia Chnealogica da casa real ^ e no citado Diccionario de Nu^ 
mismatica^ 

Os contos, como muitas das suas legendas o dizem, — Contos paba 
CONTAR — , serviam para fazer operaçSes arithmetioas, e tiveram princi- 
pidmente uso na idade-média, até á epocha da vulgarização dos alga- 
rismos árabes na Europa (sec. xv). Todavia os que se conhecem entre 
nós nSo v2o alem do sec. xiv. No sec. xvu já o seu uso estava em 
decadência, por isso que, como vimos, Severim de Faria nSo conhece 
oomo taes os que cita nos Discursos. A vida dos nossos contos cir- 
cumscreve-se pois aos séculos xiv, xv e xvi, ou principies do xvu. 

Os contos portugueses relacionam-se, como é natural, com os dos 
outros países. Sobre o uso geral d'estes objectos vid. Histoire dujeton 
ou moyen âge, por J. Rouyer & E. Hucher, Paris 1858. É assim que, 
por exemplo, encontramos em contos estrangeiros dos séculos xiv-xv 
legendas análogas á citada portuguesa: Je sui{s) de Jettonpourjete(r)^; 
jettoirpour ler cdptes en Brabant 7; o mesmo se nota a respeito de outras 
legendas (divisas, etc). Muitos dos brasões que se vêem nos nossos conto» 
podem sê-lo de famílias a que elles pertencessem, porque, se os reis 
e as repartições officiaes tinham ye^on^ para seu uso, como mostram as 
armas e as legendas, isso succedia igualmente com os simples particu- 
lares^; para averiguar aquelle ponto é porém necessário proceder ao» 
estudo de cada conto em especial. 

Com quanto os contos tenham forma monetária, elles nSo pertencem^ 
rigorosamente fallando, á Numismática; hoje os numismatas propendem 
para constituir com elles uma disciplina própria. 

Os antigos contos degeneraram modernamente em tentos de jogo. 
Com elles se prendem até certo ponto as senhas, e outras peças ana- 



* I, 245, nota. 
« Pag. 119. 

» Porto 1872-1884, pp. 15, 42, 44, 170171. 

« Vol. IV, est. E, n.» 33. 

^ Loeiê citatiê, 

^ Gazette numitmatiqut Jrançaise, i, 325. 

^ Eevue bdge de numismatígue, 1898, p. 48 sqq. 

* Havia ao mesmo tempo jetom para uso do público; os escriptores franceses 
chamftm*lhes jetam banaux. 



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54 O Archeologo Português 

correspondentes aos méreaux franceses ^ ; todavia méreavx ejetans fazem 
muita differença entre si. 

Tendo eu communicado ao Sr. Júlio Meili, de Zúrich, possuidor de 
uma valiosa collecçfio de c contos» portugueses, as intençSes em que 
eu estava de proceder ao estudo d'este ramo da nossa archeologia, di- 
gnou-se ellè prometter-me a sua ajuda, e logo pouco depois de me escre- 
ver a primeira carta me enviou uma lista muito circumstanciada dos 
exemplares que compõem a sua collecçâo. Como eu nSo posso desde 
já realizar o meu annunciado trabalho, porque me faltam ainda alguns 
elementos, e porque nSo posso dispor por ora do necessário tempo para 
os colher, resolvo publicar desde já, com auctorízaçSo do Sr. Meili, 
a lista que elle me enviou, constituindo com ella o n.^ 1 de uma serie 
de estudos preparatórios sobre os c contos para contar», como já a 
respeito de diversas matérias esta revista tem publicado outros. 

O Archeologo Portugtiês, ao mesmo tempo que, inserindo nas suas 
eolumnas este artigo, dá aos leitores um trabalho de mérito, honra-se 
também com a coUaboraçfto do Sr. J. Meili, a quem a Numismática por- 
tuguesa deve já tio notáveis escritos*. 

J. L. DE V. 

I 

«Contos para contar» da collecçâo de Júlio MeiU, de Zfirlch' 

Seoulo XIV e XV 

Dl&metroH de (P^íttl a 0*,024, correspondendo maia ou menos ao moioToméi de D. Fernando 

I>* Feirnanâo 

N.** 1. — Cobre. — ConservaçUo medíocre. 
Quinas dentro de um circulo. 
I^. Cruz semelhante á da Ordem de Malta. 
Legendas de ambos os lados, porém illegiveis. 



^ Exemplos d*esta ultima espécie : 

1. Anverso: I. W. PHLPES & C.° MADEIRA. Ao centro: 50 ^- 1802, 
Reverso: PAGARA AO PORTADOR. Ao centro: CINC^^ REIS. 

2. Anverso: PHELPS. PAGE & C.«— MADEIRA. No campo: ÍOO «^ 1803. 
Reverso: PAGARÃO. AO. PORTADOR. No campo: CEM REIS. 

* O artigo que se segue foi redigido pelo próprio A. em português. 
5 Nâo vâo reproduzidos todos os números, porque os mal conservados nSo 
dão boas cópias. 



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o Abcheologo Português 5õ 

N.° 2. — Cobre. — Medíocre. 

Qainas dentro de um circulo, can tonadas de 4 arruellag, 

^. Cruz can tonada de 4 arruellas; cada braço da cruz acostado iia 

sua extremidade por uma arruella de cada lado. 
Legendas de ambos os lados, porém illegiveis. 

N.® 3.-:— Cobre. — Bastante bello. — .Veja-se a estampa. 

>í< GASPAR : MELCHIOR : —Quinas dentro de um circulo Ae pé- 
rolas, can tonadas de 4 estrellas. 

5f. í< GASPAR : MELCHIOR : B : (nomes dos reis magos)— Cruz 
can tonada por 4 florões; nas extremidades de cada hastea uma 
arruella. 

N.° 4. — Cobre. — Mediocre. 

Igual ao numero anterior, com a differença de os braços da cruz 
não serem acostados de arruellas. 

I>. Jfoeio I 

N.® 5. — Cobre. — Mediocre. — Veja-se a estampa. 

OIHNSODEIOGRAOREXO— Quinas sobre um circulo de 
pérolas, cantonadas por 4 estrellas. 

5r. >b IHNS * DEI * GRA * REX # P— Cruz cantonada por 4 es^ 
trellas. 

(Semelhante ao exemplar de Aragfto, HisL du traoail, n.* 1521). 

N.® 6. — LatSo. — Bello exemplar. — Veja-se a estampa. 

+ AÓ * GALARDON ♦ COMO * AODO— Quinas sobre um circulo 

de pérolas, cantonadas por 4 estrellas. 
Çr. * EN : LATON : A BON : SERVIÇO : — Cruz cantonada por 
4 estrellas. 

(Semelhante ao exemplar de Aragão, HisL du travail, n.*» 1522 e Ainai-al, 
Num, Port., pag. 170). 

N.** 7.— Cobre.— Mediocre. 

* AO : BONO * GALARDON « COMO * — O mais igual ao numero 
anterior. 

N.^ 8. — Cobre. — Mediocre. 

DOMINVS*MECV 'N: BG— Quinas sobre um circulo j canto- 
nadas por 4 estrellas; o escude te do meio entre 4 pontos. 

5f . Legenda illegivel. Cruz cantonada por estrellas e pontos, tendo 
em cada extremidade 2 arruellas. 



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56 O Archeoloqo Português 

N.** 9. — Cobre. — Muito bom. — Veja-se a estampa. 

*POR + TV + GAL + ET + AL + GARBI— Quinas dentro de 

um circulo, cantonadas por 4 estreitas. 
Ur. * POR + TV + GAL + ET + AL+ GAR + BI— Cruz canto- 

nada de 4 estrellas. 

Fins do Seonlo XV 

Disíiiietro de (P,086, correipondendo maia on manos com o Seál groMo de D. Affbnso V 

I>. A^fTaitma V e I>. JTo&o II 

N.** 10. — Cobre. — Bom. — Veja-se a estampa. 

*CANTATE : DOMINO : CANTICN : NOVL : (a ultima pala- 
vra é incerta) — Dentro de um duplo circulo ogival 4 escude tes 
com as quinas em volta de um escudo maior; fora dos círculos 
ogivaes achão-se 8 pontos. 
5r. * EM : L ATOM : ABOM : SERVIÇO : EM ALC — Dentro de 
um duplo circulo ogival 3 castellos com muralhas, um escudete 
com as quinas em cima e outro em baixo dos castellos ; 8 pontos 
fora dos circules ogivaes. 

N.** 11. — Cobre. — Regular. — Veja-se a estampa. 

* CONSERVACIO : REX : PVBLICE : IN— Sobre a cruz de Aviz 
as quinas em cruz dentro de um circulo; fora do circulo 4 cas- 
tellos. 
1^. Uma roda de moinho espadanando agua. 

(Ignal ao exemplar da Historia Genealógica, livro ▼, pag. 456, estampa E, 
n.^ 33, onde vem mencionado como moeda, variante do de AragSo, Hist, 
du travail, n." 1524, e variante do de Amaral, Num, port.^ pag. 170). 

N.® 12. — Cobre. — Regular. — Veja-se a estampa. 

4^GAS^PAR4-MEL4^CHI0— Cruz de Aviz cortando a le- 
genda; no centro cruz de S. Jorge, phantasiada, dentro de um 
duplo circulo ogival; 6 pontos fora do circulo. 

1^. Uma roda de moinho espadanando agua. 

(Comparar com o exemplar de Aragão, Hiat du travail, n.® 1525). 

N.® 13. — Cobre. — Bom. — Veja-se a estampa, onde o reverso vem^ 
por descuido, mal collocado. 
:CONTVS:CONTVS:CONTVS:— Dentro de um duplo circulo 

ogival um escudo com uma cruz, circumdado de 4 S. 
5f. ^ CONT ♦ CONT ^ CON ♦ CONT— Cruz da ordem de Aviz 
cortando a legenda. Dentro de um circulo as quinas, cantonadas 
de pontos, arruelias e semicírculos. 



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o Archeolooo Pobtuguês 57 



Seoulo XVI 

DUmetroB de O^^OSS a 0"|081, correapond^ndo mais on menoi em modnlo, 
eapeisura e typo ao tostio de D. Manoel. 
Parece que os ezemplarea com a fígnr% do pelicano deyem também entrar nesta categoria 

I>* Manoel 

N.** 14. — LatSo. — Bom. — Veja-se a estampa. 

:DINEI:4^R0S:4^D^EC0NT^VS:P:E:— Sobreacruzde 

Aviz, cortando a legenda, o escudo d'armas de Portugal, com 14 

castellos, dentro de um circulo e acostado por um ponto de cada 

lado. 

5r. *CONTVS : CONTVS : CONTVS : CONTVS :— Um pelicano 

> dentro de um ninho com 3 filhinhos. 

(Semelhante, como também os três números seguintes, ao exemplar de AragSo, 
Hiêt. du travail, n.^ 1Õ26 e ao de Amaral, Num. port,, pag. 171). 

N.^ 15.— Latão.— Regular, 

Igual ao anterior, mas a última palavra no reverso é CONTV (em 
vez de CONTVS). 

N.^ 16.— Cobre.— Regular. 

4^DINEI ^ ROS : B^E CON ^ TVS : D — Semelhante ao n.« 14, 

tendo porém aos lados do escudo duas flores de liz. 
5r. * CONTVS : CONTVS : CONTVS : CONT VS : — Igual ao 

n.*> 14. 

N.** 17. — Cobre. — Anverso bom, reverso mal conservado. 

^DINEI:4^:R0S:D>:EC0NT:^:VS:P:D: — No mais é 

igual ao n.^ 14. 
1^. Igual ao n.^ 14. 

N.* 18. — Latão. — Regular. — Veja-se a estampa. 

:TIMO E COMINIS LATVS PERMALETIOS EO- Escudo 
português com 9 castellos, coroado. Aos dois lados do escudo 
tem arabescos. 

ftr. IN DEO MANET ET ET QVD ALEA IN CARITATE : — 
Pelicano com filhinhos dentro de um ninho.. 

(Semelhante ao exemplar de Aragão, Hiêt, du travail, n.^ 1527). 

N. B, Kos cinco exemplares precedente! a eoroa qne encima o esendo tem o característico de ser 
molto pequena. 



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58 O Archeologo Português 

N.° 19. — Cobre. — Bom. — Veja-se a estampa. 

ODPLVODOAONOMONMG— No centro, dentro de um cir- 
p 

culo, o Ma (Manoel e Portugal?) 

V 

Çr. O OMNIS : SPES : EIVS : IN : DE :— No centro, dentro de um 

circulo, a esphera. 
(Comparar com o exemplar de Amaral, Num. porL, pag. 42 e 43). 

N.® 20. — Latão. — Bom. — Veja-se a estampa. 

4^C0NT4^VSPE4^RAC0 4^NTAR— Escudo português, com 

oito castellos, coroado, com 2 arruellas aos lados, sendo os escu- 

detes substituidos por arruellas. 
IJr. CON ♦ TARC : ♦ CONT : ♦ VS PER :— Esphera circumdada 

de 10 estrellas dentro de tím circulo. 

N.^ 21.— Cobre.— Medíocre. 

Semelhante ao numero anterior, porém no reverso nSo tem estrellas, 
circumdando a esphera. 

N.® 22. — Bronze. — Bom. — Veja-se a estampa. 

>í< CONTOS ^ PER^ CONTAR ^ CON : D : —Escudo coroado sen- 

do os escudetes substituidos por arruellas, aos lados 2 arruellas; 

tudo dentro de um duplo circulo. 
9r. +CONTOS + VSPER + ACONTA— A esphera circumdada 

de 8 estrellas dentro de um circulo. 

N.^ 23. — Bronze. — Medíocre. 

>í< CONTOS ^ PER ^ CONTAR ^ CON : D : —Como o numero an- 
terior. Escudo coroado, aos lados 2 arruellas. 
^. ^ CONTOS ♦ PAR A ^ VEERD ADE— A esphera sem estrellas. 

N.** 24. — Bronze. — Muito bonito. — Veja-se a estampa. 

♦ CONTO ADOPTO 4^ OTE AR -^E COTAR— A cruz de Ayiz 
cortando a legenda. Dentro de um circulo as armas portuguesas, 
com 10 castellos. 

9.. í^DEVIISA + D : R : P : PARA + METES— A esphera. 
(Semelhante ao exemplar çle Aragão, Hi^t, du travail, n." 1Õ31). 

N.** 25. — Bronze. — Bonito. — Veja-se a estampa. 

♦ CONTVS <^ DE : R : ET 4^ A : DNVS ^ GVINEE :— A cruz 
de Aviz cortando a legenda. Dentro de um circulo as armas por- 
tuguesas, coroadas, com 12 castellos. 

^ DEVISA 4- D : R : P : DS 4- . . ETRA 4^ C ADA VN— Esphera 
sobre fundo de arabescos dentro de um circulo. 



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o Archeologo Português 59 



N.° 26. — Cobre. — Bom, parece fundido. 

^ CONTV ^ DOPTO ^ OTEAR ♦ ECOTAR— A cruz de Aviz 

cortando a legenda. Dentro de um circulo as armas portuguesas, 

coroadas, com 10 castellos. 
^. '^►DEVISArDEiR^DErPVRTVGAL— A esphera dentro 

de um circulo. 

(Igual ao exemplar n.® 1531 de Aragfto, Hist. du travail, e semelhante ao 
de Amaral, Num. port,, pag. 15 e 16). 

N.** 27. — Bronze. — Bom. — Veja-se a estampa. 

Semelhante ao numero precedente, mas de bronze. 

I>. JTo&o TH 

N.** 28. — Bronze. — Bom exemplar. — Veja-se a estampa. 

^►COXT^VSPER^ACON^TARSC— A cruz de Aviz corta 

a legenda. Escudo português, coroado, com 14 castellos. 
iir. 4^ : CONT ^ VSPER ^ ACON ^ T VSP :— A cruz de Aviz corta 

a legenda. Dentro de um circulo a esphera, eircumdada de 6 

estrellas. 

(Semelhante ao exemplar de Aragfto, Hist, du travaU, n.*» 1543). 

N.** 29. — Bronze. — Bom. — Veja-se a estampa. 

*D:N:IOANES ! III i PORTUGA '.• —Armas portuguesas, com 

o 

11 castellos, coroadas; aos lados do escudo P — ° 
IJr. *OMNIS ; SPES :* EIVS \ IN . DE i — A esphera omamen- 
tada dentro de um circulo. 

(Semelhante ao exemplar de Amaral, Num* part,, pag. 43). 

N.** 30. — Cobre. — Regular. — Veja-se a estampa. 

: D • N • lOANNES • I • I • I POO : — Dentro de um circulo ogival 

uma torre entre 4 eseudetes. 
IJr. : ONISS : SPES : EIVS : IN : CE : — A esphera, ornamentada, 

dentro de um circulo. 

(S^nelhante ao exemplar de Aragão, Hiat, du travail, n.» 1536). 

N.® 31. — Bronze. — Anverso mal conservado. 

DN-IOANNESII ÍPO- — O mais como o numero prece- 
dente. 

!tr. * OMNIS : SPES : EIVS : IN : DE ; — A esphera dentro de um 
circulo. 



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60 O Akcheologo Português 

N.° 32.— Cobre.— Medíocre. 

* D : N : lOANES : I • I I • P : O :— Armas portuguesas sem co- 
roa, aos lados do escudo »J — Ô' 

5f. ^ OMNIS : SPES : EIVS : IN : DE :— A esphera dentro de um 
circulo. 

N.** 33. — Cobre. — Bom. — Veja-se a estampa. 

>í<IOANES 3 AD : G : C : NC : ET • I— Dentro de dous cír- 
culos as armas portuguesas coroadas, tendo aos lados P — O. 

5f. CONTOS :DR P E PARA: HO— A esphera dentro de dois 
círculos de pérolas. 

N.^ 34.— Bronze.— Bom. 

lOANES 3 • R ET • A I : D : CC : NCET— Dentro de dous circulo» 

as armas portuguesas, coroadas, tendo aos lados P — O. 
5r. CONTOS:DR-ET ARA:HO — A esphera dentro de dou» 
círculos de pérolas. . 

N.^ 35.— Bronze.— Regular. 

BICHANES 3 R : P : ET : A : DVINEE *— Armas portuguesas 

coroadas, acostadas de P — O. 
5f. DE VIS A DR PARA METES : P— Esphera circumdada de 
ornamentos. 

N.* 36. — Cobre. — Regular. — Fundido. 

BICHANES 3 : R : ET : A : D : GVINEE— O mais como do nu- 
mero antecedente. 

5r- DE VIS A DR : P : PARA : METES— O mais como do numero 
antecedente. 

(Semelhante ao exemplar de Aragão, Hist, du travail, n.** 1587). 

N.® 37. — Bronze. — Regular. — Veja-se a estampa. 

CONTOS : PARA • RCO — Escudo de phantasía, cuja coroa corta 
a legenda, contendo o escudo 5 estrellas e 5 arruellas, com dois 
pontos aos lados. 

5f. *AOC^NO^V 0NIT^ O VN— Esphera dentro de um oir- 
culo de pérolas. 

N.** 38. — Cobre.— Regular. 

^ CONTOS :^ PARA :V CONTA— Escudo de phantasía, sem co- 
roa, ornamentado, com 5 estrellas no centro. 

5f. *AOC^NO^V0NIT^OVN— Esphera dentro de um cir- 
culo de pérolas. 



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o ÁRCHeOLOGO PORTUGUAS 61 

N.** 39. — Bronze. — Bom. — Veja-se a estampa. 

*CONTOS i PÊRA : CONTAR— Escudo de phantasia, coroado, 

contendo no centro 5 estrellas, aos lados 1 arruella. 
5-. * CONTOS : PÊRA i VERDA— Esphera dentro de um circulo 

de pérolas. 

N.** 40. — Latfto. — Bom. — Veja-se a estampa. 

♦ lEPSSI + APSI + ILS + ILSI— Escudo de phantasia, sem co- 
roa, tendo no centro 5 florSes e 4 arruellas, e mais 4 arruellas 
em tomo. 

5^. *AOC^NO^V0NIT^OVN— Esphera dentro de um cir- 
culo de pérolas. 

li.® 41. — Cobre. — Mediocre. — Veja-se a estampa. 

+ CONTOS •+• PÊRA •+• VERDADE: D:— Escudo de phanta- 

sia, sem coroa, com estrellas e arruellas em torno. 
5f. ^ CONTOS ^ PARA ^ VEERDADE ^—Esphera dentro de 
um circulo de pérolas. 

li.® 42.— Bronze.— Bom. 

* CONTOS PÊRA CONTAR— Escudo português coroado, tendo 
aos lados uma arruella. 

8r. *CONTOS + PÊRA + CONTAAR— Esphera. 

li.® 43. — Bronze. — Bom. — Veja-se a estampa. 

^CONTOS- PÊRA CONTAR— Escudo português coroado, ten- 

do á esquerda I e á direita um florSo. 
8r. * CONTOS *: PÊRA *: CONTAR. —Esphera. 

N.® 44. — Cobre. —Bom. 

^TNO04^TNO0^TNO04^TNO0 (CONT ás avessas esta pa- 
lavra e retrograda.) — Cruz de Aviz cortando a legenda. Escudo 
com pequena coroa, contendo no centro 5 estrellas, e na orla 
14 castellos; aos lados 1 arruella. 
5r. *IO0SVT*IIO0SV*NO0S»VTNO&— Esphera dentro de 
um circulo de pérolas. 

U.® 45. — Cobre. — Bom. — Veja-se a estampa. 
Como o numero anterior 

5f. 4^C0NTV<^C0NTV4^C0NTV4^C0NTV— A cruz de Aviz 
cortando a legenda. No campo a esphera. 



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62 O Archeologo Português 

N.^ 46.— LatSo.— Bom. 

+ CONTOS : PÊRA : CONTAR • ! • —Escudo coroado com 5 flores 
de liz no centro. 

* CONTOS :*: PÊRA : CONTAAR :— Esphera. 

N.® 47, — Cobre. — Medíocre. 

:4>:V;M:V:<^V:M:V:4^:V:M:V:^V:M:V— A cruz de 

Aviz corta a legenda. Escudo de phantasia com pequena coroa, 

tendo no centro 4 escudetes^ cantonados de 5 estrellas ; de cada 

lado um ponto. 
8r. ^ CONTV ^ CONTV ^ CONTV ^ CONTV— A cruz de Aviz 

cortando a legenda. No campo a esphera dentro de um circulo 

de pérolas. 

N.® 48. — Bronze. — Medíocre. 
Como o numero antecedente. 

It. * CONT * CONT * CONT * CONT— No campo a esphera dentro 
de um circulo de pérolas. 

N.<» 49.— Cobre.— Ruim. 

^ CONTOS ^ PÊRA ♦ CONTAR— Escudo português coroado, acos- 
tado de ura florão de cada lado. 
^. COINTOS^ PÊRA ♦CONTAR— No campo a esphera. 

I>. @e1>astiao 

N.® 50. — Cobre. — Regular. — Veja-se a estampa. 

^C0NT^EN0I4^E0NT4^E0NT— A cruz de Aviz cortando 

a legenda. Escudo de phantasia com pequena coroa, tendo no 

centro 5 estrellas e na orla 15 castellos, acostado de um S de 

cada lado. 
gr. ^ CONTV ^CpNTV^^ CONTV 4> CONTV -A cruz de Aviz 

cortando a legenda. A esphera dentro de um circulo de pérolas. 

N.® 51.— Bronze.— Bom. 

♦ E0NT^C0NT4^E0NT^E0NT— O mais como do numero 
precedente. 

gr. Como o do numero precedente. 

(Comp. o exemplar de Aragão, Hist, du travail, n.*» 1530). 

N. B. Nos dois nnmeros precedentes a coroa e todo o typo assemeJham-se multo aos dos n.*' 14 a 17. 



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o Abcheologo Português 63 

N.® 52. — Cobre. — Medíocre. — Fundido. — Veja-se a estampa. 

Na orla exterior : ^ C VNT VS ^ C VNT VS ^ C VNTVS ^ C VNTVS 

A cruz de Aviz cortando a legenda. 
Na orla interior: + CVNTVS • PÊRA CONTAR E • 
No centro : 5 escudetes com 1 só arruella, cantonados de 4 S e de 

4 arruellas. 
5r. ♦ CONT VS 4^ CONT VS ^ CONT VS ^ CONTVS — A esphera 

dentro de um circulo de pérolas. 
(Semelhante ao exemplar de Amaral, Num, porL, pag. 44). 

N.^ 53.— Cobre.— Bastante bello. 

Na orla exterior; ^ CVNTV ^ CVNT ^ CVNT ^ CVNT— A cruz 

de Aviz cortando a legenda. 
Na orla interior : CVNTVS : PÊRA CUNT 
No centro como no numero precedente, porém os escudetes com 

as quinas. 
8r. *CVNTOS# CONTOS* CONTOS— A esphera dentro de um 

circulo de pérolas. 

N.^ 54. — Cobre. — Bastante bello. 

Na oria exterior : ^ CVNT ^ CVNT ^ CVNT ^ CVNT— A cruz 

de Aviz cortando a legenda. 
Na orla interior : CVNTVS : PÊRA CONT 
No centro como no numero precedente. 
5f. * CONTOS* CONTOS* CONTOS— A esphera dentro de um 

circulo de pérolas. 

N.^ 55.— Latão.— Bom. 

CVNTVS CVNTVS CVN— No centro as quinas cantonadas de 

4S. 
5f. A esphera sem legenda (ou talvez com a legenda cortada?) 

(Este exemplar tem somente O" ,020 de diâmetro e peza 3,40 grammas). 

N.® 56. — Cobre. — Bom. — Veja-se a estampa. 

*CONTV*DE COTA* AR: FAZ* CONTA— No centro 5 es- 
cudetes com as quinas, sendo o do meio coroado, circumdados 
de 4 castellos e 12 arruellas; tudo dentro de um circulo de pé- 
rolas. 

5f. DEVISA:DE:R«DE PVRTVGL— Esphera dentro de um 
circulo de pérolas. 

(Este reverso é semelhante ao de Amaral, Num. port,, pag. 15). 



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64 O Archeologo Português 

N.** 57. — Bronze. — Bom. — Veja-se a estampa. 
Como o do numero precedente. 
5r. C0NTV:4^DEC0T4^ARETEAR4^TE AAR— No campo 

a esphera dentro de um duplo circulo de pérolas. A cruz de 

Aviz corta a legenda. ^ 

Pl&ilippes 

N.** 58. — Latão. —Medíocre. 

* CONTOS ♦ PÊRA ^ CONTAR— Escudo português coroado, acos- 
tado de-:--— •:• 

^. (florlo) CONTOS (florlo) PÊRA (florão) CONTAR— No campo 
a esphera. 

(Este exemplar assemelha-Be no tjpo ao tostSo de Philippe H, n.^ 8 de 
AragSo) 

Snpplemeiito de mais algumafl Yariantes 

N.** 59. — Bronze. — Medíocre. 

+ CONTOS + AVSPERA + CONT— Semelhante ao n.« 22, porém 

tendo no centro escudetes em vez de arruellas. 
5r. +CONTOS + VSPER+A CONTAR— O mais como o n.^ 22. 

N.** 60. — Bronze. — Ruim. — Fundido. 

COHTAR^CONTOS : ^ PÊRA— Semelhante ao n.^ 38, mas com 
o escudo coroado e a omamentaçSo d'elle um pouco differente. 
^. Como o do n.^ 38. 

N.* 61 . —Cobre. —Ruim. 

CONT V (o mais illegivel) — Cruz de Aviz cortando 

a legenda. Escudo de phantasia coroado, com 7 escudetes, sendo 
o do meio acostado de arruellas. Aos lados do escudo 'S — S 
1^. Como o do n.** 50. 

(£ exemplar interessante, infelizmente está mal conservado). 

N.® 62.— Cobre.— Ruim. 

Variante dos n.®* 53 e 54 que tem na orla interior : CONTOS : 
C : CONTVS :— O mais é semelhante aos n.^» 53 e 54. 

N.** 63. — Cobre. — Reverso ruim. 

*CONTV*DE COT* AR: FAZ* CONTA— O mais como on.*56. 
5r. *COTVS*COTVS»COTVS*COTVS— Esphera dentro de 
um circulo. 



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Collecçào Meili. 








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EXPEDIENTE 



O Archeologo Português publicar-se-ha mensalmente. Cada número 
será sempre ou quasi sempre illustrado, e nSo conterá menos de 16 
paginas in~8.^, podendo, quando a affluencia dos assumptos o exigir, 
conter 32 paginas, sem que por isso o preço augmente. 

PREÇO DA ASSIGNATURA 

(Pagamento adoantado) 

Anno 1^500 réis. 

Semestre 750 » 

Numero avulso 160 » 

Estabelecendo este módico preço, julgamos facilitar a propaganda 
das sciencias archeologicas entre nós. 



Toda a correspondência á cerca da parte litteraria doesta revista 
deverá ser dirigida a J. Leite de VasconcellOS, para a Biblio- 
iheca Nacional de Lisboa. 

Toda a correspondência respectiva a compras e assignaturas 
deverá, acompanhada da importância em carta registada ou em vales 
de correio, ser dirigida a J. A. Dias CoelllO, para a Imprensa 
Nacional de Lisboa. 



Á venda nas principaes livrarias de Lisboa, Porto e Coimbra. 



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VOL.V 



1899-1900 



N.° 6 



O ARCHEOLOGO 



Ar.':?'; ,^,j 




COLLECÇiO ILLDSTRADA DE MATERIAES E NOTICIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 







Velerum volvens monumenta virorum 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 
1900 



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STJTsã^Tsa^J^'RXO 



o cálix de ouro do mosteiro de alcobaça : 161. 
Protecção dada p£ix)s Governos, corporações officiaes e Insti- 
tutos sciENTiFicos Á Arciieologia : 166. 
Notícias várias: 167. 
Contos para contar: 168. 
Analecta epigraphica lusitano-romana: 170. 
Vestígios romanos no concelho de Vianna do Castello: 175. 
Museu Municipal da Figueira da Foz: 177. 
Elementos para a solução de um problema archeologico: 184. 
Extractos archeologicos das «Memorias parochiaesi: 187. 
Inscripçoes romanas do Minho: 192. 



Este fascículo vae illnstrado com 7 estampas. 



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o ARCflEOLOGO PORTUGUÊS 



COLLEGÇIO ULUSTRADâ DK MATERIâES E HOTICIâS 

PPBUCAOA PBLO 

MUSEU ETHNOLOGiCO PORTUGUÊS 



VOL.V 1899-1900 N.» 6 

O cálix de ouro do mosteiro de Alcobaça 

(Continuado do n.* 5, pag. 184) 

Rev."» P.« Mestre. — Entre as duas ultimas deV. Ilev."* que, aliás, estimei 
com a devida veneração, e depois de ter respondido á primeira, chegou ao nosso 
prior, o Dr. Fr. Francisco Caetano, uma do Rev."<» D. Gaspar, prior do real 
mosteiro de S. Vicente de Fora, na qual, por serem amigos, lhe pedia as lettras 
do cálix. 

Esta carta, junta á de Y. Rev."*, avivou em todos nós a magua de nfto haver 
aqui quem soubesse debuxar o cálix com a perfeição queV. Bev."* desejava, 
quando, neste meio, chegou a segunda deV. Rev."*; pelo qual, indo nós ver o 
outro cálix ao livro apontado ', se arremessou um monge a ver se poderia fazer 
outro semelhante; e, para este effeito, chamámos também ao mestre apparelhador 
que aqui trazemos nas obras, para tomar as medidas certas. Finalmente, sahiram 
com um rascunho, o melhor que pôde ser; e, como o prior teve mais parte na 
obra, e, como nosso prelado actual, em ausência do Rev."®, que anda no Alemtejo, 
tem a primeira voz — o manda ao Rev."® D. Gaspar; e me diz que lá nessa corte 
se podem, pelo que vae, tirar outros semelhantes ; e, por eu entender da urbani- 
dade de Rev."*** D. Gaspar, a quem conheço de Coimbra, que estimará a occasifto 
de lisonjear o gosto deV. Rev."*, participando-lh*o, e o rascunho feito custar 
muito a £euser, me accommodei. E peço aV. Rev."* muito por mercê me releve 
nfto o poder servir melhor, por ser cousa que eu nfto sei fazer, nem haver na terra 
quem a faça por dinheiro. 

Espero, com boas novas de V. Rev."», pelos papeis promettidos. 

Deus guarde aV. Rev.** 

8 de Dezembro de 1713. — DeV. Rev."* súbdito e orador affectuosif8Ímo=> 
Fr, Manod do$ Sanioê, 



* Paroee faltarem neste ponto doas cartaa : — luna de Fr. Manoel doi Santoi, respondendo á qoo 
lhe dirifira, em 18 de Kovembro, D. Manoel Caetano de Sonsa; outra d*este, Indicando, no int«ito 
de íkcilitar a tareia do desenho, nm livro onde se encontrava reprodnsldo nm ealix. 



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162 O Akcheologo Português 

Rev.™* P.« Mestre. — Por um homem que foi d*aqul a essa cidade, escrevi a 
V. Rev."*, respondendo á BUa última; porém, voltou sem mé dar certeza da en- 
trega, o que me obriga a repetir o que dizia na outra. 

Na mesma semana em que me chegou a de Y . Rev."^, escreveu ao nosso prior 
*o do real mosteiro de S. Vicente de Fora, pedindo-lhe as lettras do caliz; e, com 
effeito, lhe foram, e, juntamente, um debuxo ou rascunho do mesmo cálix, feito 
por um monge, o melhor que pôde, e com muita paciência, por ser pouco destro na 
arte. Por esta razão, nâo se atreveu a fazer outro para eu mandar aV. Rev."', 
como desejava; nos quaes termos escrevi a V. Rev."», dando-lhe conta, para que, 
pelo que foi ao prior de S. Vicente, fizesse tirar outro, — o que lhe seria feicil 
nessa cidade, aonde nada falta. 

Se a primeira carta nSo chegou aV. Rev.**, me perdoe o que pareceria di- 
lação na resposta, e me tenha na sua lembrança para todas asoccasiòes de seu 
serviço. 

Deus guarde a V. Rev."* 

28 de Dezembro de 1713. — DeV. Rev."* súbdito e orador affectuosissimo^ 
Fr, Manoel das Santoa, 



Informaçfto do cálix de ouro 

O cálix de ouro do real mosteiro de Alcobaça é data do senhor rei D. Manoel, 
no tempo que governou este mosteiro, como tutor de seu filho, o senhor infante 
D. Affonso, commendatario d'elle. Colhe-se da memoria que vai na certidão, a 
qual, pelo feitio da lettra e estar já gastada, se deixa ver que é escripta por 
quem vivia no tempo do infante; e, ao menos, que seja antiquissima, não se pôde 
duvidar; porque já quando o nosso illnstrissimo Fr. Angelo Manrique ideava a 
grande obra dos seus Annae» cistercienseê, que foi pelos annos de 1610, entre 
outras notícias que mandou pedir e lhe mandaram doesta casa, foi esta memoria, 
que elle traz impressa no segundo tomo dos Atmaes, na serie dos abbades perpé- 
tuos de Alcobaça, pag. 11, § 26. Confirma-se ser data de el-rei D. Manoel, porque 
o feitio do dito cálix mostra ser obra do mesmo artífice que obrou a custodia 
do mosteiro de Belém, que o dito rei também deu, segundo o que me dizem. 

Pesa, com a patena, nove marcos de ouro. Tem lettras em quatro partes: — 
no pé ; no princípio da columna; no copo, e em dois passos do copo ; porém, o papel 
impresso não faz menção mais que das primeiras duas. Nas lettras do copo, não 
falia. 

A patena é lavrada toda ao buril. Da parte superior, tem o passo da ceia do 
Senhor, esmaltado de vermelho, e, ao redor, estas lettras : I H S ; e nas costas, 
tem o passo da soledade da Senhora, também ao buril e esmaltado; mas já os 
esmaltes, em parte, cuspidos fóra. 

No cálix, estão doze passos da Paixão do Senhor, seis no pé e seis no copo. 
Os seis passos do pé são estes: — 1.<^, o Senhor no horto: os três apóstolos dor- 
mindo, o anjo confortante, e o horto admiravelmente fingido, com seus penedos 
de ouro tosco, arvores, etc. ; 2.<», o Senhor na prisão : Judas dando o beijo, os ju- 
deus cum gladi%8 et ftistibus, S. Pedro levantando o braço com o alfange, e, a seus 
pés, Malco, derribado, com a lanterna pendente; S.% o Senhor em casa do pontí- 
fice : este, assentado debaixo de docel, mui circumspecto, e o Senhor em pé, cer- 
cado de judeus, e um tendo mão na corda por detrás do Senhor, a qual o Senhor 



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o Archeologo Português 163 



tem ao pescoço; 4.<*, o Senhor no pretório: Pilatos á porta do pretório, bailando 
aos jadeas, vestido como gentio, á torquesca; aos seus pés, um cãosinho, coçan- 
do-se; e o Senhor em pé, como os mais, e o judeu detrás, pegando na corda; 5.«, o 
Senhor á columna, açoutando-o dois algozes, e os vestidos do Senhor no-chSo; 6.<*, 
o Senhor nos espinhos^ e os judeus pondo-lhe a coroa na cabeça. Estes, os passos 
do pé. 

No alto do copo, estão outros seis passos, pela ordem seguinte : — 1.**, o passo 
do Ecee Homo: Pilatos mostrando-o ao povo, e este como gritando e levantando 
as cruzes em alto ; 2.<*, Pilatos, debaixo de docel, lavando as mãos, e um criado 
deitando a agua, á vista do povo; e no estrado, aos pés, estas lettras, que se 
deixam bem ler : lauabit ; 3.®, o Senhor com a cruz ás costas, o cjreneu pegan- 
do da cruz, a mulher Verónica, as Marias, ou filhas de Jerusalém, e phariseus; 
4.<^, o Senhor na cruz, e, aos dois lados, a Senhora e S. João; 5.*, o Senhor des- 
cido da cruz, nos braços da Senhora; José e Nicodemos; as cruzes e escadas; 
S. João e Magdalena; 6.*^, os mesmos, mettendo ao Senhor na sepultura, e, na 
pedra da sepultura, estas lettras, que se lêem : memekto. Todos estes passos sâo 
de figuras inteiras, levantadas de meio relevo, e, em partes, esmaltadas das cores 
naturaes, o que dá adibiravel lustre á obra. 

Os passos do pé do cálix se dividem uns dos outros com o circulo do lettreiro, 
que vae fazendo meio gjro, e orla a todos, assi como se vê no outro papel 
(est. 1 e III ) ; e aos passos do copo, dividem columnas esmaltadas, uma columna 
entre passo e passo. Â altura das figuras em todos os passos é do comprimento 
d*e8ta linha . O mais campo do cálix são flores, pas- 

sarinhos, pedras, e outras lindezas galantíssimas, todas de esmaltes de várias 
cores — branco, preto, azul, verde, vermelho. O pé e as suas lettras vão da mesma 
medida, por compasso, do original. Nas lettras do copo, que se vêem na base de 
cada columna, não pareceu ser necessário irem assim, porque bão mais pequenas. 
Todas as lettras, assi as do pé como as do copo, são cavadas no ouro e esmalta- 
das de preto ; e, segundo se deixa entender, a patena e o cálix fazem correspon- 
dência entre si, porque na patena está o primeiro passo da ceia; d*ahi, vem a 
serie ao cálix, começando no horto, e toma á patena, ao passo da Soledade, que 
tem nas costas. 

Quanto á intelligencia das lettras, o meu parecer é que ellas querem signi- 
ficar, nesta ou naquella lingua, pq^ este ou aquelle modo, o mesmo que contém 
os passos ; porque as taes lettras os vão seguindo e acompanhando, e é certo que 
todo homem, por rústico que seja, vendo um painel, com o seu lettreiro ao pé, 
julga (ainda que o não saiba ler) que o lettreiro explica o passo. E, para se dizer 
que as lettras significam outra cousa, como o nome do artífice, do rei que o deu, 
etc., alem de que esta intelligencia se não pôde accommodar ás lettras do copo, 
as do pé, que o poderÍHm dizer, haviam de estar, se assi fosse, no círculo mais 
inferior do mesmo pé, e não servindo de orla e meio círculo aos passos. 

Nas lettras do pé, se vêem, em algumas partes, entre lettra e lettra, umas riscas. 
São divisões de esmalte branco, que estão no original, excepto, no círculo do passo 
segundo para o terceiro, um i, que se vê cortado. Está assi mesmo no original, 
do mesmo esmalte da lettra, e por isso não o techo por divisão, mas por lettra 
cortada, ou de outro feitio. As lettras da garganta do pé vão na mesma postura 
.do original, e também as das columnas. 

O cálix sem a patena, pesado por arráteis, se acha ter quatro arráteis e meio 
e duas oitavas; e, quanto a uma cota que vae na certidão do peso, onde se diz 



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164 O Abcheologo Português 

que pesa nove marcos o cálix, declaro qae a dita cota é moderna e de lettra 
conhecida, e signal do P.^ Fr. Paalo Brandão, o qual morreu ha vinte e oito annos ; 
e sou de parecer que se n2o deve fazer caso da dita cota, porque o dito padre a 
fez demasiado entremettido, por não ter noticia da memoria antiga na livraria 
velha, nem da notícia de Manrique, da mesma memoria. £ não me parece que ha 
mais a que deva resposta,* do que se pergunta. = ^r. Manoel dos Santos. 



III 

NSo obstante as múltiplas causas que tem empobrecido o nosso vas- 
tíssimo e incalculável patrímonio artístico, existe ainda hoje em Por- 
tugal avultado número de obras de ourivezaria religiosa, que abrangem 
e documentam a evoluçfto da industria dos metaes preciosos, — irm2 
gémea da architectura e da estatuária, segundo a qualificam Lacroix 
e Seré, — desde o século xii até ao xvm. 

A ExposiçSo retrospectíva de 1882 ; a de Aveiro, no mesmo anno ; 
a promovida pela benemérita Sociedade de Inatrucção, no Palácio de 
Crystal, do Porto; a que se realizou em Lisboa, em commemoraç2o do 
centenário antonino; o Museu Nacional; a collecção organizada junto da 
Sé nova de Coimbra, pelo Sr. bispo-conde — que surprehendente, ma- 
ravilhoso thesouro nos revelaram! 

Enriquecendo a secção de ourivezaria do Museu Nacional com re- 
producçdes photograpbicas ou galvanoplasticas das peças mais interes- 
santes e mais tjpicas estranhas a esse núcleo; dispondo em series, por 
forma didáctica, os exemplares reunidos, e juntando a cada um seu 
verbete elucidativo, formar-se-hia uma valiosissima collecçEo especial, 
do mais proveitoso e necessário ensinamento, não só para os historia- 
dores da arte, críticos e artistas, senSo também para o público em geral, 
que precisa de que lhe facultem meios de comprehender e apreciar os 
monumentos e obras de arte que o pais ainda possue, alguns dos quaes 
tem a sòbredourar-lhes a belleza da concepção, e os primores da exe- 
cução, alto significado histórico e patriótico. 

É sobretudo, porém, nos artistas que eu penso, ao escrever estas 
linhas. Ha, incontestavelmente, aptidões, desejo de progredir, de inno- 
var, de sair da rotina. E ha também, a favorecer o bom êxito d'estes 
impulsos, o gosto, muito espalhado e tradicional eatre nós, das obras 
de ouro e prata, que chegaram, até, a constituir fórma dilecta de capi- 
talização para a maior parte das familias portuguesas. 

Importa, comtudo, que os artistas, animados de espirito innovador, 
guiados por intuito, aliás muito louvável, quando bem orientada, de 
originalidade e de nacionalismo, se não transviem, — des{»*e0ades: os-' 



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Est. I 



£?a.nQ"?"p->nírj o^^dop epu^A^Iiu)7;?j.!iç)uri\ T 




Beducçfto a metade. — Este desenho e o reproduzido na estampa III, 
bSo anthcnticados, como ficou dito, pelo monge-notario Fr. José de Mendonça, 
ctga adsignatura s6 poderia ser incluida reduzindo muito os desenhos 
ou excedendo as dimonsòes da pagina d- O Archtologo 



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Est. II 




Bedacçâo a metade. — Desenho feito sobre o anterior 
pelo P.** D. Manoel Caetano de Sousa 



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-4^'jy 



K8t. m 




A^' Cojfí 



/^ 




•""íd, 






ReprodacçSo nas dimensões do desenho original 



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L^l^-:*^^'''^'* 



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o Archeoloqo Português 165 

príncipios inilladiveis de toda a arte decorativa; perturbadas as rela- 
ç8es qae devem existir entre a matéria, a construeção, a forma, a oma- 
mentaçio e o destino da peça, elementos de cuja perfeita concordân- 
cia, de cajá impeocavel harmonia, deriva a eterna belleza clássica das 
obras dos grandes periodos da arte. 

NSo quero com isto insinuar, — é claro, — que os artistas devam 
abdicar as suas faculdades creadoras, restringindo-se á cópia ou, sequer, 
á imitação, do antigo; mas apenas significar que é legitimo deduzir 
principies, tirar consequências, das obras-primas do passado, e que 
seria loucura desaproveitar a riquissima e gloriosa herança artistica 
de que somos legatários. 

Promovamos dedicadamente, mas sob os auspicies de seguro cri- 
tério, o renascimento das nossas artes decorativas. É sem dúvida pelas 
suas applicaçSes que a arte pôde mais intensa e extensamente actuar 
nos espirites; e é em muita maneira pela arte que se exerce o culto 
da pátria; que se torna clara e evidente a continuidade histórica atra- 
vés dos séculos; que as geraçSes se perpetuam no conhecimento, na 
gratidio e na ternura das que lhes succedem ; que se estreitam os vincules 
da solidariedade social; que o espirito exaggeradamente prático e uti- 
litário da actualidade se corrige e attenua; que a nossa alma, emfim, 
dorida das luctas e asperezas da vida, neste difficil e atormentado pe- 
riodo, se consola e reanima, como fatigado caminhante á sombra amiga 
de frondoso arvoredo . . . 



Post-scriptum. 

Diogo Rodrigues, um dos artistas que citei a pag. 72, foi ourives 
da rainha D. Isabel, e exerceu o cargo de abridor dos cunhos na Casa 
da Moeda de Lisboa, tendo sido nomeado, por carta de 3 de Abril 
de 1497, em virtude da demissão de Vasco Gonçalves, — também ou- 
rives*. Posteriormente, em 6 de Agosto de 1517*, obteve nomeação para 
servir alli, até á maioridade de Miguel, filho de Fernão Gil, o officio 
de mestre da balança, que, com auctorização de el-rei, lhe fÔra ven- 
dido por Gil Vicente. Diogo Rodrigues era então ourives da infanta 
D. Isabel. 



1 Chancellaria de D. Manoel, livro 30, fl. 21 v, Apud Teixeira de Aragão, 
Deêcripção . . . das moedas, etc., I, 70 e 71. 

2 Chancellaria de D. Manoel^ livro 10, fl. 71. 



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166 O Archeoloqo Pobtugués 

Belchior Rodrigues, a quem igualmente allndi, foi salvador dos cru- 
zados * nessa officina monetária, em substituição de Fernlo Lopes, — ou- 
rives também, — que se ausentara de Portugal; — tque se destes regnos 
foi», diz a carta respectiva, a qual tem a data de 12 de Janeiro de 
1526». 

Accrescente-se aos nomes indicados na citada página, alem dos de 
Vasco Gonçalves e Femlo Lopes, o de Diogo Alvares, ourives do in- 
fante D. Fernando, e que, em 19 de Junho de 1Õ23^, foi nomeado 
ensaiador da Moeda de Lisboa, succedendo a Diogo Rodrigues, que 
fallecera. Doesse logár, tinha alvará de D. Manoel, que seu filho e 
successor confirmou. 

Vê-se, pois, que Diogo Rodrigues desempenhou na Casa da Moeda 
de Lisboa, nfto só os cargos de abridor dos cunhos e mestre da balança, 
como também o de ensaiador. 

José Pessanha. 



Protecção dada pelos Governos, corporações officiaes 
e Institutos scientiflcos & Arolieologia 

17. Moseu Nomismatico de Áthenas 

«L^année académique 1894-1895 a été particulièrement avanta- 
jeuse ponr le Musée numismatique d'Athène8. Cot établissement s'est 
accru de 14.837 pièces, dont 8.000 en argent ou en billon. Ces pièces 
ont été fournies en partie pour los fouilles de Técole française à Dolos 
et à Delphes, los fouilles de Técole anglaise à Abae e en Phocide et 
les fouilles d'01ympie. U y a naturellement un assez grand nombre 
de doubles, mais néanmoins Ia moissonest três satisfaisante». 

(BuUettn de Numismatiqut, y, 10). 

J. L. DE V. 



«Cidades nobilíssimas fenecem, e nem rasto fica d^ellas». 
D. Fe. Amador Arbáiz, Diálogos, iv, 10. 



^ lucumbia aos salvadores cortar a moeda, pondo-a no seu justo peso. O re- 
gimento dado por D. Manoel á Casa da Moeda de Lisboa em 23 de Março de 
1Õ06, refere-se largamente a esses artífices. Do alladido regimento, existe no Ar- 
chivo da Torre do Tombo uma copia authentica, do sec. xtii (Mss., tom. yiu-E, 
fl. 245). 

2 Chancellaria de D. JoSo III, livro 86, fl. 36. 

3 Chancellaria de D. João III, livro 3, fi. 73. Apud Teixeira de Aragio, op. 
e loc. cit. A carta é, porém, de 19 e não de 18 de Junho, como ahi se lê. 



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o Aroheologo Português 167 

Noticias várias 

1. Áeliados de moedas romanas em Leiria 

Lê-se nas Novidades, de 17 de Novembro de 1898: 
cNumas ruinas, em uma quinta próximo de S. Sebastilo, tem 
l^pparecido várias moedas romanas, tendo de um lado um carro puxado 
por quatro cavallos e diversos dizeres, e do outro um camello, estando 
ajoelhado a seus pés um vulto de homem e tendo por baixo REX. 
ARETIN.*. 

J. L. DE V. 

2« Dois enigmas epiírraphieos 

1.° — Próximo da Cidadonha, castro de Monsalvarga, concelho de 
Valpaços, ha um poço do qual uma das paredes, que é constituída por 
um penedo, tem estas lettras: 

DS 
RIG 

2.* — Num penedo, ao Rigueiral, no termo de Sanfins, mesmo con- 
celho, ha estas lettras: 



PQ 
O 
TERMN 

H 

m 
Cd 



Valpaços, Fevereiro de 1900. 



Joaquim de Castro Lopo. 



* [A inscripçlo deve ler-se, nâo rex Âretín, mas RE X* AR ETA S. A moeda 
pertence á epocha da republica romana (familia Aemilia) e foi canhada no sec. i 
A. C. *, Areias era um rei da Arábia Pétrea, cujos estados foram invadidos pelos 
Bomanos — J. L. dbV.]. 



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168 



O ÁRCHEOLOGO POBTUGUÊS 



Contos para contar 

n 

Tariantes dos pablioados a pag. 52 sqq. doeste rolame 

O importante serviço que o Sr. J. Meili acaba de prestar com o 
artigo inserto n-0 Arch, Port., v, 52 sqq., leva-me a descrever os se- 
guintes contos que tenho, e que constituem variantes muito notáveis. 

Seonlo XVI 
D. IMIanoel 

N.° 1 — BR. — Muito bom. — Diâmetro (T ,027 . 




^^xU^ 



>íi CONTOS ^ PER CONTAR ^ CON : D : —Escudo coroado, com 
sete castellos, e uma arruela de cada lado ; em vez dos escudetes 
tem cinco arruellas ^o*, tudo dentro de um circulo de aspas, 
acompanhado de outro de linha continua. 

g,._>Í4 CONTOS ABONOS FREGES P DG— A esphera, cir- 
cumdada por oito estrellas, dentro de um circulo. 

N.^ 2— uE.— Bom.— Fundido.— (r,29. 





EOnT— EOII— EOII— EOIIT— A cruz de Aviz cortando a le- 
genda. Dentro de um circulo de pontos escudo de phantasia com uma 
pequena coroa, tendo em vez de quinas cinco estrellas e treze castellos : 
de cada lado um S. 



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o Archeologo Português 



169 



5r.— CONTV— CONTV— CONTV— CONTV— A cruz de Aviz 
cortando a legenda. A esphera dentro de um circalo granalado. 



D. Jofto UI 

N.° 3 —íE.— Medíocre.— Diâmetro (r,028. 




T CONTOS :4^; PARA :4: CONTA — Escudo de phantasia, sem 
coroa, tendo em vez de estrellas cinco arruellas «»««. 

5r. — >í< AOC ^ NO 4^ VONIT ^ OVN— Esphera dentro de um cir- 
culo de pérolas. 

jy. Set>a0tiilo I 

N.<» 4—^— Bom.— Diâmetro 0'",027. 




Na orla exterior: CONTV— CONTV— SCONT— VSCON — 

A cruz de Aviz a cortar a legenda. 
Na orla interior: CON— TVS— CON— TVS— A cruz de Aviz 

cortando a legenda. 
No centro, dentro de um circulo, cinco escudetes em cruz, canto- 

nados por quatro castellos. 
5,. _ COíIT VS — COÍITVS— CO WT VS — COVlTVS — A cruz 

de Aviz a cortar a legenda, e a esphera dentro de um circulo 

granulado. 



Lisboa, Março de 1900. 



Arsénio Alvares da Silva. 



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170 O Abcheologo Pobtugués 

Analeota epigraphioa lusitano-romana 

S. Inscripçto ftinerarla 

Conservo cópia da seguinte inscripçSo, cuja procedência ignoro, 
porque também m'a n%o disse quem m'a deu: 

1. DMS 

IVLIAE 

AVITAE 

CLAVDI. 
5. AIVLIANA 

MATRI 
, ?• PC 

Fiz algumas correcções evidentes: na cópia que me deram lê-se 
na 2.* linha IVLTAE; na 4.» linha CIAVDI; na 5.* Unha 
AIVLTANA. 

Transcripção : 

D{iis) M{antbu8) S{aa*um). Jtdiae Avitae Claudia luliana niatri 
p(pnendum) c(uravit), 

TraducçSo : 

Consagração aos Deuses Manes. Claudia Juliana niandau erguer 
(este monumento) a sua mãe Júlia Avita. 

Julgo-a inédita, pois, pelos índices, nio a encontro no vol. u do 
Corp. Inscr. Lat. 

á» Inscripçio da Crimeia (Álemtejo) 

O Sr. Dr. Coelho de Carvalho encontrou na sua herdade da Cri- 
meia (Álemtejo) uma lapide com a seguinte inscripção romana, que teve 
a bondade de me offerecer, e que mais uma vez lhe agradeço: 



IVGlYs 
ZICINIu 

SFVSC 
VSHS 



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o ÁBCHfiOLooo Português 171 

Altura da lapide: 0",46; largura: 0",24 e 0",12; espessura: 0",08; 
altura da inscripçlo: O^^jSl; altura das lettras: O^^^OS. 

Em cima falta parte da pedra, onde talvez houvesse algumas let- 
tras. Em baixo nSo falta nada. Algumas lettras estSo incompletas, mas 
nSo offerecem dúvida nenhimia. 

Transcrípçio: 

[L]ucitt[«] [L]icini[u]8 Fuscus h{ic) s(iius), 

Traducçio: 

LtAcio Lieinio Fusco está aqui sepultado. 

O cognome Fuseus encontra-se mús vezes em inscrípçSes da Lu- 
sitânia. 

5. Inserlpçio de Bobadella 

No Diccionario Geographico de Cardoso, ii, 192, diz-se que em 
Bobadella (Beira-Baixa) está numa casa particular uma inscripç&o ro- 
mana de que só se lê, por o mais estar consumido do tempo: Man liaa 
prohisaa ex iextam, suo. 

O Sr. Húbner, no Corp. Inscr. Lat., ii, 400, transcreve de outros 
ÂÂ. a seguinte inscrip^So, também como de Bobadella: 

IVLIA 

EX 
TESTAMENTO 

SVO 

Talvez as duas inscrípçSes correspondam a um só texto, tendo-se 
posto TESTAMENTO por extenso na 2.* versSo. Neste caso poder- 
se-hia ensaiar a restituição seguinte: 

IVLIA[E] MANLIAE PROBIfjKía^?] EX TESTAM. SVO 

6. Inscripçfio de Erora 

No Museu annexo á Bibliotheca eborense está uma pedra-marmore 
de 0",23 X 0",12 X 0",13, achada nas ruinas do templo, e já publicada, 
creio, pelo Sr. A. F. Barata. Fazia parte das alvenarias que enchiam 
08 intercolumnios. 



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172 O Abchedlogo Português 

É como 86 segue: 

VERNACVLV 
L A P 

Isto é: Veimactdu (s) l{iben8) a(nimó) p(o8uit). N2o falta na linha 
2.* a palavra v(otufn)^ o que se vê da sjmetria das lettras; falta porém 
infelizmente o nome da divindade a quem a inscripçlo era consagrada. 

Altura das lettras: (r,035. 

7« Inscripçfio num tijolo, de Erora 

" No Museu da Bibliotheca de Évora existe também um tijolo re- 
ctangular de (r,21 XO"*,ll X 0",062, de barro grosseiro, que tem 
numa das faces em lettras gravadas profundamente, de 0",02 de al- 
tura, a seguinte inscrípçfto: 



T» C ÂlXI 



O ponto que se segue ao T nHo está bem ao centro. 
Significa : T(itu8) Carro, nome do oleiro, comparável ao que figura 
no Corp. Inscr. Lat., ii, 4970 122: Carronis (genetivo) de Carro (n). 

8. Outra inscrlpçSo do Museu de Erora 

Está numa ara de 0",80 (altura) X 0",27 (largura). 
As lettras tem 0'",04 a 0",05 de altura. 

1. DM S 

IVZIVSE 

cVS EBO 

an XXX 
5. IILI 

AC 

O cognome é difficil dizer o que será: Ecus = Aequvsf Cfr. Aequa 
in Corp. Inscr. Lat., 11, 218, numa inscripção de Lisboa. Na 3.* linha 
* temos Ebo(rensis). 

O que está na õ.* e 6.* linhas é provavelmente: FII<IA C, i. é, 
JUia c(uravit). 



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o Archeoloqo Português 173 



9« Inseripçio de Olisipo 

Numa lapide calcarea, de 0",36 X 0",215 X Cr,10, encontrada 
com outras ántigualhas romanas numas excavaçSes que se fizeram em 
1898 em Lisboa, no Largo de S. Domingos, lê-se a seguinte inseri- 
pção, em lettras de 0^^,03 de altura: 

D*M*S 

LVCRIIIA^PATRI 
CIA^ANN^XXXVIIII 
I ♦ V ♦ P 

Como o 3.* I na palavra LVCRIIIA vale por T, pôde suppôr-se 
que na 3/ linha também o valha, vindo pois nós a ter T(Uulum) v{iva) 
p {otmit)^ pois que esta fórmula não destoa de muitas outras que ha se- 
melhantes. Pôde porém também suppor-se que I significa i(tissit\ sendo 
então a fórmula I • V • P equivalente a i(ussit) v(iva) p(ont). Em qual- 
quer dos casos, como uma inscripção em que se indica a idade da falle- 
cida nSo podia ser gravada em vida d^esta^ — pois a indicação da idade 
não foi accrescentada posteriormente, o que se conhece do gravado — , 
deve admittir-se que com a expressão Y{iva) se quis significar que Lu- 
crécia Patricia mandou em vida fazer, não a inscripção, mas o conjuncto 
do monumento, a que depois da morte se aggregou a placa calcarea com 
o lettreiro fúnebre. Se se quisesse significar que Lucrécia mandou 
que se lhe fizesse o monumento depois da morte, não se escreveria 
Y(iva)^ escrever-se-hia Ex Testamento. 

Temos pois: 

D(iis) M(antbtiê) S{acrum: Lucretia Fcttricia, ann(orum) XXIX, 
i({tulum v{iva) p(osuit) vel i(u88Ít) v(iva) p((mi). 

10. loscripçfio faneraria da Colambeira 

Por occasião de trabalhos agrícolas appareceu num campo ao pé da 
Columbeira, concelho de Óbidos, uma lapide calcarea de 0",23 X 0",20 
4iom a seguinte inscripção: 

M CASSIO.M 
FTVRRINO AV 
AVITA MATER 
F-C 



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174 O Archeoloqo Português 

Campo da inscrípção, (r,19õ X 0^,12. Altura das lettras O",025 
a 0",03. 

Isto é: M{arco) C(a88Ío M(arct) F{Uio) Turrino, a{nnorum) V, 
Avita TMiier f{adendum) c(uravit). 

O que quer dizer: A Marco Caseio Tarrino, Jilho de outro, de 6 
annos de idade, mandou sua mãe Avita fazer (est^ monumento fúnebre). 

Com a palavra TurriniLs compare-se Turrina e Turrania, que se 
encontram noutras inscripçSes peninsulares. 

Esta inscripçSo foi obtida por meu primo Jaime Leite Pereira de 
Mello, que m'a offereceu. Na Columbeira appareceram outras antigua- 
lhas romanas, como pesos e moedas. De certo foi alli estaçSo romana. 

11. Inscripçio do Museu do Carmo 

Existe no Museu Archeolo^co do Carmo, em Lisboa, uma lapide 
quebrada em que se lê : 




Isto é: L(uciu8) Lucretiua L(ucii)f(ilius)^ Galeria (tríbu)^ Severus, 
h(ic s(itu8) e(8t): 

O que significa: Lúcio Lucrécio Severo, filho de outro, da tribu 
Galeria, está sepultado aqui. 

Ignoro a procedência da inscripçâo, comquánto me digam que talvez 
seja dos arredores de Sintra. Julgo-a inédita, pois não vejo no índice 
do Corpus o nome L, Lucretiua Severus. 

12. iBterlpçio de Balsa 

Em 1896 trouxe eu de Torre d' Ares, ao pé de Tavira, para o Museu 
Ethnologico Português, por permissão do proprietário d'aquella quinta,, 
o Sr. Sebastilo Estacio, um fragmento muito importante de uma in- 
scripção romana, que diz: 



DOl. 



.)NVM.R.P BALS 



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o Abcheologo Português 175 

Nam pedaço de mármore. 

O fragmento deve interpretar-se assim: [in honorem] dom[u8 di- 
virune .... decreto decuri]onum. R{es) P(tMica) BaU {ensium). 

Esta inscrípçSo é muito importante porque constitue miús uma 
proYa de que Balsa esteve, no todo ou em parte, situada no próprio ter- 
reno que hoje constitue a Torre d' Ares, onde em verdade se tem out 
centrado innumeras antigualhas de toda a espécie. 

1S« Inscripçio de Mertola 

O meu amigo Rev.^* António da Silva Pires offereceu-me o fra- 
gmento de uma lapide de mármore, de (r,15 X 0",09 X 0",035, en- 
contrado em Mertola, no qual se lê: 




o que pôde entender-se assim: [d.] M, «.[ c]lod%xi8, \crjiinn\(>rum\ 

Antes de Clodius falta apenas o praenomen; da symetria das palavras 
vê-se effectivamente que cabiam na 2.* linha duas lettras: o C de Clodius, 
e a sigla do prenome. j j^ ^^ y 



Vestigrios romanos no concellio deVianna do Oastello 

Poucos são os monumentos da epocha romana que tem apparecido 
no território da foz do Lima; cremos que esta escassez é devida ao 
pouco cuidado e menos importância que se dá a taes achados, como 
teremos occasião de mostrar. 

A estatua do Pateo da Morte, hoje existente na Escola Industrial, 
que pertence ao grupo das caUaeccu ou gallegas, espécie de monumentos 
militares funerários erguidos pelos soldados da Gallecia nos primeiros 
annos da era christS, foi encontrada na freguesia de S. Payo de Mei- 
xedo, neste nosso concelho, nos meados do sec. xv, em que D. Affonso 
da Rocha, commendatario do próximo mosteiro benedictino de S. Sal-r 
vador da Torre, e abbade d'aquella parochia de Meixedo, lhe mandou 
esculpir no escudo a aspa com as cinco vieiras ou conchas, que na 
hieraldica designam o appellido — Rocha. Posteriormente, em 1622, 
o morgado de Meixedo, Francisco da Rocha Lobo, mandou trazer a 
figura para a sua casa da rua da Bandeira, em Vianna. Como as suas 



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176 O Archeologo Português 

congéneres do Museu archeologico de GuimarSes e do jardim da Ajuda 
em Lisboa, a estatua está decapitada e j arretada; esta nossa offerece 
a particularidade da legenda no saial; assenta numa pia cineraria, que 
devia ter também vindo de Meixedo e, porque talvez alli lhe estivesse 
servindo de pedestal, nessa mente a trouxeram como parte integrante 
do monumento. 
Eis a inscripçto: 

L SESTI CLODAME 
NIS FL • CORO . COROCA VCI 

...VDIVS-. SEM... 

Em Meixedo e sua limitrophe Villar de Murteda por vezes se en- 
contram moedas, bronzes dos imperadores romanos: em 1877 appa- 
receram dentro de uma amphora 102 moedas, tendo 41 o busto e le- 
genda Hadrianvs; 19 de Antoninvs Pivs; 1 de Nerva; 1 de Lvcrvs 
Vero; 12 de Hadrianvs; e legenda: Trai. Hadriax. ; 2 de Marcvs 
AvREL. e legenda Avrel. Caesar; 6 de Traianvs, e legenda Nerva 
Traianvs; 3 de Aelivs, legenda L. Aelivs; 5 de Faustina, mater, e 
legenda Diva Favstina; 2 com busto de Sabina, e legenda Sabina 
Avqvsta; e 6 meios-bronzes, um de Tiberivs, outro de Antoninvs 
Pivs, um outro de Hadrianvs; e finalmente as restantes illegiveis. Estas 
moedas foram adquiridas por baixo preço por um negociante viannense, 
que as vendeu no Rio de Janeiro em 1882 ao pianista Arthur NapoleSo, 
a 1^000 réis cada uma; o ou ri vez Ferreira as havia comprado todas 
por 920 réis. Estes bronzes, á excepçSo dos três, eram perfeitissimos 
no cunho dos bustos. 

No principio do sec. xviii, quando se arruinou a ponte de Tourim, 
sobre o rio Ancora, entre as pedras havia uma de esquadria, com 
seus perfis em toda a volta, com as seguintes lettras legíveis : 

...MAN IMIN MNS- 

lapide commemorativa de qualquer obra imperial feita nestes sitios. 

Em 16 de Agosto de 1892, quando andavam demolindo a igreja 
jparochial de Villa Mou, fomos alli examinar o material do velho templo, 
encontrando uma ara votiva de Rufus Grovius a Juppiter, que media 
0",88 sobre 0"*,25 por lado, dous capiteis bastantes deteriorados, e 
outras pedras lavradas, que denotam ter pertencido a um edificio la- 
tino, destruído por um incêndio, pois que o granito, que nSto é das pe- 
dreiras doestes sitios, apresenta uma grossa crusta negra, indicando 
ter soffrido por muito tempo a acção de um fogo violento. Encarregámos 



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o Archeologo Português 177 

o Rev.^^ Parocho da guarda d'essas pedras e demais objectos que 
separámos, porém, quando d'ahi a dias voltámos para fazer transportar 
as pedras para o Museu municipal, havia desapparecido a lapide ro- 
mana, a nosso ver, por propósito ou maldade de um dos pedreiros, e, 
apesar das diligencias do Padre Palhares, e do mestre pedreiro, nSo 
foi possivel encontrá-la, constando ter ficado nos alicerces da nova 
igreja. Felizmente que haviamos copiado o lettreiro, cujas duas linhas 
estavam pouco legíveis; i^s quatro anteriores diziam: 

RVFI GRO 

VIVS VOTV 

M lOVI OP 

CVMOIV 

IVMO* 



SSo estas as reliquas ds epocha romana que sabemos terem appa- 
recido no nosso concelho deVianna. 

L. DE Figueiredo da Guerra. 



Museu Munioipal da Figueira da Foz 

1. AoqaisiçOes em 1808 

Este importante e interessante estabelecimento, de que dêmos breve 
notícia a pag. 234 do vol. ii d- O Archeologo, já está installado nas 
salas que lhe foram destinadas no andar nobre do novo edifieio dos 
Paços do Concelho, devendo ser, em breve, reaberto ao público. Consta 
de duas amplas salas, numa das quaes estão as secç5es de Prehistoria 
e proto-historia. Comparação e Archeologia histórica, subsecção luso- 
romana; e na outra as secçSes d-Archeologia histórica e Industrias do 
Concelho. 

O Museu possue actualmente 2 :938 objectos na secção de Prehistoria 
e protohistoria, 1:475 na de Comparação, 1:532 na de Archeologia his- 
tórica (sendo 737 na subsecção luso-romana) e 470 na das Industrias 
do Concelho, sem contar a valiosa collecçao de Numismática que tem 
1 :112 moedas e 261 medalhas. 



* [A !.■ lettra da 4.' linha deve ser x. O resto será maxsvmo? — J. L. de V.J 

ia 



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178 O Archeologo Poetuguês 

No Museu está também a já importante colleeção da Sociedade 
Archeologica da Figueira. 

Damos, em seguida, a lista das novas entradas durante o anno de 
1898 e no tempo já decorrido no actual anno. 

Secção de puehistoru e proto-histobia: 

45 machados de pedra, polidos, alguns fragmentados, provenientes 
de várias localidades d'e8te Concelho, de Cantanhede e de Leiria; 

1 machado de schisto, simplesmente lascado, proveniente do tumu- 
lus-dolmen da Sobreda (Beira-Alta) ; 

1 pequeno polidor; 

1 grande fragmento de uma placa de schisto; 

1 faca, grande, de silex; 

9 laminas de facas e um fragmento de outra, de silex, provenientes 
da Várzea de Lirio (Brenha); 

18 pontos de setta de silex e uma de crystal de rocha, provenientes 
do tumulus-dolmen da Sobreda; 

1 lamina de silex, retocada, proveniente do Arneiro; 

2 fragmentos de serras, de silex; 
1 ponta de silex, retocada; 

1 percutor de quartzo; 

4 núcleos de crystal de rocha; 

6 fragmentos de facas de silex, da Junqueira (Brenha); 
1 faca de silex, achada no megalitho do Feital; 

espolio da Caverna dos Alqueves, subúrbios de Coimbra, explo- 
rado pela Sociedade Archeologica da Figueira, a saber: 

1 brecha ossifera com as peças do esqueleto humano agglomeradas ; 
1 ponta de dardo, de silex, partida; 1 faca e duas serras de silex; 
1 alfinete de osso e 1 fragmento de outro ; 1 fragmento de punção de 
osso; 1 conta de osso; 1 objecto de osso que parece ser um adorno; 
vários fragmentos de cerâmica; 1 percutor; e diversos ossos humanos, 
compreheiídendo 3 calotes craneanas; 

1 núcleo de quartzo e 3 laminas de silex, da Pedunha (Alhados); 
1 núcleo de silex, e 1 lamina de faca também de silex da estaçSo 
neolithica do Arneiro (Brenha); 

5 fragmentos de laminas de silex, com retoques; 

1 faca de silex do dolmen do Cabeço dos Moinhos (Brenha); 

uma parte de imia faca de silex e uma lamina de BÍlex, retocada, 
provenientes deValle do Romão (Brenha); 

muitos fragmentos de louça neolitica, uns lisos, outros bellamente 
ornamentados, provenient(3S da Junqueira (Brenha); 



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o Archeologo Português 179 

muitos fragmentos de cerâmica, dos dolmens do Seixo e da Sobreda 
(Beira- Alta); 

2 fragmentos de cerâmica, com ornamentaçSes, typo de Palmella ; 

1 ponta de dardo, de cobre, com a extremidade superior partida, 
encontrada na Serra do Cabo Mondego, no local onde existiu o mo- 
numento da Cumieira; 

1 fragmento de uma espada de bronze; 

1 seixo de forma phallica, achado no sítio dos ChSes (Brenha); 

alguns fragmentos de louça lusitana, provenientes do mesmo local; 

vários fragmentos de cerâmica lusitana e 2 objectos de ferro, da 
estaç&o lusitana dos Arieiros (Brenha); 

vários fragmentos de cerâmica lusitana e alguns seixos provenientes 
do castro do Monte VerSo (Celorico da Beira) ; 

vários fragmentos de cerâmica luso-romana e 1 fragmento de mola 
manuaria, proveniente do sítio de Fonte de Cabanas (Brenha); 

vários fragmentos de cerâmica lusitana, achados no fundo de uma 
cabana lusitana, sita a Oeste da Mama do Furo, vizinhanças da capella 
de Santo Amaro da Serra; 

1 vaso lusitano, restaurado, achado sobre as ruinas do dolmen do 
Prazo ; 

2 quadros a crayon que representam um dolmen e outro o anthro- 
popithecus. 

SeCçIo de COMPARAÇÃO: 

1 crânio com o respectivo maxillar inferior e os ossos principaes do 
esqueleto humano, proveniente de uma sepultura na Granja do Olmeiro 
(Alfarellos) ; 

1 crânio himiano, incompleto, e alguns ossos longos, de uma sepul- 
tura da necropole luso-romano de Nossa Senhora do Desterro (Mon- 
temor-o-Velho) : 

1 crânio completo, de um macaco; 

1 peixe da America (Bac-a Cu d' espinhos) ; 

1 collecção de 16 amuletos portugueses, offerecido pelo director 
d- O Archeologo Português; 

8 amuletos; 

1 pente do Congo; 

1 setta de gume transversal (Guiné); 

1 enxada (ofco), do Dahomey; 

1 bainha de espada, de coiro, bordada (AJcoIda)^ também do Daho- 
mey; 

1 rabeca dos negros (Africa Occidental); 



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180 O Archeoloqo Português 

1 sagui; 

1 manequim que representa um guerreiro japonês, ornado de todas 
as armas; 

1 vaso de cobre, repuxado (tambió)^ proveniente da índia Portu- 
guesa; 

1 chapéu de cortiça. 

SeCçXo de AECHEOLOGIA fflSTORICA: 

1 pedaço de mosaico romano, proveniente de Leiria; 

3 fragmentos de telhas romanas, e 1 tijolo também romano e de 
forma ainda não encontrada nesta região, da estação dos Arieiros 
(Brenha) ; 

alguns fragmentos de louça romana, achados no castro do Monte 
Verão (Beira-Alta) ; 

4 fragmentos de dolium, do Paião; 

1 peso de tear romano, 1 tijolo romano, e 1 veru ou vertUum^ pro- 
venientes S. Martinho de Arvore; 

diversos fragmentos de louça romana; 1 peso de tear, grande, ro- 
mano; 1 prego de ferro; parte de um objecto do mesmo metal; 1 
grande escopro de ferro, com alvado (scalpum fabrile) ; 1 grande fra- 
gmento de dolium, restaurado; outro grande fragmento, também res- 
taurado, de um grande vaso, e 1 medio-bronze de Decencio; tudo 
proveniente da estação romana da Formoselha; 

1 grande tijolo, fragmentado; 1 tijolo mediano, também fragmen- 
tado; 1 pequeno tijolo inteiro; parte de outro com encaixes; 1 pedaço 
de optts Signinum; 2 pedaços de telhSes ; 1 fragmento de um vaso ; 1 
pedra de amolar; 1 fragmento de um tijolo arenoso; vários fragmentos 
de louça lusitana e de louça romana; 3 fragmentos de íibulas de bronze ; 
1 placazinho de cobre, e 1 alfinete de ferro ; tudo proveniente da estação 
romana da Pedrulha (Alhados); 

1 inscripção romana, em pedra, encontrada na mesma estação ; 

4 azulejos hispano -árabes; 

43 azulejos Delft, e parte de outro; 

algumas moedas de prata e cobre ; 

9 pratos de louça antiga, de Coimbra; 

1 sopeira antiga de louça, de Valle da Mó ; 

1 jarra de louça antiga (francesa) ; 

2 chávenas antigas, do Japão; 

1 tijela de louça antiga, inglesa; 

1 chocolateira de cobre, antiga; 

2 estatuetas de pedra, provenientes de Buarcos; 



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o Archeologo Poetuquês 181 

2 ditas de madeira; 
2 ditas de marfim; 

1 inscripçSo sepuichral proveniente de Buarcos; 
parte de uma columna de pedra, que servia de base de um cruzeiro 
6 que tem a data de 1607, proveniente de Mira; 

1 leque antigo; 

2 pulseiras de cordão de seda, antigas; 

1 estatua de barro, representando um papa, vindo de Condeixa; 

molde, de lacre, do sello de D. Rodrigo da Cunha, encontrado no 
seu tumulo, na Sé Velha de Coimbra, em Dezembro de 1897; 

20 amostras de papel, dos annos de 1646 a 1701; 

1 photographia de alguns azulejos hispano-arabes, provenientes de 
Santarém; 

1 moldura antiga de madeira; 

1 busto de madeira representando Minerva; 

1 taboleiro de louça antiga de Coimbra; 

1 relógio antigo, de algibeira; 

1 espora antiga de bronze; 

1 chave de relógio, antiga; 

1 ponta de lança de ferro (século xv), achada nos Palheiros, pró- 
ximo de Lirio (Brenha); 

1 pedaço de gral, de pedra, e 1 bigorna pequena, de ferro, acha- 
dos nos escombros dos alicerces do castello de Redoredos (Buarcos); 

1 objecto de ferro, achado na Várzea (Figueira); 

1 pergaminho do século xni; 

1 carta de bacharel, bellamente illuminada, do século xviu; 

1 Regimento dos familiares do Santo Officio (impresso); 

1 carta, em pergaminho, também do Santo Officio; 

2 cartas regias, com a assignatura de £1-Rei D. José I; 
1 documento com o sello da Ordem de Christo; 

1 tela, representando Santo António, proveniente do convento de 
Santo António doesta cidade; 

1 collar de doze contas de barro, achado numa sepultura, feita de 
telhas romanas, em Ciudad Rodrigo (Hespanha); 

Para a SecçXo da Industria do Concelho, entrara 1 lindo centro 
de mesa, de madeira, e 2 pratos, também de madeira. 

2. AcqnisiçOes em 1899 e primeiros dois meses de 1900 

Durante o anno de 1899 e nos dois primeiros meses de 1900 de- 
ram entrada nas differentes secç5es doeste Museu os objectos seguintes: 



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182 O Archeologo Português 

SecçXo de archeologia prehistorica e protohistorica : 
28 machados de pedra, polidos, uns inteiros, outros fragmentados, 
entre elles alguns de dimensões muito pequenas ; provenientes da Serra 
das Alhadas, Ponte do Curro (Alhadas), Junqueira, Brenha, Quiaios, 
Asseiceira, Valle do Romão, Anadia, Cantanhede e Nellas ; 

1 fragmento de cerâmica neolithica, ornamentado, e três lascas de 
silex ; 

3 laminas de serras, de silex, uma de faca, fragmentada, e uma la- 
mina de silex com retoques, e um dardo de silex, — provenientes do 
dohnen das Camiçosas; 

2 laminas de silex, retocadas; uma ponta de setta, um dardo e 
duas laminas de facas, tudo de silex e proveniente do Arneiro (estação 
neolithica da Junqueira) ; 

2 facas de silex, e duas laminas, também de silex, com retoques, 
provenientes da estação da Várzea de Lirio; 

2 vasos, neolithicos, de barro, restaurados; vários fragmentos d'ou- 
tros; duas serras de silex, uma das quaes dupla; um machado de pedra, 
polido, e fragmentado; e uma lasca de quartzo; tudo proveniente da 
orca do outeiro do Rato, no concelho de Nellas (Beira-Alta); 

1 pedra furada, proveniente também de Nellas; 

alguns vasos, lusitanos, restaurados, e muitos fragmentos d'outros, 
trabalhados á mSo ; um fragmento cerâmico ornamentado ; dois cossoiros 
de barro, um dos quaes ornamentado; uma placa de osso, igualmente or- 
namentada; alguns pesos de rede, formados de fragmentos cerâmicos; 
vários objectos de bronze e de ferro; parte do fundo de uma cabana 
lusitana com restos de animaes e fragmentos cerâmicos; uma mó dor- 
mente, com feiçSo primitiva; tudo proveniente do castro de Santa 
Olaya; 

2 fragmentos de cerâmica lusitana, lisos, e outro com ornatos, pro- 
venientes de um abrigo sob rocha em Travancinho (Beira-Alta); 

34 exemplares de rochas de Portugal, convenientemente classifi- 
cadas pela DirecçSo dos Trabalhos Geológicos do Reino, para a clas- 
sificação dos diversos instrumentos de pedra neolithicos. 

SecçXo de compara\;Xo ou ethnographica : 
Vários amuletos portugueses; 
1 feitiço africano; 
1 espada de Dahomey; 

vários instrumentos agricolas, e arreios, de ferro, antigos, prove- 
nientes de S. Martinho de Arvore; 

1 tijolo romano, proveniente dos palácios dos Césares, em Roma; 



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o Abciieologo Portugcês 183 

2 lucemae ou candeias romanas, provenientes de um Columbarium 
de Roma; 

1 miniatura, de barro, de um vaso grego, pintado; 

1 vaso de barro, hespanhol; 

varias peças de loiça fumigada, de fabricas dos districtos de Aveiro 
e Coimbra; 

amostras dos barros empregados no fabrico das mesmas loiças ; 

1 pequeno dente de elephante, esculpido; 

1 caixa de palha, da índia; 

1 seixo furado e uma esphera de pedra. 

SecçXo de archeologia histórica : 

a) Subsecção luao-romana: 

1 troço de columna romana, formada por fiadas de tijolos em forma 
de sector circular; vários doestes tijolos e outro, rectangular, grande; 
e vários fragmentos de cerâmica romana; tudo proveniente das minas 
romanas de Conimbriga (Condeixa- a- Velha); 

6 tijolos romanos, triangulares; outro quadrado; um pedaço de 
barro, que servia de argamassa; dois fragmentos de mosaicos; alguns 
pedaços de ornatos em estuque, e um pedaço de mármore ; vários fra- 
gmentos cerâmicos e conchas marinhas ; tudo proveniente da vUla romana 
de Anç2 (Cantanhede); 

vários fragmentos cerâmicos; um pedaço de telha; um tijolo qua- 
drado, e parte de uma mola manuaria: tudo proveniente de Ermide 
(Buarcos) ; 

1 lança de ferro que parece romana, proveniente de S. Martinho 
de Arvore. 

4 pesos de tear, romanos, de barro; e outro, de granito; prove- 
nientes de Nellas; 

1 peso de tear, romano, de barro; e parte do bordo do vaso, com 
asa interior; proveniente das ruinas da villa romana de Nossa Senhora 
do Desterro (Mon temór-o- Velho) ; 

3 vasos romanos restaurados; dois outros, incompletos; muitos fra- 
gmentos de cerâmica romana, cinzenta e negra; muitos de loiça pintada, 
polychromica; alguns fragmentos de telhas romanas, com cannelluras; 
tudo proveniente de Santa Olaya; 

amostras do bucchero, da Etruria marítima (Itália), provenientes 
do Museu archeolo^co de Florença. 

6) Subsecção da idade média e tempos modernos: 

varias peças de loiça nacional e estrangeira; 

varias peças de vidros; 



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184 O Archeologo Português 

1 castiçal, antigo, de metal; 

vários fragmentos de um retábulo de pedra, attribuido ao século xvi, 
e proveniente da igreja de S. Pedro de Buarcos; 

vários objectos, taes como um espadim, fragmentado, botSes, fi- 
velas, etc., encontrados em sepulturas antigas, da mesma igreja; 

varias apólices ío Real Erário, dos annos de 1798, 1799 e 1805; 

4 grandes potes de barro, antigos; 

1 azulejo hispano-mourisco ; 

1 caixa de rapé, de chifre de veado; 

1 caixa de madeira; 

2 pares de brincos e dois broches antigos, provenientes da China; 
1 brinco de metal, antigo, proveniente de Santarém; 

amostras de tecidos antigos; 
1 denario de Augusto; 

1 medio-bronze, de Cláudio, achado em Ançâ; 
varias medalhas portuguesas; 

1 medalha distinctiva da Sociedade Archeologica da Figueira; 
1 medalha commemorativa do quarto centenário do descobrimento 
do Brasil. 

P. Belchior da Cruz. 



Elementos p6u*a a solução de um problema archeologioo 

Ha annos um illustre, venerando e bem nosso conhecido investi- 
gador das cousas brigantinas, andando na procura de vestigíos da es- 
trada militar romana de Braga a Astorga, que passava por Chaves, 
encontrou nos altos de Fonte Arcada, Carragosa e Soutello, concelho 
de Bragança, uns padrSes de granito mais ou menos trabalhados, de 
altura media 1",15, largura 0™,55 e espessura (r,25, coUocados nos ca- 
minhos ou suas proximidades, servindo ou não de limite de termos, 
com a seguinte inscripção: 

CA 
BAR 

com esta mesma disposição e typo de letra em todos elles, e a qual 
deu depois de muitas e diversas pennutaçSes esta solução: — A. BRAC. 
tantos mil passos a contar de Braga, — vindo-os a considerar marcos 
d^aquella via que faz passar por aquelles sítios. 

N2o se conformaram com esta interpretação os espirites de Índole 



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o Abcheologo Português 185 

renitente, e começaram a formar várias conjecturas e alvitres em pro- 
cura de outra resoluçEo. E assim diziam uns, que ella queria dizer — 
GABAR — havendo ainda entre estes divergência, dos que era assim 
por marcar limite ou cabo do termo, apesar do erro orthographico, e 
dos que a julgavam uma dedicação & lua (!) feita por uma das tribus 
árabes que invadiu a Peninsula e a adorava sob este nome; outros 
davam de parecer que indicava — c Camará ou Casa (CA) de Bragança 
(BAR)f , — baseando-se na probabilidade de que os termos que dividiam 
tivessem pertencido á Camará ou Casa de Bragança no tempo em que 
se eècrevia Bargança; ainda outros, aproveitando esta significaçSo de 
— BAR — , induziam que se devia ler — t Caminho (CA) de Bragança» , — 
por os marcos estarem nas proximidades de caminhos; finalmente, 
outros que se devia tomar como sendo só o nome de — «Bragança 
(BARGANÇA)» escripto em abreviatura*. 

Havia, como se vê, somente a incerteza, que continuaria durante 
muito tempo, talvez, se não fosse a circumstancia de vir no conheci- 
mento da existência noutros pontos de muitos outros padr5es quasi 
nas mesmas condições de feitio, grandeza, situação e serventia que os 
encontrados em Fonte-Arcada, Carragosa e Soutello, com a mesma 
inscripçSo no mesmo typo de lettra, indicando serem todas da mesma 
epocha, tendo algumas o C e o A ligados (CA.) e o A e o R também 
ligados (^). Pois assim é o marco de Cabanellas no caminho da Mosca 
para S. Pedro, que divide os termos de Nogueira, S. Pedro e Rebor- 
dãos; a marra de Rôbôr-de-Vaccas no caminho velho de Bragança 
para Lamalonga que marca os termos de Villarinho, AgrochSo e Erve- 
dosa; a de Lamalonga no mesmo caminho, ponto divisório dos termos 
d'esta povoação eVillarinho-de-AgrochSo; a do Lombo numa terra de 
pão, fora de caminhos, que é outro signal divisionario dos mesmos ter- 
mos ; a dos Salgueiros sitáada no campo no meio de umas fragas que 
separa ainda os termos doestas duas povoaçSes e da Argana; e final- 
mente, outras também divisórias de termos collocadas nos caminhos de 
Samil para S. Pedro e para Alfaião. 



1 Nos Autos próprios do tombo do termo t bens do concelho da viUa de Ervedosa, 

feito em 1826, lê*se : « e caminhando da Escoura pelo lado sul em direitura 

ao nascente athé á fraga da Talha por onde parte como termo de Argana e d*esta 
pela parte de cima da Quinta athé ao Cabeço das Alagoas, em cujo Cabeço se 
acha- hum marco de cantaria com leitras que dizem Bragança viradas para o 
logar de Villarinho, cujo marco divide o termo doesta Villa de Villarinho e Ar- 
gana». Visitei este marco e vi que a sua inscripçâo era como a dos marcos de 
que estamos tratando e no mesmo typo de lettra. 



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186 O AucHEOLOGO Português 



Doestes achados concluí logo que estas marras ou marcos eram 
destinados a dividir os termos das povoações, o que ainda era com- 
provado pela existência nalguns de umas rectas que se cortavam em 
cruz, signal usado da sua verificação, que noutros apparecia numas 
pedras baixas coUocadas ao lado como para as amparar, e a que vul- 
garmente Xíhamam testemunhas. Ficando prejudicada doesta forma a 
ideia de que serviam para indicar as distancias a Braga de nma es- 
trada, e de que fossem monumentos levantados á lua. 

Apesar d'isso o enigma continuava, subsistindo as outras supposi- 
çoes, visto ser desconhecida a palavra — GABAR — quando noutrl di- 
gressão que fiz a Lamalonga, onde, como vimos, ellas abundam mais, 
fui encontrar, num tapado no sitio do Cercado, por onde nunca podia 
passar caminho, uma fraga de granito, de forma arredondada de mais 
de 2 metros de altura e de 3 de largura, e que está encostada a outra 
ainda de maiores dimensões, com esta inscripçSo numa só linha sem 
outro signal: 

BARCA 

feita em grandes lettras de 0™,3 de corpo, bem gravadas e claras, do 
mesmo typo que o dos marcos e tendo o C e o A ligado fCA.), e que 
serve de limite aos termos de Lamalonga, Torre de D. Chama, Nu- 
zellos eVillarinho. 

Este descobrimento evidenciou que as inscripçSes das marras se de- 
viam ler também — BARCA — ; nSo estando assim nellas escriptas, 
porque como effectivamente notei, não cabiam na largura das suas faces 
todas as lettras numa só linha, tendo a grandeza que lhes deram, talvez 
para as tornar mais legiveis e duradouras, pois que a média do sen 
corpo regula pela da linha superior por O", 15 e das da inferior por 
0'",20. E doesta maneira ficaram sem valor todas as outras interpre- 
tações, para apparecer, por sua vez, a curiosidade de saber a origem 
do costume de gravarem esta e outras palavras nas pedras destinadas 
a marcar o limite dos termos. O que nos é explicado a pags. 541-542 
do artigo de Alberto Sampaio, intitulado «As villas no norte de Por- 
tugali publicado no n.® 23, vol. iv, da Revista de Portugal^ de Eça 
de Queiroz, de 1892, em que se lê: 

« Que esses marcos (dos romanos) se mantiveram e existiam 

ainda no periodo astur-leonez, não pode haver a menor duvida, visto 
serem mencionados vulgarmente nos U(iplomata). 

Um exemplo bastará. 

Affonso III (866-910) doara ao bispo Sabaricus o mosteiro de 
Dume com o seu território per suos términos antiquas. No tempo do 



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o Abcheologo Português 187 

filho Ordonho II, foi necessário por qualquer motivo identificar a de- 
marcação antiga (D. 17). Fez-se uma congregatio magna: o bispo apre- 
sentou o seu documento; nomearam-se peritos — qui solent antiquitum 
comprovar e; recompor o passado era a preoccupaçao d'essa sociedade. 
Os peritos em presença dos magnates seculares e ecclesiasticos deter- 
minaram a linha de demarcação com a maior facilidade. Ahi acharam 
repetidas vezes petras-fictas, qui ab antico pro termino fuerunt consti- 
tuías — archa petrinea ah antiquis constructa — congesta petrinea — agi- 
rem; e outros marcos, como — ad barca, qui sedet scvlptainpetra — petra 
scripta, ubi dicet terminum — terra tumeda qui fuit manu facta. SXo 
effectivamente signaes de demarcação romana ou arcas, congesta pe- 
trinea, a petra scvlpta ou scripta, assim como também as petras Jictas 
e a terra tumeda*. 

Este conhecimento conjunctamente com as informações referidas e 
a fraga do Cercado em Lamalonga elucidaram não só o destino doestes 
padrões e o modo de ler a sua inscripção, mas também que, como pa- 
rece pelo typo das lettras e pelo apparecimento de alguns em termos 
de povoados considerados relativamente modernos, senão sSo de origem 
romana foram todavia feitos á imitação dos empregados por este povo 
para limitar os seus termos e territórios ; ficando assim esclarecido este 
assunto que tinha dado ensejo a discussSes muito interessantes entre 
individualidades, algumas da maior consideração scientifica. E a inscri- 
pçSo deve dizer o seu nome, cuja razão de ser será a mesma porque 
lhe chamaram também — arcas — e hoje — marras, e porque antiga- 
mente denominavam litides aos marcos das propriedades e terras, que 
agora em algumas povoações doestes sitios conhecem por alfos. 

Bragança, Junho de 1899. 

Albino Pereira Lopo. 



Extractos archeologicos 
das cMemorias parocliiaes de 1768» 

290. Magrellos (Entre-Doaro-e-Minho) 

o Castro de Arados 

fNo alto cacumen deste monte (de Arados) ha tradição muyto 
antiga que naquelle tempo habitavão os Mouros, e daquella planície 
fazião fortaleza, e ainda hoje se divizão huns vestigios pello poente 
dos muros da sua fortaleza». (Tomo xxu, fl. 210). 



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188 O Archeologo Português 



201. Maiorca (Beira) 

Castello dos Mouros 

«Aqui ha hu sitio que vulgarmente se chama o Castello, e há tra- 
dição de que no tempo que os Mouros pessuirSo estas terras ouve esta 
fortaleza, mas hoje nem signal se encontra das ruinas». (Tomo xxn, 
fl. 223). 

292. Malhadas (Trag-os-Montes) 

Vid. O Arch. Port., i, 11, n.M. 

293. Mangualde (Beira) 

Oastello dos Mouros 

cHa nesta minha freguezia huma serra chamada do Castello cujo 
nome alcançou de ser antigamente Castello de Mouros como consta de 
vestígios que nella se acham que vem a ser: huns muros munto 
Antigos que hoje se acham aruinados e postos por terra feitos e 
machinados de pedra meuda unida com cal e área, de que ainda 
existem signais, e se dis, foram fabricados por hum Mouro chamado 
Azuram, do qual tomou o nome este concelho de Azurara» . (Tomo xxn, 
fl. 296). 

294. Manbuncellos (Entre-Donro-e-Minho) 

A pedra que fálla 

« ha hum monte grande, e parte delle pertence a ella e a 

outras que com ella partem. O qual monte por sua grande planície 
se chama Monte Deiras : e nelle ha hum espaçozo Lenteiro que fes 
huma medíocre agoa que da terra sobe. E dizem que he Olho marinho 
por terem atolado profundamente nelle bois e bestas, donde com muyto 
custo e trabalho se tiraram. Também junto e ao redor do tal monte 
ha outros compostos de muytas penedias. E entre elles ha hum que 
fas Eccho quando se fala alto, pelo que dizem os rústicos da terra, 
que ali está huma Moura encantada». 

« tem para a parte do Nacente o já mencionado monte Deiras 

para a parte do norte e occidente hum monte bastantemente alto e 
cheyo de pedras chamado Boy morto, para a parte do Sul fica hum ou 
mais montes em hum sitio elevado abaxo do qual está o Lugar chamado 
o Castilho (sic) e na falda dos taes montes estam as pedras já ditas, 
que fazem Eccho e que respondem, quando se fala alto, chamadas 



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o Abcheologo Português 189 

por isso a Pedra que fala: e para cima mais para o Oriente estam 
algos montes elevados, e muy pedrogulhozos». (Tomo xxn, fl. 309), 
cPassa também por hum lugar chamado a Palia, antigo, populozo 
e aprazivel e parece que de Palas Deoza Gentilica tem o nome. E se 
o affecto de ser pátria minha me nam soboma o animo para a incli- 

naçam, julgo que pelo sitio he huma das melhores prayas deste 

rio (Douro) > (Tomo xxn, fl. 312). 

2Ó5. MarialTa (Beira) 

A cidade dos Amvo* 

Freguesia de S. Pedro, — t Somente tem hum lago com bastante 
grandeza, que conserva alguas agoas no inverno, com seos aqueductos. 
Com que na antiguidade (bem se deixa ver) se encaminhava a agoa 
para regar os campos em o sitio da Deveza onde prezentemente se 
faz a feira, e algum dia se achava situada a Cidade de Aravos, mas 
tem arruinado o poderozo dominig do tempo». (Tomo xxii, fl. 373). 

Freguesia de Santiago. — «E em minha Caza se conserva hua 
pedra mármore quadrangular mais cumprida. que larga e da grosura 
de meyo palmo, a qual foi achada dentro do Castello, e nella se ve 
esculpido hum Letreyro latino que ainda com vocábulo breues e letras 
já apagadas se deyxa perceber ser do tempo dos Emperadores Tra- 
jano e Adriano e existir nesse mesmo, e nesta mesma paragem a 
Cidade chamada Aravos*». (Tomo xxn, fl. 378). 

iTem também no arabalde donde se faz a feira todos os mezes 
em cujo sitio há tradiçSo estivera a antiga Cidade Aravos, hua Torre 
que conserva o nome — da Moura, a qual se acha já aruinada e parte 
de seu terraplano metido para algumas propriedades, ou campos parti- 
culares, e pellos seos fundamentos, e architectura se deyxa ver era 
palácio de pessoa grande». (Tomo xxn, fl. 380). 

296. Marmelar (Àlenitejo) 

Ruinas de um palácio 

c no fundo de algumas sepulturas se acham pedras lavradas 

e athe ao prezente nam tenho descuberto letreyro algum. Entenda 
que o pavimento da Igreja era aonde agora he o fundo das sepulturas 



* É referencia á Civitas Aravontm, inscripfao n.« 429 do Corp. Inscr. Lat, 



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190 O Archeologo Português 

e por ser a Igreja muito húmida a mandaram entulhar». (Tomo xxii, 
fl. 403). 

«Antigamente se achava nesta Aldeã hum palácio junto da ribeyra 
que corre junto a este povoaçEo, e dentro da mesma so se acham os 
alicerces, e por memoria huma torre de quatro cantos mais comprida 
que larga, tem o comprimento para a parte do Norte em que se con- 
tam 35 palmos e a largura para a parte do Nascente com 24 palmos 
de face san os cantos de pedra lavradas humas brancas e outras 
pardas, e a mais obra he de pedra tosca, tem 4 janelas altas as pri- 
meyras sam para o Norte e Sul em igual competência, ou correspondên- 
cia, e as duas mais altas sam para o Nascente e Poente obra muito 
tosca. 

Dentro da terra se acha huma abobada baycha que serve de cuber- 
tura ao pavimento aonde estão alguns potes de azeyte e serve a torre 
de adega para recolher as rendas do azeyte do morgado do Sr. Conde 
de Vai de Rey ; e todo o mais vam da torre he descuberto. 

Antigamente tinha sobrados de madeyra mas o tempo tudo desgas- 
tou com pressa; no portal da torre se vem pedras que já serviram em 
outro edeficio ; os meyos das ruas desta Aldeã estam cheyos de alicer- 
ces, e em algumas partes se tem descuberto o solo das cazas que ali 
existiam tudo de ladrilho e adobes donde julgo que esta Aldeã he 
mais antiga do que a noticia que me deram de ser fundada no anno 
de 1345 etc». (Tomo xxn, fl. 405). 

297. Marmeleiro (Beira) 

Areias auríferas 

a Consta que muntas vezes se acha ouro em faiscas pellas áreas 
porque no verEo costimiXo vir homens chamados gandaeyros e alguma 
couza acham, mas pouco e com munto trabalho». (Tomo xxii, fl. 415). 

208. Santa Martha (Entre-Donro-e-Minho) 

Dolmen Forno dos Mouros 

cNiU) tem previlegios alguns, mas sim acha-se em hum Monte, que 
fica perto e defronte do lugar de Portella hua antiguidade chamada o 
Forno dos Mouros que consiste em três esteyos de pedra cada hum 
de cumprimento de duas varas de medir fora do licerse, e por cima 
destes esteyos está sobreposta hua pedra redonda, que tem de largura 
também duas varas de medir, e nâo se sabe quando teve principio, 
nem quem fez esta obra, só diz a fama que he do tempo dos Mouros, 



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o AiiCHEOix)Go Português 191 

e que foi obra sua, e não sei nem achei que haja outras couzas dignas 
de memoria». (Tomo xxu, fl. 431). 

â99. Marzagflo (Tras-os-Montes) 

Sepulturas. — A cidade Aquas Quintianas. — Castellos 

«Tem hum larguo Adro em circuito com muitas comendas das 
Ordens Melitares para conhecimento dos muitos cavalleiros, que nellas 
jazem in torradas e muitas delias granadas em pedra mármore de que 
o sitio he bem abastado». (Tomo xxii, fl. 504). 

«Foi aquella villa de Anciaens* no tempo dos Romanos Cidade e se 
denominava Aquas Quintianas como tem Monsiú Brusen I^amartinière 
de nasçam Franceza no seu primeiro volume do seu Dicionário Geo- 
gráfico foi popuUoza, e nobre, e o indicão ainda os seos antiguos 
Muros com que ainda se acha murada toda. Está no alto de hum 
leuantado e fraguozo monte e serra que corre do norte para o sul 
em distancia de cinquo milhas e finaliza no rio Douro. He circuitada 
de bons, largos e altos Muros e no cima delia e do dito Monte tem o 
seu grande e larguo Castello, com hua Torre no mais alto delia, 
chamada da Homenagem : como com mais Largueza dirá o Parocho 
que hora he do Divino Salvador da mesma Villa, e cuja também o 
disse quando no estado secular escreui as antigas notabellidades delia 
em Septembro de 1721 que remetti á Academia Real e delia se deram 
ao R.**® Dom Hieronymo Contador de Argote para compor os seos 
Tomos das mesmas Notabellidades». (Tomo xxu, fl. 505). 

«Nam há Minas no destrito da dita Serra {de Marzagão) mas 
descubriose há couza de 60 annos hua de salitre na praya do dito 
Rio Douro no sitio e porto da Balleira, aonde beio hum Enginheiro 
fazer poluora; o que nEo continuou ou por lhe faltar o salitre, ou 
pello áspero do sitio». (Tomo xxn, fl. 527). 

«Tem esta serra no mais alto hum circuito de Pedra já cabido e 
aruinado com penedos altos dentro que se chama o Castello das Donas, 
por cima das fontes do Duram. E mais adiante ja a uista de Cam- 
pelios está outro Cabeço a que chamam o Castello de Dom Fernando». 
(Tomo XXII, fl. 528). 



* Anciães vem de Atisilanis, genetivo de AnsUa: assim como Quintiâcs de 
KintUanis, genetivo de Kintila, ChintUa ou Cintila. E provável que AncíSo, na 
Estremadura, se tenha derivado de Ansilani; como Requião de Eekilani ou Rechi- 
Iam e Aldâo de Aldiani. RtkUard e Aldiani nSo soffrem dúvida serem casos de 
Rtkila e Aldia, talve;^ em dativo. 



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192 O AucHEOLOGO Português 



800. Mat£-de-Lobo8 (Beira) 

Sepultaras 

« por se acbar no adro delia muitas sepulturas com letreyros 

nas suas campas que declario ser dos seos Cavaleyros {do Tefinplo) 
donde estes forSo sepultados, e em outras se vem cruzes formadas». 
(Tomo XXII, fl. 549). 

801. Matança (Beira) 

Pedras com vários feitios e letreiros 

« conta- se que o seu nome de Matança lhe prouem de hum 

grande choque que aqui se deu contra os Mouros e achanse muitas 

pedras com uarios feitios, e algumas com letreiros que se nam podem 

ler». (Tomo xxii, fl. 558). ^^ . . 

^ ' ^ Pedro A. de Azevedo. 



• Insoripções romanas do Minho 

Nas suas Cartas sobre epigraphia romana. Braga 1898, dá o Sr. At- 
bano Bellino noticias das seguintes inscripçSes: 
1.* (a pag. 26): 

HE 

S AC 
C I VLIA 

O A. interpreta a inscripção assim: [deo'] He(rculi) soe (rum) C. lu- 
liu(8). . . — Esta inscripção, foi encontrada pelo A. em Braga, na an- 
tiga rua de Santo António. 

2.» (a pag. 30): 



AJNA 
LABERIA LF MX 
8ic FILAE PIENTI 



Que o A. traduziu: Laberia Máxima, JUha de Ludo, á JUha pie- 
dosíssima, de 10 annos de idade, — A inscripçSo existe na Torre da 
Magueixa, freguesia do Reguengo Fetal. Este texto corrige o que foi 
dado no Corp. Inscr. Lat., n, Supplemento n.® 5234. 

E só assim pelo concurso de todos que a Epigraphia poderá pro- 

^'^''' J.L.DEV. 



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EXPEDIENTE 



O Archeólogo Português publicar-se-ha mensalmente. Cada número 
será sempre ou quasi sempre illustrado, e não conterá menos de 16 
paginas in-8.®, podendo, quando a affluencia dos assumptos o exigir, 
conter 32 paginas, sem que por isso o preço augmente. 

PREÇO DA ASSIGNATURA 

(Pagminento adoanUdo) 

Anno líJ500 réis. 

Semestre 750 » 

Numero avulso 160 » 

Estabelecendo este módico preço, julgamos facilitar a propaganda 
das sciencias archeologicas entre nós. 



Toda a correspondência á cerca da parte litteraria d'esta revista 
deverá ser dirigida a J, Leite de Vasconoellos, para a Biblio- 
theca Nacional de Lisboa, 

Toda a correspondência respectiva a compras e assignaturas 
deverá, acompanhada da importância em carta registada ou em vales 
de correio, ser dirigida a J. A. Dias CoelllO, para a Imprensa 
Nacional de Lisboa. 



Á venda nas principaes livrarias de Lisboa, Porto e Coimbra. 



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VOL.V 1899-1900 N.° 8 

^ RKCKIV»0 

o ABCHEOLOGO^; ^ 




COLLECÇÂO ILLUSTRIDA DE MATERIAES E NOTICIAS 



PUBLICADA PELO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 




Veterum volvens monumenta virorum 



LISBOA 

IHPBENSA NACIONAL 
1900 



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eTJls/Lls/LJ^TlXO 



Do Areeiro a Mouraria: 257. 

Torre de D. Chama: 279. 

Carranca de bronze romana: 281. 

Noticias prehistoricas: 281. 

Antiguidades romanas de Lisboa: 282. 

Amuletos: 287. 

Archeoloqia trasmontana: 290. 

Questionário Archeologico: 295. 

Extractos archeologicos das «Memorias parochiaes»: 297. 



Este fascículo vae illiístrado com 11 estampas. 



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o ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 



COLLECÇiO ILLUSTRâDâ DE MATERIAES E HOTICIAS 

PUBLICADA PELO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



VOL. V 1899-1900. N.*' 9 E 10 

Do Areeiro & Mouraria 

(Vld. Areh, Port,, v, 212) 
Fontes 

Todo O valle e suas encostas eram abundantes de agua, como já 
fica notado, possuindo cada almoinha ou horta o seu poço, com o que 
provavelmente se nfto desprezava o uso contingente das aguas do rego. 

As fontes publicas mais importantes existiam em Arroios e em 
Santa Barbara, confundindo-se a agua restante com a do mencionado 
rego. 

O chafariz ou fonte de Arroios é mencionado pela primeira vez 
em 1184, e depois num documento de 1455 (Livro 84 de S. Vicente, 
fl. 59); e o de Santa Barbara em 1463 (Livro 7 da Estremadura, 
fl. 12) e 1466 (Livro 14 de 8. Domingos, doe. 198). 

No fim do sec. xvi {Elementos, ii, 83) havia no sítio da Bemposta um 
poço pertencente a Jo2o de Qoes, o qual poço foi adquirido pela Camará 
de Lisboa, sendo a sua agua encanada para o Rocio onde se levantou 
um chafariz para uso do público até que em 1786 foi elle demolido 
para ceder o logar a outro na Rua de S. Vicente, á Guia. Esta fonte 
é actualmente representada pelo chafariz do largo do Soccorro. A agua 
do poço de JoSo de Góes era conduzida até a rua dos Anjos por um 
aqueducto; parecendo-me que foi esta construcçSo que deu á quinta 
atravessada o nome dos Castellinhos, presentemente, também, nome 
de um novo bairro. Consta-me também que esta quinta pertenceu á 
familia Castello, donde provirá o nome. 

A tentativa de levar agua ao Rocio não é moderna. Em 1474 
(Livro 4 da Extremadura, fl. 1 v.) havia um chafariz no Rocio (Largo 
de S. Domingos) alimentado com a agua do próprio local: as recentes 
obras do elevador de S. Sebastião da Pedreira mostraram claramente 

17 



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258 O Archeologo Português 

a passagem aqui de uma corrente subterrânea. Em 1671 descobriu-se 
«pouco distante da egreja dos Anjos desta cidade, entre as hortas e o 
campo da mesma freguesia*» uma fonte que se denominou bica das 
Fontainhas, 

Agrionltnra 

A abundância de agua tomou o valle, também, muito fértil. 

A muralha de D. Fernando, descendo do Castello e subindo pelo 
monte que se denomina de Santa Anna, atravessava no valle unicamente 
almoinhas e nas encostas olivaes. Toda a planicie, muros a dentro, até 
o limite meridional do Rocio, pela sua abundância de agua, era completa- 
mente apropriada a horticultura. Edifícios parece que só se levantava 
desde o século xiii o mosteiro de S. Domingos nas raizes do monte 
de Santa Anna, protegendo-o a muralha que corria pelo referido monte. 

Todo o moderno Rocio e a Praça-da-Figueira estavam retalhados 
em almoinhas conforme indica um documento de 30 de Abril de 1386 
(Liv. 11 da Estremadura, fl. 152 v): «a qual casa e allmuinha estava 
no rossyo da dita cidade donde vendeu a erua. E parte a dita almuynha 
com as almuynhas de maria esteuez da cotouia' e com casas de maria 
francisquez e com outros». Formavam estas hortas o reguengo das 
almoinhas (doe. de 14 de Dezembro' de 1473, no Liv. 4 da Extrema- 
dura, fl, 17 v): achaKo que he no reguengo das almoynhas da par 
do ressyo que parte de hua parte com quimtall de Tomas Luis e da 
outra com Manuel Piriz e da outra com rrua pruuica que vay da bor- 
ratem pêra o rresyo e da outra com quimtall, etc.». 

Um documento de 1430 descreve-nos o sítio do largo de Santa Justa: 

«Campo e reguengo em que ora stam aruores e fruitas e hortaliças 
que nos auemos dentro na cidade de Lixboa na freguesia de Santa 
Justa acerca do Resio da feira, o qual campo parte per estas confron- 
tações, s. como se começa na ponte de dentro das casas e eixidos que 
ora som do dito conde dom pedro que forom de Diego da Veiga imdo 
assy partindo contra o poente a rredor das paredes das casas e as ortas 
que per hi stam ataa o quanto do dito campo e desse canto assy par- 
tindo e himdo a rredor das hortas e paredes das casas que per hi uaSo 
sempre per dentro e como parte per casas e alpenderes que dç nos hi 
trazem foreiros aforadas e emprazadas indo assy sempre partindo per 
valados e casas que per hi ora stam assy como essa diuisS uay en- 
testar no caminho pubrico em que sta hua ponte per que atrauesam 



* Elementos, vui, 804. 

2 £ o sítio onde boje existe a Escola PoIjthechDica. 



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o Aecheologo Português 259 

do Resío da feira de Santa Justa e dessa ponte como se esse campo 
parte sempre indo pêra cima contra o leuante da parte do nosso cas- 
tello assy como uay entestar em outro camto onde ora stam huu poço 
dagoa que sta fora junto com o ualado das ditas hortas e campo o qual 
poço he nosso e das perteenças dessas hortas e campo E a outra 
deuisom he como torna indo assy per este ualado contra a parte do mar 
partindo ataa que uay juntar no eixido e casas do dito conde dom 
pedro himdosse a diuisom e as confrontações deste campo onde pri- 
meiro começarem» *. 

O sitio de Borratem é bastante antigo. A etymologia d'este nome 
é desconhecida, não representando a pronuncia moderna na maior 
parte das vezes a forma anterior. Numa citação a cima apparece-nos do 
género feminino. Um documento de 5 de Fevereiro de 1455 (Livro 84 
de S, Vicente, fl. 95) diz: «o logar que chamam Baratem». Outras 
vezes apparece Barrotem. 

Existe hoje entre a rua do Arco do Marquês de Alegrete e a dos 
Canos um beco insignificante, intitulado da Povoa'. Este nome indica 
talvez a existência de uma pequena aldeia neste sitio. Uma carta de 16 
de Junho de 1347 (n.® 1609 de Santos) diz: «lagares de vinho e de 
azejte os quaes eu ej na Cidade de LixbSa a par da poboa ante as 
casas de Joh% Affonso a par do spital dos Meninhos». O hospital dos 
meninos (expostos) corresponde á ermida de N. S. da Guia. Em 1420 
fala-se na rua da Poboa «acerca da porta de sam Vicente» (n.® 662 de 
Santos). E no livro 84 de S. Vicente, fl. 378 v em 1424 está o se- 
guinte: «Joham Roiz moedeiro, filho de Mateus Roiz, morador na dita 
cidade ao poço da poboa, freyguesia de Santa Justa». 

O monte de Santa Anna (chamado assim da invocação do convento 
construido em 1561) supportava nos seus flancos descarnados pelas 
pedreiras, talvez começadas a aproveitar por D. Fernando, olivaes e vi- 
nhas. D. Manuel em 1500 (Livro 1 da Extremadura, fl. 160), mandando 
cortar todos os olivaes existentes dentro da cidade e todas os de fora 
dos muros até dois tiros de besta, determinou ao mesmo tempo que 
esses terrenos ficassem em rocios. Segundo parece, parte do terreno 
intra-muros de Lisboa desde a porta de Santo AntSo até á de S. Vi- 
cente pertencia a S. Domingos por concessão real ao tempo da fim- 
daçlto, posto que se não tenha encontrado ainda o documento original ou 



* ChanctUaria de D. João I, livro 4.«, fl. 126 v. 

^ No século xYi ou zvii também se dizia Povoa dos Vinagreiros (n.^ 315 de 
S. Domingos, Rtmtssa dos Próprios Nacionaes). Ao lado do beco da Povoa ha 
ainda hoje a rua dos Vinagres. 



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260 O Archeoloqo Português 

cópia. No tombo de S. Domingos, liv. 31, em cada emprazamento ap- 
parece a seguinte noticia (por ex.: fl. 18): «ho qual chSo o dito mosteiro 
pesuy e lhe foy dado j une tamente com o chio de junto do Esprital ate 
o muro que vay da porta de Santo AntSo ate os Canos da Mouraiia 
como tudo se declara nas escrituras e sentenças que delle tem que o 
dito Juiz vio». 

O terreno onde se traçou a rua nova da Palma pertencia no en- 
tanto ao mosteiro de S. Vicente de Fora. (Tombo 187 dos conventos, 
remessa dos Próprios Nacionaes). 

Nos seguintes documentos encontra-se a applicaçSo agrícola do ter- 
reno entre as duas portas. 

chua almoynba que o dito moesteiro ha dentro na cerca da dita cidade 
a qual he antre o muro e canos da porta de sam Bicente e o moesteiro 
de sam Domingos c8 suas cassas direitos e pertenças que parte com 
o dito muro e olyual do dito moesteiro de sam Domingos e c8 caminho 
que bae arredor da dita almoynha de sam Domingos pêra a porta de 
sam Bicente». 1424. (Livro 84 de S. Vicente, fl. 378 v). 

chuSa terra com sua pedreira Junto c5sigo a quall terra parte com 
ho muro da Cidade de longo des ho muro des contra huu currall dos 
boys ataa os canos do muro des contra a porta de sam Vicente». 1466. 
(Livro 20 de S. Domingos, doe. 4). 

chuu grande chaão com sua pedreira que tapa com ho muro do 
concelho e em fundo com ho adro do dito moesteiro e vay todo de 
llongo des o muro des contra Santo Antom ataa os canos da porta de 
Sam Vicente no quall chaão com sua pedreira estauom dous oliuaees 
s. huu que trás Afomso Vaaz ourivez emprazado que vay ao longo do 
dito muro é outro que soia trazer Martin Vaz Gruitarreiro com suas 
cassas que parte com o dito adro da parte de fundo e emtesta com a 
dita pedreira e oliuaaes do dito moesteiro». (Id., doe. 21). 

chua grande terra c3 pedreira e c3 oliuaaes e casas acerca do dito 
moesteiro que parte c5 o muro do concelho e corre de longo ataa os 
canos per u correm as augas chouidiças e em fundo parte *c3 adro 
do dito moesteiro e com casas que foram de Martin Vaasquez Guitar- 
reiro». 1479. {Id., 6). 

€ huas casas logo hy acerca do moesteiro contra o uliual que 

partem de hua parte c3 casas que foram do comde d^Abramches que 
ora som de seu filho dom Antam e doutra parte com casas do dito 
moesteiro que foram do guitarreiro e de trás entestam com barroca 
do dito uliual». {Id,, doe. 38). 

«huu oliuall que esta dentro dos muros da dita cidade ho quall 
holiuall trazia emprazado Fernam Pirez Requeredor ho quall holiuall 



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o Archeologo Português 261 

parte de hSa parte cS ho dito muro da dita cidade e com ho holiuall 
de Santo L070 e c8 outro holiuall do dito moesteiro de sam Domingos 
que ora trás Pere Aluez holeiro aforado e se chama holiuall da Pe- 
dreira», (/dv doe. 8), 

O terreno fora dos muros de Lisboa era agricultado de forma igual 
ao que ficava intra-muros, como adeante veremos. 

A Muralha, e niaa da Palma e da Mouraria 

A muralha de D. Fernando descia da montanha e penetrava no valle 
no sitio do Arco do Marquês de Alegrete, ainda hoje cheio de vestigios 
d'ella, em via agora mesmo de desapparecimento, mercê do auxilio 
prestado pela Gamara aos proprietários do novo bairro. Subia depois 
o monte de Santa Anna onde fazia uma saliência para o effeito táctico 
de alcançar a altura mais desafi*ontada do referido monte, pelo qual 
descia a fim de atravessar o valle da Avenida, onde havia a porta 
chamada de Santo Antão. Nfto creio houvesse primitivamente entre 
as portas de S. Vicente e Santo AntSo outras aberturas eífectivas, só 
posterionnente a conveniência pública fez descerrar o panno do muro. 
Uma d'essas aberturas seria co postigo da rua nova da Palma que sai 
ao Jogo da Pella» assim denominado em 1625 (Elementos, iii, 166). 
Este postigo foi aberto pouco antes de 1562 {Elementos, 1, 567): 
«o postigo que se abrio ao jogo da pella», ao mesmo tempo que se 
traçou a Rua Nova da Palma, como diz o mesmo documento «e por 
se abrir a Rua nova da palma, da parte de dentro, e se abrir o dito 
postigo, creceo a pouoaçfto de hua parte e doutra». 

A communicaçfto primitiva da baixa de Lisboa com o ar^balde 
da mouraria fazia-se, ao que me parece, a principio através da porta 
de S. Vicente (arco do Marquês de Alegrete) pela azinhaga que saia 
do Borratem e também talvez pela rua dos Canos, quando as chuvas 
o permittiam. Augmentando o transito, resolveu a camará abrir uma 
nova rua no valle rompendo-se, como já atrás fica notado, a muralha. 
A rua nova recebeu o nome de Rua Nova da Palma, nSo querendo 
dizer esta denominação que houvesse uma rua anterior chamada da 
Palma. Quanto ao termo Palma nfto consta houvesse precisamente por 
onde foi traçada a nova via de communicação ermida nenhuma assim 
chamada; a que havia ficava bastante distante para ter influido. 

Até o meado doeste século a rua nova da Palma terminava junto 
do palácio do Marquês de Alegrete, depois ella foi prolongada até o 
largo do Intendente, passando através das hortas. 

Da porta de S. Vicente saia uma rua em direcçSo a Arroios en- 
costada ao monte do castello. O nome primitivo doesta rua era da poria 



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262 O Aecheologo Português 

de S. Vicente, só mais tarde se começou a denominar exclusivamente 
rim direita da Mouraria, e depois simplesmente rtia da mouraria. A 
citação mais antiga da rua da porta de S. Vicente é de 1404. 

1404. fRua direita da porta de sam Vicentet. (Santos, n.® 589). 

1436. «no arraualde na rua direita que vay da porta de sam vi- 
cemte pêra fora». (Livro 10 da Extremadura, 203). 

1436. «rrua pubrica que vay pêra a porta de sam vicemte». (Id., 
fl. 213 V.) 

1463. «estrada pruuica que vay da porta de sam uicente». (Livro 7 
da Extremadura, fl. 212). 

1474. «rua pruuica que uay da porta de sam uicemte pêra fora 
da cidade». (Id., fl. 134). 

1489. «rua publica que uay pêra a porta de sam Vicente». (Santos, 
n.* 592). 

1494. «rua da porta de sam uicemte fregrissya da dita Igreja de 
Santa Justa». (Livro 2 da Extremadura, 242 v), 

1497. «Rua que vay ha porta de sam uicente da mouraria freguisia 
de santa Justa». (Livro 1 da Extremadura^ 246). 

1497. «Rua pruuica que uay pêra porta de sam uicente». (Livro 12 
da Extremadura, fl. 40). . 

1499. «Rua direita da porta de sam vicemte». (Livro 2 da Extre- 
madura, fl. 170 v). 

1503. «Rua direita que uay da porta de sam Vicente pêra sam 
Jurdam». (Santos, n.® 603). 

1516. «Rua que vay da porta de sam Vicemte da dita cidade pêra 
sam Jurdam». (Santos, n.® 1779). 

1545. «Rua direita da Mouraria». (Santos, n.® 669). 

1582. «Rua dereita da mouraria que vai pêra Santa Barbora acima 
de Macabeuu (?) da bamda das ortas». (Santos, n.® 1777). 

1596. «Rua dereita que vay da Mouraria pêra a Igreja de samta 
Barbora». (Santos, n.® 1774). 

o liospital dos meninos on ermida da Ooia 

Na rua da porta de S. Vicente havia um recolhimento para crianças 
abandonadas instituido pela Rainha D. Beatriz ou Brites, esposa de 
D. Affonso III, fallecida em 1300*. 



* J. B. de Castro, Mappa de Portugal, ui, 437. Porem na lista das igrejas de 
Lisboa^ feitas não posteriormente ao reinado de D. Affonso III, ao que parece, 
(Memorias para a historia das Inquirições, etc, pag. 15 dos documentos) se diz 
á o seguinte : «Ecclesia Innocentum Hospitalis puerorum». 



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o Archeologo Português 263 

1347. «apitai dos Meninhos». {Santos, n.** 1609). 

1394. « ao dito logo da porta de sam Vycente junto cS o es- 

pitall dos mjnjnhos que partem c8 albergaria do dito espitall». {Santos, 
n.* 1613). 

1440. cespritall dos meninos». (Livro 10 da Extremadura, fl. 81). 

1497. cesprital dos menynos setuado na Rua que vay ha porta de 
sam uicente da mouraria freguesia de sam ta Justa». (Livro 1 da Extre- 
madura, fl. 146). 

Passou por várias phases este hospital, segundo conta J. Baptista 
de Castro, Mappa de Portugal, iii, 437. A existência d'este estabeleci- 
mento prova que a actual rua da Mouraria n%o fazia parte do arrabalde 
dos mouros, e effectivamente a estrada que saia de Lisboa por uma 
das suas portas principaes e com a invocação do padroeiro da cidade, 
nSo devia estar inquinada com a vizinhança mahometana. Ainda assim 
parece que havia um ou outro mouro residente, como também havia 
entre os almoinheiros christSos outros mouros. 

B. Lazaro 

Na encosta do monte de Santa Anna existia talvez já anterior ao 
reinado de D. Affonso III (124Õ) a Ecclesia Sancti Zazan mencionada 
pela primeira vez num documento sem data inserto nas Memorias 
para a historia das Inquirições, pag. 8õ. 

1381. ccaminho que uay pêra Sam Lazero». (Santos, n.® 631). 

1420. € caminho que bae pêra sam lazaro». {Santos, n.® 662). 

1440. ccaminho pubrico que uay pêra sam lazero» . {Santos, n.® 638). 

1440. cacerqua de sam lazaro da dita cidade a par de bemfiqua 
que parte com caminho do concelho que vay pêra o dito sam lazaro»; 
(Livro 10 da Extremadura, fl. 81). 

1489. «caminho que uay pêra sam lazaro». {Santos, n.® 592). 

1503. t caminho do concelho que vay teer a sam Lazaro». (Livro 9 
da Extremadura, fl. 15 t?). 

1510. fCaminho que vay pêra sam Lazaro». {Santos, n.® 671). 

1514. cazinhagaa que uem do poço de s3 Lazaro e vay ter aos 
canos de sam Domingos». (Santos, n.® 593). 

1516. c travessa que saee da dita Rua direita que uaj para sam 
Lazaro». (Santos, 1779). 

1542. «hortas de s% Lazaro». (Santos, n.^ 617). 

1445. «caminho publico que vae da rua direita da mouraria para 
sam Lazaro». (Santos, n.® 669). 

1555. «Rua que vae pêra Sam Lazaro». (Santos, n.^ 626). 

1581. « á mouraria a ponte de sS Lazaro. {Santos^ n.® 1795). 



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264 O Archeologo Português 

1Õ86. cacima da ponte de sam lazaro onde se chama o eurrali- 
nho». {Jesuítas, maço 2, pacote 7). 

Este caminho corresponde hoje á calçada de S. Lazaro e á Car- 
reirínha do Soccorro (rua de Fernandes- da-Fonseca). 

Beoo da BarbadeUa 

Este beco vem desembocar á Carreirinha do Soccorro. Tira o seu 
nome de Barba Leda, alcunha ou appellido de um individuo aqui resi- 
dente no século xvi, e em cuja época se traçou o referido beco. Segundo 
um documento de 1542 (Santos, n.® 617) chamava-se este individuo 
João do Rego Barbaledo e sua mulher Isabel Fernandes Barbaleda. 
Um outro documento de 1516, por publica forma de 1554 {Santos, 
n.^ 1779) diz o seguinte: 

c casas que sam na Rua que vay da porta de sam Vicente da dita 
cidade pêra sam Jurdam * e partem do levante com a dita Rua e do poente 
com o sobredito chaom que vay de trás ellas e do norte e do sull com 
outras cassas do dito mosteiro que ti^azem outras pessoas. E o dito chaom 
vaj de trás ellas e parte do poente c5 o Reguo que vaj pêra os canos 
e do norte com outro chão do dito mosteiro que traz Joam Diaz e do 
sull com hua travessa que saee da dita Rua direita que vaj pêra sam 
Lazaro e do leuante com hu renque de casas do do dito mosteiro». 
* Diogo Luís', foreiro d'este chSo pretendia abrir nelle uma rua que 
começava na travessa que soe da Ru/z direita e terminava no fim do 
terreno. A rua nâo continuou a avançar pelos terrenos seguintes, fi- 
cando atrophiada em becco como diz outro documento de 1581 {Santos, 
n.^ 1795): cá mouraria a ponte de s2 Lazaro dentro no bequo de 
Barbaleda e partem da banda do poente com casas e ch2os de Jo2 
Vaz e do norte partem com cazas que foram do dito Barbaleda e ora 
sft de Aluaro Dias curtidor e da banda das ortas partem com Reguo 
da cidade e por diante partem com o dito bequo » 

8. Jordão e Santa Barbara 

Jorge Cardoso, Agiologio^ iv, 460, diz o seguinte: «Na Freguesia 
dos Anjos da Cidade de Lisboa havia huma Ermida antiga de Santa 



1 Rua do Bcmformoso, mais antigamente do Boi Foimoso. O documento mais 
antigo que menciona este sitio (escolla de boi formoso na rua direita que vai 
pêra S. Barbora) tem a data de 1620. (Alcobaça, Sentenças, 33, fl. 318). 

2 Uma filha d*estc Diogo Luís e de Violante Rodriguez, de nomo Breatis Luis, 
casou com o pintor Simão Affonso, conforme um documento de 1555 (Santosy 
n.» 1783). 



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o Abcheologo Português 2Gõ 

Barbara, aonde estava huma Imagem de S. Jordão; ficava esta Ermida 
poaco distante do chafariz e delia se vem ainda hoje vestígios; arruinada 
com o tempo a Ermida, forâo levadas as Imagens de S. JordSo e Santa 
Barbara, para a parochia dos Anjos, onde se vener&o, e tem suas 
Confrarias». A ermida de Santa Barbara começou por ser um estabe- 
lecimento idêntico aos de S. Lazaro e dos Meninos Innocentes. O valle 
que vinha de Arroios nSo era o único escolhido para estas instituiçSes 
piedosas. Em toda a Lisboa antiga se encontravam hospitaes. O per- 
gaminho 361 do mosteiro de Chellas ao descrever uma almoinha diz o se- 
guinte: cque he apar do ospital de ssanta Barbora». Tem a data de 1339. 
S. JordSo, santo archi-apocrypho era advogado dos casamentos e a elle 
recorriam as donzellas de Lisboa. Pelo tempo adeante as romarias ao 
santo foram prohibidas porque c ainda nos actos pios se introduzem 
abusos e desordens». 

Por detrás da ermida ficava um valle chamado de S. JordSo, con- 
forme o testemunho de Jorge Cardoso ou do seu continuador, valle 
por onde corria a a«^ua de Arroios. 

As noticias sSo as seguintes: 

1503. fRua Direita que uay da porta de sam Vicente pêra Sam 
Jurdam»; trego que uem de Sam Jurdam». (Santos, n.® 603). 

1516. cRua Direita que vay da porta de sam Vicente da dita ci- 
dade pêra Sam Jurdam». (Santos, n.° 1779). 

1551 (?). cErmida de Santa Barbara e S. JordSo, citaçSo de Chris- 
tovSo Rodrigues de Oliveira, apud Sr. Castilho, Lisboa Antiga, vii, 59. 

1592. citem a sam JurdSo pegado aos Anyos hum oliual que trás 
Dom Diogo de Lima que desfez em uinha e o meteu na sua quinta 
cerquada». (n.® 315 de S. Domingos, fl. 14, Próprios Nacionaes). 

O campo de Santa Barbara abrangia superficie maior do que o mo- 
derno largo de Santa Barbara. Nas suas immediaçSes havia a já men- 
cionada ermida da Santa, festejada no século xiv: «El- rei (D. Pe- 
dro I) mandou, com pena de morte, que, quando ellas (oã christãs) 

fossem pela porta de Santo André á romaria de Santa Barbara, etc.» ^ 

Neste campo ou rocio exercitavam-se os moradores de Lisboa em 
jogar o arco (tirar ao alvo) e também na carreira dos eavallos, de que 
lhe ficou o nome em parte. Teve o nome de campo da forca por ser 
o local doeste supplieio em certa época. 

1399. chua quimtSa que he em termo da dita cidade acerca do 
Kesio de samta barbora e da parte do abrego com martim vaas- 



* Apud Sr. Castilho, LÃshoa Antiga^ vii, 58. 



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266 O Abcheologo Português 

quez que foy homem da nossa alcaidaria e com estrada pruuica que 
vay pêra carnide. E da parte do soafto com Resio do concelho homde 
jogam o arco » (Livro 12 da Extremadura, fl. 126). 

1436. trrua pubrica que uay da porta de samto Amdre pêra samta 
barbora». (Livro 10 da Extremadura, fl. 214). 

1440. «Rego que uem de samta barbora». (Livro 7 da Extremadura^ 
fl. 212). 

1463. «chafariz de sancta bàrborat. (Livro 74 de 8. Domingos, 
doe. 198). 

1582. «Rua dereita da mouraria que vai pêra santa Barbora acima 
de Macabeuu (?)». (Santos, n.^ 1777). 

1596. «Rua dereyta que vay da Mourarya pêra a ygreja de Santa 
Barbora». (Santos, 1974). 

VUla Qaente 

Na parte superior da Mouraria no caminho que vae da porta de 
Santo André para o postigo de S. Lourenço, cadinho hoje chamado 
da Costa do Castdlo, estava situada a celebre Villa Quente, conforme 
o Tombo de 1573, existente na Gamara de Lisboa, fl. 139 v: «Tem a 
cidade huas casas na rua que vai da porta de Sancto André pêra o pos- 
tigo de Sam Lourenço, onde se chama Villa quente. E estão á mSo 
esquerda, indo pêra o dito postigo de Sam Lourenço. Da banda do sul 
partem com rua e caminho que vae para o postigo do Moniz». 

Santo Andró 

A Mouraria estava assente entre duas portas da muralha de D. Fer- 
nando. Já falei da de S. Vicente, falta tratar da de Santo André, hoje 
ainda representada pelo arco da mesma denominação. D'esta porta saia 
uma estrada para o valle, no final da qual se lhe juntava a calçada depois 
chamada dos Cavalleiros e a rua dos Lagares. Em rigor esta última 
rua é a continuação da que saia de Santo André, e, como esta, ficava 
fora da influencia mourisca. A passagem para o largo de Santa Barbara 
era naturalmente pela rua dos Lagares e rua das Olarias e moderno 
largo do Intendente, onde se confundia com a estrada que arrancava 
da porta de S. Vicente. Todas estas ruas torneavam as bases e as en- 
costas da Graça e de N. Senhora do Monte. 

1436, €rua que vay pêra a porta de sancto andre». (Livro 10 da 
Extremadura, fl. 203 v). 

1436. «caminho pubrico que vay pêra a porta de samto andre». 
(Id., fl. 213 17). 



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o Abcheoloqo Português 267 

1436. crrua pubrica que vay da porta de samto amdre pêra samta 
barbora» ; crrua gramde acerqua da porta da mouraria que vay pêra 
samto amdre»; trrua de samto André». {Id., fl. 214). 

1490. f azinhagaa que uay pêra porta de sancto amdre». (Livro 3 da 
Extremadura, fl. 1). 

1479. f Rua que vay pêra santo André». (Livro 21 da Extremadura, 
fl. 209). 

1498. «caminho pubriquo que vem da porta de sancto amdree e 
vaai pêra o chafariz daRoios». (Livro 1 da Extremadura, fl. 39). 

1498. «calçada que vaay do dita arrabalde pêra a porta de Sancto 
André». {Id., fl. 183 v). 

1503. «Rua pubrica que vem da porta de samcto amdre pêra ho 
chafariz damdalluz». (Livro 6 da Extremadura, fl. 13). 

1517. «Rua que vay da porta de santamdre pêra Alualade». (Li- 
vro 12 da Extremadura, fl. 60). 

Os Lagares 

A calçada de Santo André recebia, e recebe, no seu curto trajecto 
outras vias de communicação. Num documento de 1502 (Livro 9 da 
Extremadura, fl. 162 v) encontra-se a antiga rua dos Lagares «caminho 
que uem da calçada de Santo André pêra os lagares dazeite». 

Noutro documento de 1501 (Livro 6 da Extremadura, fl. 105) 
parece haver referencia á rua dos Caualeyros e á rua das Tendas «ca- 
minho que uem da calçada de samto amdre que uay peras tendas dos 
mouros». Em 1548 (Santos, n.® 1789) ha esta mençUo «huas casas 
na dita cidade na mourarya na Rua dos Cavaleyros que partem com 
Rua pubrica e por de trás c5 Rua das Holaryas». 

O Livro 13 da Extremadura, fl. 76 v, ao anno de 1513 diz: «Ruas 
que vem da porta da mouraria e vSo pêra ho caminho que vay da 
porta de sanctandre por de trás das casas pello pee da costa de samta 
maria da graça». 

O sitio dos Lagares deu o nome a uma ma que, saindo da calçada 
de Santo André, vae encostada ao monte da Graça, na direcçSo de 
Arroios ou Santa Barbara. Estes lagares eram propriedade do Hospital 
de Todos-os-Santos e de Pêro Lopes do Carvalhal: 

1502. «huu chaSo que parte com o caminho que uem da calçada 
de Santo André pêra os lagares dazeite que o dito espital grande de 
todolos santos de dereito seiiorio he em ho arraualde da dita cidade 
ao pee da costa de Santa Maria da Graça, freiguesia de Santa Justa». 
(Livro 9 da Extremadura, fl. 162 v). 

1503. «lagar dazeite no almocouar». {Id., fl. 180 v). 



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268 O Archeoloqo Português 

1Õ03. cRua pubrica que uay pêra hos lagaares de Fero Lopez». 
(Livro 7 da Extremadura, fl. 13). 

1510. «por de trás cS azinhaga que uay amte elle (Mafomede Ko- 
ballo) e ho logar (aliás lagar) de Pêro Lopez do Carualhal e per diante cS 
ho almocouar que foy dos mouros». (Livro 13 da Extremadura, fl. 37 t?), 

Adeante de Arroios havia uns lagares que constituem hoje a quinta 
do Conde de Almada, como atrás fica notado: cfr. Carvalho da Costa, 
Corographia, lli, 419. 

Aflrricnltnra íôra dâs portaa de S. Vicente 

No terreno fora dos muros, só do meado do presente século em 
deante, começou com maior intensidade a ser revestido de construcçSes. 
No valle, como intra-muros, predominavam as almoinhas, ao passo que 
as encostas estavam revestidas de olivaes e vinhedos. Da influencia 
árabe exercida nos processos agrícolas dSo-nos algumas mostras os 
documentos antigos, como um de 1381 (Santos, n.® 731): «arcaepuços 
e nora e alfacara». Estes dois últimos termos ass^ como as palavras 
«chafariz» e calmoinha» são de origem árabe. 

Os trechos seguintes documentam o que a cima digo: 

1429. «Almoynha com sua cassa que he acerca da porta de san 
Bicente da dita cidade ffora do muro que parte com bjnha de Basco 
Martijz e com o muro ^ com Azinhagaa per hu corre a agua». (Li* 
• vro 84 de S. Vicente, fl. 424 v). 

1437. tthua quintaft que he no teVmo da dita cidade acerca do Resio 
de santa barbora». (Livro 11 ásL Extremadura, fl. 126). 

1410. chorta emprazada e ^moinha com suas casas que soya de 
trazer ho espritall dos meninos que he acerqua de sam lazaro da dita 
cidade a par de bemfiqua que parte com caminho do concelho que vay 
pêra o dito sam lazaro de huua parte £ da outra com caminho e ai- 
moinha que soya trazer martim martijns. E com o oliud de sam Chrís- 
touam». (Livro 10 da Extremadura, fl. 81). 

1440. «hua almoinha com sua casa que o dito moesteiro ha no 
dito arraualde que parte com almoinha da see e doutra parte com o 
Rego que uem da Santa Barbora e doutra parte com caminho pubríco 
que uay pêra sam lazero». (Santos, n.® 638). 

1442. Horta da Larangeira ^ «omde chamam bemfica a cabo da mou- 
raria». (Dourados, de Alcobaça, i, fl. 70). 



^ Janto da horta da Larangeira foi construído no sec xri o convento do 
Desterro, hoje convertido em hospital. 



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o Archeologo Português 269 

1452. coliual com hila uinha qae esta acima da fomte da Rojos, 
acerqua da quintíta de JoJ da Veiga, caminho de Sacavém». (Livro 84 
de 8. Vicente, fl. 99). 

1455. Orta tabayxo do cnrral dos mouros e parte com orta do 
see que ora traz Joh% Farinha e com ferrageall de sam lazaro e com 
orta de D. Aluaro de Castro». (Santos, n.° 645). 

1463. corta qae esta Junto com a dita amtre ho chafariz de sancta 
baruora e a dita cidade». (Livro 7 da Extremadura, fl. 212). 

1466. cdous olyuaaes do dito seu moesteiro .s. huu que esta no 
chafariz de ssanta barbora que parte de hua parte com o olyuall do 
doctor lopo gonçalluez e doutra parte com oliuall de Joham lopez ca- 
ualeiro, morador a Santo André e da parte de cima emtesta com 
camjnho que vay pêra Santa Maria da Graça e da parte do fundo 
emtesta com horta de Joham Corrêa que ora traz Fradim». (Livro 14 
de S» Domingos, doe. 198). 

1489. Orta que cparte de híia parte c3 Rua publica que vay pêra 
a porta de Sam Vicente e da outra c8 caminho que vay pêra sam 
lazaro e doutra parte com o Èego que vem d'Arroios». (Santos, n.® 592). 

1502. fpartem de huila parte com caminho do Concelho que vay 
teer a Sam Lazaro e da outra com caminho e orta da Igreja de sam 
Lourenço e por de trás com oHual de sam Christouam e per diante 
com a dita Rua de bemfica». (Livro 9 da Extremadura, fl. 15 v). 

U 
A Honraria 

A populaçSo mourisca que ficou em Lisboa depois da conquista 
de 1147 devia ser composta na sua maior parte de índustriaes e de 
proprietários. Pouco a pouco ou de golpe, mas em todo o caso syste- 
maticamente, os mouros que viviam espalhados na cidade foram afas- 
tados para a encosta do monte em que se levanta o castello, na parte 
que olha para Nossa Senhora do Monte (monte de S. Gens), formando 
ahi uma povoação, a que se deu o nome de arraualde dos mouros, a 
qual ainda hoje permanece pouco mais ou menos, confundida, porém, 
no desdobramento successivo da cidade, de baixo do nome de mouraria. 

Na Chronica da fundação do mosteiro de S. Vicente (nos Port. Mon. 
Hist,, Scriptores, i, 408) diz-se que acerto número de cavalleiros mouros 
foi permittido ficar em Lisboa. Se dermos credito a esta noticia, havemos 
de julgar que estes cavalleiros residentes no arrabalde tinham bens nos 
arredores de Lisboa, que os nio obrigavam a exercer os officios me- 



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270 O Archeologo Português 

chanicos de olleiros, ferreiros, esteireiros ou esparteiros, Ho preferidos 
pelos orientaes. 

Até a extincç!to da liberdade religiosa em 1496 tinha o bairro dos 
mouros a denominaçlo de arrabalde dos mouros ou da mouraria e de- 
pois o de fvilla noua que soya seer mouraria da dita cidade» (docu- 
mento do anno de 1496, n.*^ 624 de Santos). 

Os mouros constituiam agremiação isolada com as suas autoridades 
• civis e religiosas e dependentes só do rei. O chefe civil era o alcaide 
dos mouros, e junto a elle havia escrivães ou tabelliies, no princípio 
só mahometanos. Tinham cadeia (Livro 2 da Extremadura, fl. 226, v). 
açougue, curral (em 1455, n.® 645 de Santos)^ t logea em que se rrecadam 
os direytos dos mouros da mourarya» (Livro 7 da Extremadura, fl. 134), 
e também escola (Livro 1 da Extremadura, fl. 177 v). 

Tinham uma mesquita grande (Livro 2 da Extremadura, fl. 220) 
convertida depois em templo christâo, e outra menor. (Livro 2 da Extre- 
madura, fl. 106 v). 

Em differentes pontos de Lisboa havia banhos, nSo sendo os mouros 
também desprovidos d*elles, se bem que no século xv já estes lhes 
tinham sido retirados, e o edifício passara a outros usos. Em 1436 
c casas de bainhes» (Livro 10 da Extremadura, fl. 212), «casas nossas 
que trás aíFonso Pirez oleyro que forom bainhes» (Id., fl. 203 v), «banhos 
do dito senhor» (Livro 1 da Chancdlaria de D. Duarte, fl. 235). 

Limites da Honraria 

Ficava a Mouraria entre as portas de Santo André e de S. Vicente, 
sem as alcançar, pois que lhes interpunham terrenos em que poste- 
riormente se foram construindo habitaçSes de ehrístSos. 

Os montes do Castello, da Graça e o de S. Gens estavam sobran- 
ceiros ao arrabalde mourisco, situado principalmente na encosta do pri- 
meiro d'estes. NSo sabemos porque fosse este sítio escolhido para resi- 
dência dos mouros forros ; talvez que por estar afastado do rio, evitando 
assim uma combinação militar com os seus correligionários de alem-Tejo 
ou mesmo do alem-mar. Quando D. Fernando lançou a Lisboa a sua 
cinta de pedra, deixou de fora da capital o arrabalde. Ignoro a razSo. 

Os limites da Mouraria nSo se podem, por emquanto, determinar 
exactamente. Pelo sul ficava a meio da encosta do Castello, pelo poente 
era limitada pela rua direita da porta de S. Vicente, hoje chamada 
da Mouraria, e pelo nascente nSo passava alem da entrada da rua da 
Amendoeira. Da parte do norte ainda é mídor a dúvida, porque era 
aqui onde se encontravam os almocavares dos judeus e dos mouros, os 
quaes terrenos foram depois cortados por diversas ruas, ao que parece. 



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o ArCHEOLOGO PORTUGtJÊS 271 

o lado sal nâo tem offerecido á Mouraria alteraç&o desde os tempos 
mais remotos; só agora tende a ser alterada profundamente com a 
creaçflo de um bairro nos terrenos do Marquez de Ponte-de-Lima. 

Rua de Bemfloa 

Do lado do poente o bairro dos mouros não passava alem das mo- 
dernas ruas da Mouraria e da rua de Bemformoso. Entre as almoinhas 
do valle e o sitio das Olarias encontra-se muitas vezes citada a rua 
de Bemfica. Este nome encontra-se actualmente numa freguesia dos 
arredores de Lisboa, a qual, segundo um documento de 1322, se cha- 
mava Benfica a noua a par de os Paaços dd Eej^. Na impossibilidade de 
determinar exactamente a rua que corresponde á rua de Bemfica, talvez 
a do Boi Formoso ou Bemformoso, aponto os seguintes documentos: 

1377. Casa térrea cque era no dito arraualde hu vendem as oUas 
junto com as casas dAly Pequeno hu chamo Bemfica». (Santos, n.** 623). 

1390. Almoinha em Bemfica a par do arraualde dos mouros». (Id^, 
n.» 668). 

1396. thu chama bem fyca na Rua Direita». (Id., n.^ 665). 

1418. «Rua de Bemfica e dapar do arraualde dos mouros forros». 
{Id., n.« 633). 

1438. c quatro portaaes que som no dito arraualde da mouraria E 
partem cd banhos do dito senhor e com casas dauãzano mouro e pella 
Rua Direita de bemfica per onde vendem a louça». {ChanceUaria de 
D. Duarte, i, 235). 

1440. chorta emprazada e almoynha com suas casas que soya de 
trazer ho esprltall dos meninos que he acerqua de sam lazaro da dita 
cidade a par de bemfiqua que parte com caminho do concelho que 
uay pêra o dito sam lazaro de huua parte. E da outra com caminho 
e almoinha que soya trazer martim martijnz. E com oliuall de sam 
christouSt». (Livro 10 da Extremadura, fl. 81). 

. 1442. Horta da Larangeira comde chamam bemfica a cabo da mou- 
raria». (Livro 1 dos Dourados de Alcobaça, fl. 70). 

1471. cE partem de hua parte com afilha da Cordeyra e da outrra 
com ^asas do Alcobacill e per fundo com a logea que he de Mafamede 
Lampeda e per diante com Rua dentro da mouraria e per detrás com 
Rua dereita da cristindade que se chama Rua da bemfica». (Livro 4 
da Extremadura, fl. 13). 



1 Archívo Nacional, caixa 100 da CoUecção Especial. Este pergaminho tem 
a seguinte nota que tira as dúvidas sobre a collocaçSo da povoação : «Pertence 
ao cazal, ao pé de S. Domingos de Bemfica, do Marques da Fronteira». 



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272 O ÂRCfHEOLOGO POBTUGUÉS 

1497. cPartem de huua parte com outras casas do dito seiior que 
trás o dito Lopo Roiz. E da outra parte com outras cazas do dito seãor 
que trás Gonçalo Diaz, oleyi*o. E por detrás com Rua que uay pêra 
Santo André. E per diante com Rua pubriqua de bemfica». (Livro 1 
da Extremadura, fl. 209). 

1498. Casa que cparte d^uua p^te oS casas de Joham do Ou- 
teiro, morador em bemfica e da outra com beco que atrauessa ambalas 
Ruas dereitas e per detrás emtesta cd becco qne nam tem sayda e por 
diante com Rua poblica». (Livro 1 da Extremadura^ fl. 187 t?)- 

1430. «Porta da Mouraria na rua que se diz de Bemfica». {Santos, 
n.*^ 587). 

1555. «Rua de Bemfiqua, da uma banda «Reguo dagoa que uem 
do chafariz darroios, outra banda Rua que vae para Sam Lazaro». 
(Santos, n.» 626). 

1573. «chfto que esta na Mouraria indo da rua direita onde esUU) 
as hortas para a calçada de Santo André onde se chama Rua de Bem- 
fica e Olarias». (Tombo da cidade, livro 2, fl. 242). 

1585. «Casas na Rua de Bemfica». (Jesuítas, maço 42, n.^ 42). 

Olarias 

NJo soffre dúvida, como já mostrei, que a rua dos Lagares, que 
torneja o monte da Graça, ficava na christandade. Para baixo, porém, 
ficavam as Olarias, que parece terem sido terreno mixto. ChrístovSo 
Rodrigues do Oliveira (em 1555) menciona duas ruas das olarias, uma 
de cima e outra de baixo. Hoje temos um largo (rua larga) das Olarias 
e uma rua também das Olarias. Nas citaçSes que faço aqui nfto des- 
criminei as propriedades pertencentes a mouros e a chrístSos, o que 
fica reservado para um outro trabalho ou para qualquer outro inves- 
tigador. 

1377. Casa térrea «que era no dito arraualde hu uendem as ollas 
junto com as casas de Alj Pequeno hu chamam Bemfica». (Santos, 
n.^ 633). 

1436. «duas tendas nossas conjuntas as quaaes son no arraualde 
dos mouros na rrua direita que vay da porta de sam vicente pêra fora 
e partem com a dita rrua e de todallas partes com casas nossas que 
trás Affonso Pirez oleyro que foram banhos e com azinhagua que 
emtesta na rrua qne vae. pêra a porta de samto amdré». (Livro 10 
da Extreniadura, fl. 203 v). 

1490. «partem de huua parte com outras casas do dito SnSor que 
ora trás Maria Roiz e de outra parte com azinhagaa que uaj pêra a 
porta de samto andre e por detrás com tenda que trás Costamça Do- 



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o Arciieologo Português 278 

mingaez que sam do dito SeBor e per diante com rraa pruuica do ar- 
raualde da mouraria». (Livro 3 da Estremadura, fll 7). 

1498. «parte de hua parte com tenda de R.** Annes oulleiro e de 
outra com tenda de Garcia lopez outrosi oulleiro E com hu seu quintall 
e entesta de hua parte com caminho puhriquo que uem da porta de 
damio amdree E uaal pêra o chafariz daRoios». (Livro 1 da Extre^ 
madura, fl. 39). , 

1499. (ctemdas dos oleiros» perante os quaes passava a a Rua qwe 
vaj da callçada de samta mairia da graça pêra a Rua direita da porta 
de sam uicemte». (Livro 2 da Extremadura, fl. 170 v). 

1501. aarraualde nouo da mouraria da dita cidade homde estão os 
oUeiros». (Livro 6 da Extremadura, fl. 105). 

1501. «caminho que uem da calçada de samto amdre que uay peras 
tendas dos mouros e emtesta o quymtal c5 tenda de Alie Azeyte 
{Id,, ibid,). 

1510. «temda que está nas olarias que partem de hua parte com 
temda que foy dalle almançor que hora he de mestre Jorge. E da outra 
com tenda que foy de ilafomede Roballo e por de trás cõ azinhaga 
que uay amte elle e ho logar (sic) de Pêro Lopez do Carualhal e per 
diante c(> ho almocouar que foy dos mouros». (Livro 13 da Extrema- 
dura, fl. 37 v). 

1548. «casas na dita cidade na mouraria na Rua dos Caualeyros 
que partem com Rua pubriqua e por de trás cS Rua das Olaryas». 
(Santos, n.« 1789)- 

Também se refere ao largo das Olarias, que vae da calçada de 
Santo André para a calçada do Monte, a seguinte citaçSo: 

1491. «Rua pruuica que uay da mouraria pêra santa maria do 
monte». (Livro Í2 da Extremadura, fl. 15). 

Tendas 

Nos documentos relativos ás Olarias apparecem citaç5es diversas 
de tendas de oleiros e de mouros, indicando umas vezes que ellas es^ 
tavam nas referidas Olarias, e outras vezes que estavam na sua frente. 
Effectivamente existe ainda hoje em frente do largo das Olarias uma 
rua pequena, intitulada das Tendas. 

Raa da Amendoeira 

Conserva este nome desde eras remotas : 

1394. «casas que sam no dito arraualde hu chamam a amendoeira». 
(Livro 11 da Extremadura, fl. 81 v). 

1397. «casas no arraualde suso dito hu chamam a amendoaria (»/c)n. 

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274 O Archeologo Portuguêô 



Rua da Amoreira 

Por agora basta só determinar que o termo mouraria apparece nal- 
guns documentos moureira, como por exemplo em 1434: cRna Direita 
da Moureira». (Santos, n,^ 647). O beco hoje chamado da Guia cha- 
mava-se no século passado beco da Amoreira. Temos portanto duas 
derivações do termo amoreira ambas plausíveis: a de mouraria e a do 
nome da arvore. 

Rna de Jo&o do Outeiro 

Não sei qual era o nome primitivo d'esta rua. Num documento de 
1498 (Livro 1 da Extremadura, fl. 187 v) lê-se: Joham do Outeiro, 
morador em Bemfíca. 

Roa do Capell&o 

NEo posso determinar a epocha em que se começou a usar esta 
denominação; na emtanto inclino-me a que provenha do sacerdote da 
mesquita intitulado capellão. O ultimo capellão mouro em Lisboa cha- 
mava-se Mafamede Laparo. 

Raa dos Oavalleiros 

Só no século xvi começou a haver esta designaçUo: 

1431. c casas que elle ha em lixboa no arraualde dos mouros que 
Boyam de seer banhos e partem com casas de raeestre mafamede fisico 
e com caminho pruuico que uay pêra santarem e com azinhagua pu- 
brica que saae pêra o caminho que uay pêra a porta (nc) de sam vi- 
cemte e com tendas do dito senhor». (Chancellatna de D. João I, livro 4, 
fl. 88). 

1436. «com casas nossas que trás Affonso Pirez oleyro que forom 
banhos e com azinhagua que emtesta na rrua que vaj pêra a porta 
de samto amdré». (Livro 10 da Extremadura, fl. 203). 

1436. (( casas que foram banhos as quaes estam em o arraualde 
dos mouros da dita cidade e partem ao leuamte com caminho pubrico 
que vay pêra a porta de samto amdré». (Id,, fl. 213 v). 

1499. cRua que vaj da callçada de samta maria da graça pêra 
Rua direita da porta de sam vicem te peramte as temdas dos oleiros». 
(Livro 2 da Extremaiura, fl. 170 v). 

1501. c caminho que uem da calçada de samto amdré que uay pêra 
tendas dos mouros». (Livro 6 da Extremadura, fl. 106). 

1Õ48. «huas casas na dita cidade na mourarya na Rua dos Caua- 
leyros que partem com Rua pubriqua e por de trás c8 Rua das Ho- 
laryas. . . » (Santos, n.* 1789). 



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o Aecheologo Pobtuguês 275 



Roa da OamegArla 

São duas as citaçSes : crua que vay das cartieçarias dos ditos mouros 
pêra çimat, em 1430 (Livro 10 da Extremadura, fl. 21 t?); e simples- 
mente Rua da Cameqaria, em 1497 (Livro 1 da Extremadura, fl. 48 v). 

Ooml dos Mouros 

Devia ficar próximo da Rua da Carneçaría. ChristovSo Rodrigues 
de Oliveira menciona em 1551 o beco do curralínho. 

1420. ccurral onde os mouros matam seu gaado que partem com 
caminho que vae pêra sam lazaro». (Santos, n.^ 662). 

1455. «Curral dos mouros». (Id., n.® 645). 

1586. «ohSos acima da pomte de sam lazaro omde se chama 

o enrralinho». (Jesuítas, maço 2, pacote 7). 

Ruas nlo idenilflcadaa 

Alem das ruas n&o identificadas, já a cima inscriptas, aponto ainda 
as seguintes: 

1497. «Rua dahnamon (?)». (Santos, n.^ 625). 

1436. «em o arrauallde dos mouros em fim da rrua gramde acerqua 
da porta da mouraria que uay pêra samto amdré». (Livro 10 da Extre- 
madura, fl. 214). 

1471. «Rua de demtro da mouraria». (Livro 4 da Extremadura, 
fl. 13). 

As Portas da Mouraria 

Tanto as mourarias como as judarias eram fechadas, tendo algumas 
portas para as communicaçSes exteriores. Os* documentos revelam-nos 
a existência, quanto á mouraria de Lisboa, de talvez três portas. 

1436. «as qoaaes eram dentro em o arraualde dos mouros em fim 
da rrua grande acerqua da porta da mouraria que uay pêra samto 
amdré». (Livro 10 da Extremadura, fl. 224). 

1474. «alem do poço dos mouros contra a porta da dita mourarya». 
(Livro 7 da Extremadura, fl. 134). 

1499. «Rua dereita que vay da porta daalem do poço pêra cima». 
(Santos, n.^ 624). 

1513. «Ruas que uem da porta da mouraria e vfto pêra ho caminho 
que vay da porta de samtamdre por de trás das casas pello pee da 
costa de Sancta maria da graça». (Livro 13 da Extremadura, fl. 96 v). 

1530. «Porta da mouraria na rua que se diz de Bemfica». (Santos, 
n.« 587). 



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276 O Archeologo Português 



Chãos 

Junto do arrabalde dos mouros havia ainda depois da expulsão 
doestes vários terrenos que partiam com os almocavares. 

1498. «cMo parte de huua parte com calçada {de Santo André)i^. 
(Livro 1 da Extremadura, fl. 231 v). 

1502. «chSo que parte com o caminho que uem da calçada de Santo 
André para os lagares dazeite». (Livro 9 da Extremadura, fl. 162 v). 

1503. «chSo que parte do norte com almocovar que foi dos judeus». 
{Id., fl. 31 v). 

1503. «chão que esta no arabalde da mouraria perto do almocauar». 
(Livro 13 da Extremadura, fl. 97). 

1513. «chíto que esta no raball da mouraria». {Id., fl. 96 r). 

Almocavares 

Significa o termo árabe almocavar a cemitério». Segundo parece, o 
almocavar dos mouros na encosta de Nossa Senhora do Monte* já existia 
no tempo da conquista de 1147. Diz Osberno in médio montis qtw eraJt 
eorum (dos mouros) cimiterium. Naturalmente teriam mais cemitérios 
os mouros, mas foi só o almocavar, junto do arrabalde, que perseverou. 
Logo depois da extincçâo da mouraria foi o cemitério dos mouros, 
bem como o dos judeus, aforado em diversos talhões, e a pedraria dos 
jazigos foi dispersada na construcçao do Hospital de Todos-os-Santos, 
de forma tal que até hoje ainda não appareceu uma única inscripçSo 
que se tenha salvo. Idêntica ruina soffreram os livros d'aquellas duas 
raças, aos descendentes das quaes foi prohibido escreverem nos seus 
respectivos idiomas. 

Os limites dos dois almocavares nSo os sei indicar; no emtanto 
parece-me que os terrenos situados entre a Rua de Bemformoso, Largo 
das Olarias e Ruas de Bella Vista do Monte e do Terreirinho até o 
largo do Intendente ou travessa da Cruz, bem podiam ter servido de 
cemitério aos mouros e judeus. Este terreno será grande relativamente 
á superfície da mouraria, mas é preciso notar que a maior parte d'elle 
pertenceria aos judeus e que os mouros dos arredores faziam-se en- 
terrar talvez aqui. 

Parte das ruas neste sitio dos almocavares mudaram as primitivas 
designações. A rua hoje chamada das Olarias denominava-se, no século 



* Um documento de 27 de Outubro de 1284 (Caixa 86 da CoUecção Especial) 
diz : «campo. . . in termino Ulixbon. ubi uocatur mons sancti Jenesij prope domos 
ffratrom heremi taram ordinis sancti Agnstini». 



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o Archeologo Português 277 

passado, do Rosário ou de Nossa Senhora do Rosário, a da Bombarda 
rua do Muro-Novo e a calçada do Forno do Tijolo calçada do Almo- 
cavar*. No em tanto o nome Bombarda já apparece no século xvi. 

1491. «as ditas casas estam no almocouar que foi dos mouros nas 
ollarias que partem da parte do norte com casas do dito senhor que 
trás garcia lopez e do sul com casas de fernandeanes e por diante com 
Rua pruuica que vay da mouraria pêra santa maria do montei (Livro 12 
da Extremadura, fl. 15). 

1499. Chão «assy como parte ao norte com casas da see que ora 
trás afomseanes oleiro. E com chaão do dito esprital grande. E ao 
sul com azinhagaa e seruentia. E ao leuante com ho almocauar dos 
mouros que foy. E ao poente com Rua pubrica que nem dereita da 
porta de santandre. E com outras confrontaçSes». (Livro 1 da Extre- 
madura, fl. 183 v). 

1499. «o qual chaão estaa na Rua que vay da callçada de samta 
maria da graça pêra a Rua direita da porta de sam vicemte peramte 
as tomdas dos oleiros e parte com a dita Rua e da ouira parte com 
tendas de Joham Roiz oleiro e da outra parte com casas que ora faz 
Antam Gonçalluez cbristafto nouo e da parte de cima com Resio que 
Qoya ser almocauar dos mouros». (Livro 2 da Extremadura, fl. 170 v). 

1503. clagar dazeite no almocouar». (Livro 9 da Extremadura, fl. 
170 v). 

1503. cChSo no arrabalde da par da mouraria o qual parte ao 
norte com almocovar' que foi dos judeus. (Id., fl. 31 v). 

1503. «chSo que esta no araballde da mouraria que parte de huua 
parte com casas que foram de Antam Gonçalluez e agora he de seu 
filho e com outro chaSo que he aforado a Joham Fernandez que he 
do dito senhor e com rrua que vay da mouraria pêra o almocouar e 
da outra parte com outra rua que vay da porta da dita mouraria e 
vay pêra ho almocouar». (Livro 13 da Extremadura, fl. 97). 

1510. ca dita temda que está nas olarias que partem de huua parte 
com tenda que foy dalle almançor que hora he de mestre Jorge E 
da outra com tenda que foy de Mafomede Roballo e por de trás c3 
azinhaga que vay amte elle e ho logar (sic) de Pêro Lopez do Carualhal 
e per diamte c5 ho almocouar que foy dos mouros». (Livro 13 da Ex- 
tremadura, fl. 97). 



1 Pelo exame das plantas das freguesias de Lisboa, levantadas pelo sargento 
Mór Joseph Monteiro de Carvalho, depois do terremoto e que se conservam no 
Archivo Nacional. 



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278 O Archeologo Português 

1573. cTem a cidade umas casas térreas e um quintal tudo mis- 
tioo em um aforamento do almocauar dos Judeus que é ao pé de N. 
S/ do Monte, abaixo da casa da bombarda, e estSo as ditas casas na 
rua que sae do dito almocavar para a calçada de pé de Nossa Senhora 
do Monte». {Torréo de Lisboa existente na Gamara Municipal, livro 2, 
fl. 174). 

III 

As Freguesias 

A egreja de Santa Justa ficou pertencendo, desde 1496, a adminis- 
tração dos catholicos que habitavam nSo só a Mouraria, mas todo o valle 
até Arroios. Pelo tempo adeante os terrenos destinados a agricultura 
foram emprazados, e sobre elles construiram-se numerosas habitaçSes, 
de forma que no meado do século xvi já se sentia a necessidade da 
criação de nova freguesia como se vê pela carta transcripta a baixo. 
Do desdobramento de Santa Justa nasceram as duas freguesias do 
Soccorro e dos Anjos. A freguesia do Soccorro teve a sede primeira- 
mente na ermida de São Sebasti?Lo da Mouraria ou da Saúde e só depois, 
no século xvii, recebeu com a actual egreja o nome que permanece. 

Desde o século xiv que conhecemos a existência da ermida de 
Santa Barbara, mas o sitio onde estava collocado fica envolto em trevas. 
O sr. Visconde de Castilho {Lisboa Antiga, vii, 56 sqq.) nSo conseguiu 
explicar completamente este facto. Segundo investigaçSes, ainda in- 
completas, parece-me poder affirmar que a primitiva ermida de Santa 
Barbara estava assente se n%o onde a actual egreja dos Anjos, pelo 
menos muito próximo a ella. Durante muito tempo a rua direita dos 
Anjbs teve o nome da rua direita de Santa Barbara. Ainda mais: no 
século XVI e parte do xvii, quando se falia nas hortas do valle de S. Jor- 
dSo, que chegava até a entrada da rua de Bemformoso (Escola de Boi 
Formoso), acrescenta-se — junto á egreja de Santa Barbara. Eviden- 
temente ha aqui confusSo tal que só novos elementos poderSo aclarar. 

O documento que se segue — simples minuta — nâo é datado. 

fDom Joham per graça de Deus, Rey de portugal etc, como go- 
vernador e perpetuo administrador que sam da ordem e cauallaria do 
mestrado de noso senhor Jhuu Christo A quamtos esta minha carta 
virem faço saber que por virtude das bulias appostolicas das noue 
comendas da dieta ordem foy feita noua comenda da mesma ordem 
na ygreja de samcta Justa desta cidade de Lixboa da terça dos beSs 
e Remdas da dieta ygreja que era do Priorado e Reitoria dela ficando 
o Rector com seu certa stipendio na forma das dietas bulias. E avemdo 



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o Archeolooo Português 279 

eu ora Respecto como a dieta ygreja de saneia Justa he das Prineipaes 
ygrejas desta cidade E a gramdeza da freiguesia dela em que ha três 
mil e seyseemtos foguos e ao tempo que asy em ela se fez a dieta 
nova comenda jaa era como he de muito grande freiguesia e vay cada 
vez em moor crescimento. E por sua tam gramde freiguesia tem gramde 
e euidente necesidade de se fazer na parrochia em Santo Amtam da 
Mouraria outra noua ygreja com ajuda da matriz e fazerem-se e acre- 
cemtarem-se mais dous nouos beneficiados na dieta ygreja de sam- 
eta Justa que sejam oyto com os seys beneficiados que ao presente 
nela ha afora o Reetor e para yso se suprimir a dieta noua comenda 
que em ela foy feita e dos beSs e Remdas dela que sam da dieta ordem 
se ordenarem fundarem e dotarem os dietos dous nouos beneficies e 
apricar-se a toda a masa da ygreja no modo abaixo declarado E asy 
se tornar aa dieta ygreja domde sayo pola grande necesidade dela e 
polo auer por muito seruiço de Deus e bem da dieta ygreja o asemtey 
assy com o arcebispo de LixbSa meu muito prezado primo e meu ca- 
peiem moor com aprazimento também dos seys beneficiados e reetor 
da dita ygreja de sameta Justa que a todo deram per seu compromisso 
sobre elo feito. Pelo que por esta presente suprimo e ey por suprimida 
em todo para sempre a dieta noua comenda da dieta ygreja de sameta 
Justa que mays a nam aja nela daqui em díamte. Ete.»^ 

Pedro A. de Azevedo. 



Torre de D. Chama 
Bnlnae de S. Brax 

Já n'0 Archeologo Português, i, 232-237, o Sr. Castro Lopo, de 
Valpaços, nos dá muitas e curiosas informaçSes areheologieas da Torre 
de D. Chama e do Cabeço que lhe fica próximo, sobranceiro e a nor- 
deste, conhecido pelo nome de S. Brás, por nelle se erguer uma modesta 
capella em que se venera este santo. De encostas Íngremes e cobertas 
de enormes rochedos de granito, em que nas rareiras vegeta a vinha 
e alguma arvore de frueto, apresenta na parte superior, em volta da 
ermida, as ruinas de um castro cujos restos de espessa muralha for- 
mada de pedra e cimento ainda se descobrem em partes. 

Aos vestígios que se encontram á superfieie já se refere com profi- 
ciência a noticia mencionada, e a que temos agora mais de aeereseentar 



* Archivo Nacional, Collecçõo de S. Vicente, tomo viii, fl. 159. 



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280 O Arciieologo Poutcguês 

que durante o nosso reconhecimento, que nelle fizemos, viemos a saber 
que teínpos antes, um individuo, andando a cavar na encosta, descobriu 
ain caixão de cobre muito pesado por estar cheio, como verificaram 
depois, de machados de cobre, uns em forma de cunha e outros como 
indica o desenho, tirado do único exemplar que resta e que possne ó 
iilus trado e reverendo parocho P.® José Videira; pois os outros, bem 
come o caixão, foram destruídos por um ferreiro na persuasão que 
eram de ouro. Na occasião em que este meu amigo m'o mostrou e pro- 
mettcu para o Museu, apresentou-me também alguns fragmentos do 
caixão que indicavam ser de um fabrico muito rudimentar; e me deu 
algumas moedas romanas de prata e cobre encontradas neste sítio, 
sendo a mais antiga um quinario, cunhado pela familia Carisia e que 
dizem calludem á derrota dos cantabros e dos osturianos por Public 
Carisio que fundou a colónia de Emérita, depois capital da Lusitânia *: 




Vi do tamanho natural 

Anverso — AVGVST — cabeça nua: de Octávio á direita. Reverso — 
P. CARI SI LEG — Victoria coroando um tropheu. 

Incontestavelmente S. Brás guarda neste local muitos «thesourosi, 
pois julgamos esta estação archaica muito curiosa e digna de serio e 
demorado estudo, porque me parece que ha nella «signaes» que devem 
elucidar e esclarecer bastante a epocha a que pertence. 

Quer-me parecer que este «castro», pela sua posição a cavalleiro 
de uma planicie fertilissima, onde se encontram restos de mais povoa- 
ções extinctas, cuja defensa foi insignificante, e pela natureza e grande 
valor defensivo da sua fortificação, servia de oppidum de refugio a todos 
esses povoados nas occasiSes de perigo commum. 

Bragança, Abril 1900. 

Albino Pjereira Loro. 

^ Descripção histórica das moedas romanas, por A. C. Teixeira de Aragão, 
pag. 180, Lisboa 1870. 



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o Archeologo P0BTD6UÊ8 281 



Carranoa de bronze romana 

O objecto que se figura aqui em tamanho natural pertence ao Sr. 
Teixeira de Aragão, e foi encontrado no Algarve. 

Como este ha alguns no Museu Ethnologico, e tenho visto muitos 
em museus estrangeiros, o que prova que nâo temos aqui um producto 
de arte indigena, mas um objecto de importação. 




Constitue a asa de uma sitttla: em virtude da acção do tempo, 
separou-se d'ella, e perdeu-se, até que veiu modernamente parar a uma 
coUecçâo archeologica. 

A fidelidade do desenho * dispensa maior descripçao. 

J. L. DE V. 



Notioias preMstorioas 

1. Dolmens no concelho de YlUa Poaca de Ágaiar 

Na freguesia de S. Martinho de Barraes, no termo da povoação 
da Lagoa, perto do sítio chamado Penedos Alvos, encontram-se alguns 
dolmens que ainda não vimos. 

O mesmo nos dizem os nossos infoinnadores acontecer no termo 
de Vallongas, a nascente da povoação. 



Foi feito pelo Sr. Gabriel Pereira. 

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282 O Archeologo Português 

Na fregaesia das Tresminas, no termo da Fiihagosai tanto ao SOE., 
como a SE., ha grande numero de doimena devassados na sua grande 
maioria, senfto totalidade, com o fim de se aproveitarem os esteios, que 
sSo de granito, para a construcçâo de cvòos de moinhos e para paredes 
das bouças. * 

Todos os dolmens encontrados estfto nos montes e nlo nas pequenas 
ribeiras doesta freguesia, em que ha muitos vestígios dos Romanos, sobre- 
saindo os celebres Lagos de que se occupou Argote no volume ii das 
Memorias do Arcebispado de Braga, pag. 478. 

Nas informaçSes que deram a este benemérito escríptor nSo lhe 
mencionaram dois grandes túneis abertos na rocha para facilitar o trans- 
porte do minério, cuja exploração deu em resultado o lago de Covas. 

A seu tempo havemos de comparar o que diz Argote com o que 
se observa actualmente. 

No termo de Àifarella de Jalles encontram-se alguns dolmens, se- 
gundo me informam pessoas dignas de credito. 

2. Dolment no concelho da Blbelra da Pena 

Até o presente só podemos averiguar a existência de dolmens no 
termo da povoação chamada Concelho, a nascente, no sítio denominado 
o Marco, e no termo da povoação de Santa Eulália. Nos baldios de 
uma e de outra povoação ha muitos dolmens, segundo nos dizem. 

8. Dolmens no concelho de Sabrosa 

Na freguesia de S. Martinho de Anta existem alguns dolmens que 
não pudemos ainda examinar, o que faremos na primeira occasiio. 
Villa Real, 21 de Março de 1899. 

Henrique Botelho. 



Antlgruidades romanas de Lisboa 

Últimos descobrimentos 

Gozou Lishoa de muita importância na antiguidade, o que sabemos 
não só pela historia propriamente dita, mas pelos monumentos, nlo 
obstante haver-se perdido grande parte d'estes, já em tempos modernos. 
E assim que do avultado número de inscripç5es romanas que se citam 
no Corpus Inscriptionum Latinaram restam poucas hoje. 



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o Archeoloqo Pobtuquês 283 

NSo admira, por conseguinte, que de vez em quando o seio da terra 
nos offereça algumas curiosidades archeologicas, por occasilo de ex- 
cavações casnaes que nelle se fazem. Aqui darei noticia dos últimos 
descobrimentos da ep^cha lusitano-romana. 

1. Largo de S. Domingos 

Quando se procedeu aos trabalhos para o estabelecimento do as- 
censor de S. Sebastião da Pedreira, appareceram no largo de S. Do- 
mingos vestigios de construcç5es, ossadas humanas e ao mesmo tempo 
duas inscrípçSes do tempo dos Romanos. Uma doestas foi publicada 
n-0 Arckeologo Português, v, 173; a outra está incompleta (dimensões 
0,33 X 0,26) e só nella se decifra com certeza: SOMI. . . lOI. . . II, 
em três linhas, tendo cada lettra a altura de 0,65. Ambas são de cal- 
careo, e estio agora no Museu Ethnologico, com as. ossadas e vários 
tijolos rectangulares (em latim IcUerea)^ alguns doestes marcados grossei- 
ramente com uma espécie de N. Também appareceram do mesmo logar 
gi*Ios de trigo carbonizados. — Todos estes restos sJo de certo poste- 
riores ao século ii da era Christã. 

Ao Srs. Presidente da Camará Municipal de Lisboa e da Compa- 
nhia deViaçSo Funicular deve o Museu a acquisiçao (1898) d*estes 
monumentos da historia antiga da nossa capital. 

2. Maralhas do Castello 

Tendo-me o Sr. Mesquita Figueiredo dito que nas muralhas do 
Castello, em certo ponto, havia uma pedra com feitio especial, a qual 
denotava ser monumento romano, mandei arrancá-la, e verifiquei que 
nella se lia a seguinte inscripçSo funerária romana: 

lATIQ 

ASPRO AN XX 
VIIII CALVEN 
TIA IVLIANA 
MABITO PUS 
SIMOF.C. 

Isto é: ... atio Aapro, an(norum) 29, Calventia luliana marUo 
piisimo /(cudendum) c(uraui)t, cuja traducçSo nSo offerece dificuldade. 
Na primeira linha falta o praenomen e parte do namen, que acabava 
em -atítM ou tatius; dos diversos nomina gentUitía, taes como Atius, 
BarbaHu9, CuriatiiíS, Egnatius, Horatius, LutcUitis, Muratius, Optatius, 
Statius, Tenatius, o que convém bem aqui é Lutatíus ou, como pre- 



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284 O Archeologo Português 

firo, Optaiius, por causa do espaço. Optatitis, com Optátinus, deriva 
de Optatus; é curioso que em inscripç3es de Lisboa se encontrem estes 
dois últimos nomes. O cognomen na nossa inscripção é Asper, em da* 
tivo Aspiro, em vez de Áspero; a forma Aspro encontra-se também 
numa inscripçio de Hespanha: Corp. Inscr. Lat,, n, 5673; a própria 
litteratura latina nos ofFerece nspro (syncope). O nome Calventia, da 
esposa de Asper, apparece frequentemente em inscripçSes, embora não 
se leia de modo certo em nenhuma da Peninsula; mas lê-se numa d^elias 
o derivado Calventianus: vid. Corp, Inscr. Lat., ii, 4335. — A pedra tem 
estas dimensões: 0™,46 X(r,275; falta-lhe aparte superior, pelo que 
nJo se pôde saber se repi^esentava uma árula ou um simples cippo* 
As lettras teem de altura 0'",20 e parece indicarem o século i da Era 
Christa. 

8. Cerca do Convento de Jesns 

« 

Ahi encontrou também o Sr. Figueiredo uma placa de pedra com 
inscripçlo romana, que fiz igualmente transportar para o Museu Ethno- 
lógico. Depois que alli chegou, verifiquei que já havia sido publicada.no 
Corp. Inscr, LaU, II, 253, mas com inexactidões. Aqui dou a cópia fiel: 

DMS 

TILIMACO 

ANNLX 

NEMESIVS 

PATRI PIEN 

... MO 

FC 

Na 2.* linha: Tílhnaco em vez de Tdemacho, o que parece indicar 
certa peculiaridade da pronuncia popular do grego. Com efieito este 
nome é grego, como o seguinte que deriva de Némesis. Tanto Telemaco 
como Nemésio eram provavelmente escravos. — Na linha 6.* ha-de su- 
bentender-se tissi, que completa as syllabas antecedentes e seguintes; 
a palavra completa é pientissimo, — E interessante notar que nas in- 
scripç^es de Olisipo se encontram outros nomes gregos, taes como : Eu- 
porius, Daphnus, Amaranthus, EiUichus, Chreste, Zozimo, Thymele. — 
O campo da inscripçJo é quadrado: 0™,28 X 0™,28. As lettras teem 
de alto 0,03 a 0,035. — Esta inscripçio nSo a julgo anterior ao século 
II da Era Christã. 

4. Crasta da Sé 

Em excavaçoes que por conta do Ministério das Obras Publicas se 
tem feito na crasta da Sé cathedral tem apparecido, nos entulhos, va- 



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o Archeologo Português 285 

rias antiguidades. Segnndo determinação especial, emanada d^aquelle 
Ministério, ficou pertencendo ao Museu Ethnologico Português o direito 
da posse de todos os objectos antigos encontrados lá. NSo appareceu, 
porém, que eu saiba, cousa de grande valor. 

O que recebi no Museu foi o seguinte: uma pedra apparelhada; 
vários fragmentos de amphoras e de tegulas; um cossoiro, ou verticillus, 
de barro negro; vários fragmentos de loiça pintada. Também lá se 
encontraram muitas conchas, o que costuma acontecer nas estações ro- 
manas, |)or vezes. Hesitei a principio se devia attribuir ou não á epocha 
romana a loiça pintada; todavia, de um lado a concomitância do ap^ 
parecimento dos demais objectos, do outro o facto de eu ter visto loiça 
igual em museus da Suiça, etc, dada como romana, levam-me agora 
a suppor possível a romanicidade da nossa loiça da Sé. 

Nada tem estranho o apparecimento de objectos romanos no local 
da Sé, porque é sabido que bem perto se encontraram antigamente 
muitos. No vizinho sitio das Pedras Negras se vêem ainda numa pa* 
rede algumas inscripçSes; e mettidas nos próprios muros da Sé ha 
lapides provenientes de epochas antigas. 

Com 08 objectos mencionados em primeiro logar, encontraram-se, 
também nos entulhos, vários seixos rolados, com vestigios de percussão; 
estes seixos foram sem dúvida utilizados como percutores, e eu tenho 
visto muitos iguaes em museus estrangeiros. Como taes instnimentos 
porém pouco tem especial, torna-se diflScil marcar-lhQ3 epocha certa, 
mas é provável que sejam contemporâneos dos outros. 

Todos estes objectos estavam enterrados a uns 6 metros de pro- 
fundidade. 

5. Moedas romanas de differentes sitlos de Lisboa 

Possuo djias moedas ibéricas, achadas, ao que me disseram, no 
bairro de D. Estephania: um denario de Osca, com caracteres indí- 
genas; um bronze mediano de Arze-Saguntum. Consta- me que com 
a primeira appareceram outras, mas não as vi. O denario appareceu 
em 1892; a outra naoeda em 1893. A primeira pertence á classe que 
recebeu dos historiadores romanos o nome de argentam Oscense. 

No bairro novo de Camões, a Santa Martha, appareceram, segundo 
o que me disseram, varias moedas romanas de cobre, que adquiri para 
o Museu na occasiâo (1900): são de Cláudio II (sec. iii), de Constan- 
tino I (sec. iv), etc. — Com estas moedas appareceu um pedacito de 
cobre informe. 

No terreno pertencente ao Convento da Encarnação (ás escadas 
de S. Luia da Pena) appareceram várias moedas que vi, mas que não 



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286 O Archeolooo Português 

pude obter; um denario de Augusto (sec. i), um bronze mediano de 
Maxencio (sec. iv), etc. 

O Sr. Pedro de Azevedo offereceu ao Museu duas moedas de cobre: 
uma de Constantino II (sec. iv), outra de Honório (sec. iv-v), a pri- 
meira acliada no Alto do VarejiU), ambas em 1898; não se pôde, porém, 
dizer se estas moedas determinam nos referidos locaes epocha romana, 
por isso que de envolta com eilas estavam moedas portuguesas. 

Por intermédio do Sr. Dr. Sousa Viterbo, foi-me offerecido para 
o Museu pelo Sr. Carlos Reis um bronze mediano de cobre, cunhado 
em Emérita (sec. i), e encontrado no quintal da casa n.® 10 da R. de 
S. Joaquim, a Santa Isabel, onde actualmente habito. Este anno encon- 
traram-se no mesmo quintal uns pequeníssimos fragmentos metallicos, 
alguns como de bronzes mínimos da epocha romana, mas em tSo mau 
estado que nada pôde dizer-se ao certo o que seriam. 

O apparecimento em Lisboa de moedas ibéricas cunhadas na Hes- 
panha vem confirmar o que já por mais de uma vez tenho dito nou- 
tros escriptos: que as moedas cunhadas em certos pontos da Penin- 
sula corriam noutros muitos distantes. 



Do que fica exposto vê-se que se alargou um pouco o conhecimento 
da historia da jiossa capital na epocha lusitano-romana, em que ella 
se chamava Olisipo. E d'este nome, na forma Olisipona, que vem o 
moderno nome Lisboa, que passou pela forma intermédia Litòda, que 
se usava antigamente, e ainda agora se ouve na boca dos saloios. 
A melhor orthographia do nome antígo é Olisipo, com um p, porque 
só um p intervocalico, e nfto dois, se podia na pronuncia abrandar em 
h. Como porém algumas vezes se encontra escripto em documentos roma- 
nos Olisippo, isto prova que o i da penúltima sjllaba era longo, e por 
tanto accentuado, segundo uma lei bem conhecida da prosódia latína: 
d'onde se condue que se ha de pronunciar Olisipo, e nSo Olisipo. 
Pelo menos é isto o que me parece. 



As pessoas que estiverem no caso de dar informaçSes sobre anti- 
guidades de qualquer ponto do pais, principalmente das epochas ro- 
mana e pre-romana, e ás que, possuindo objectos antigos, os puderem 
dispensar, tomo a liberdade de pedir que me enviem as noticias para 
serem publicadas em O Archeologo Português, e offereçam os objectos 



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o ÂRCHEOLOGO PoBTUGUÊS 287 

ao Museu Ethnologico Português, onde ficam ao alcance de todos os 
estudiosos. Em qualquer dos casos a correspondência deve ser-me di- 
rigida para a Bibliotheca Nacional de Lisboa. O Archeologo Português 
conta já cinco volumes, e tem sido coliaborado por muitos archeologos 
nacionaes e estrangeiros. O Museu Ethnologico, com quanto esteja 
ainda em começo, desenvolve-se todos os dias, e maior incremento 
tomará em breve, mercê do auxilio que me foi promettido; todavia, 
para attingir o desideratum, precisa da cooperaçSo de todos. A aroheo- 
logia nSo constituo meramente uma curiosidade ou um luxo; ella illu- 
mina a historia do passado, faz que o comprehendamos melhor, e, 
fortificando-nos no conhecimento das nossas cousas, ajuda-nos a termos 
noçSo mais clara e completa da pátria. Assim o entendem todos os 
países cultos: por isso nelles abundam ricos museus archeologicos, 
que sSo ao mesmo tempo enlevo dos olhos, e fonte perenne de instrucçto 
histórica, e de educaçXo do sentimento nacional. 

J. L. DE V. 



Amuletos 



Ha muitos annos que me occupo dos nossos amuletos, já reunindo 
exemplares, que pela maior parte tenho guardados no Museu Ethno- 
logico, já tomando notas na bibliographia nacional e estrangeira. Logo 
que outros trabalhos m'o permittam, publicarei sobre elles um livro 
especial, ou um capitulo que faça parte de obra de plano mais genérico. 
Esse estudo constará pouco mais ou menos das seguintes secções: 

IntrodocçXo : 

I. DefiniçXo e theoria geral dos amuletos : cfr. o opúsculo Siir les 
amulettes portugaises, pag. 3 sqq.; e as Religiões da LiisUania, i, 111 
sqq. 

II. Uso geral dos amuletos nos differentes povos. Bibliographia cor* 
respondente. 

III. CtassificaçSo dos amuletos: cfr. o referido opúsculo Sur les 
amuUiUs, pag. 6 sqq. 

IV. Chronologia histórica dos nossos amuletos: pre-romanos, ro- 
manos, medievaes, modernos ; amuletos christSos (relíquias, agnus-Dei, 
verónicas, etc). 

V. Fontes de estudo dos amuletos portugueses: 1) arte e litteratura 
ení gerai; 2) biUtographia especial; 3) tradiçSo popular moderna. 



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288 



O ArcheoLogo Português 



A arte e a litteratura ministram alguns elementos, sobretudo em 
relação ao passado. A bibliograpliia especial é peqnena: alguns folhetos 
e artigos meus, e um artigo de António Pires, que condensam os factos 
principaes; notas avulsas publicadas em periódicos, como Revista do 
Minho, Revista Lusitana, Revista Archeologica, Portugalui, Tradição^, 
ou em obras de caracter mais extenso (de Theoplulo Braga, Adolfo 
Coelho, etc). A principal fonte de que me sirvo é a tradiçito popular. 

DescripçXo especial: 

O artigo sobre cada amuleto constará da descripçHo d'este, e das 
necessárias ou possíveis indicações bibliographicas e históricas que 
vierem a propósito. Será também acompanhado de uma estampa, de 
que se dão aqui algumas amostras (tamanho natural): 




1. Sino-saimão simplez (Signum Salomonis), que é um dos nossos 
amuletos mais vulgares (também ha o sino-saimSo dobrado); o exem 
piar acima figurado é feito de osso. 





2. Sino-saimao inscrito num circulo : o exemplar acima figurado em 
primeiro lugar é feito de chumbo (nas orlas ha uns pontos coloridos), 



^ Em algumas doestas revistas dizem-se, porém, cousas que já estavam ditas 
antes, e nem todos os objectos ahi dados como amuletos o são. 



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o ÂBCHEOLOGO POBTUGUÊS 



289 



e só o tenho por ora visto no Minho ; o exemplar figurado em segundo 
lugar é feito de prata. 






3. Meia-lua: os exemplares acima figurados em primeiro lugar sSo 
de prata; o figurado em terceiro lugar é de cobre (chapa de uma moeda). 





4. Amuletos pantheos: chamo-lhes assim, por serem constituídos por 
diversos elementos que formam um todo: no primeiro aqui figurado 
entra a meia-lua e a figa; no segundo os mesmos elementos, e alem 
d'is8o o sino-saimao e a chave: o aspecto geral, porém, de cada um 
é de meia-lua. Ambos estes são de prata. 

Conclusão: 

Em muitas localidades os amuletos tem mais vida que noutras. 
Muitas vezes os amuletos propriamente pagãos são substituidos por 
amuletos christãos (cruz, etc), ou passam á classe de meros berloques 
(por ex.: nas cadeias de relógio, nos coitares), ou de objectos de uso, 
ji também sen^ significação magica (por ex. : certos ganchos de meia). 



J, L. DE V. 



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290 O Archeologo Português 

Arolieologia trasmontana 
Lamas de Orelhão.— Á Inscripçío de Egcoraes.— Serra de Santa Comba 

A noticia que de Lamas de Orelhlo di o Archeologo Portuguea no 
vol. V, pag. 30, temos de accrescontar o que lemos a pags. 811-81^) 
de iim curioso e já quasi gasto manuscripto intitulado Tomòo de 8. Se- 
bastião do Cobro, feito pela mKo piedosa de um seu reverendo parocho, 
P.* Mathias Pires, e que me foi mostrado pelo actual encommendado 
de Lamas, o meu velho amigo P/ António Claudino Duarte Monteiro, 
na occasião em que percorri aquelles sítios. 

Vae com a mesma epigraphe, e respeitada a dicção, mas alterada 
a orthographia, porque esta, a calligraphia e as abreviaturas tornam 
bastante difficil a sua leitura. Eis o 

Memorial do Sitio doeste concelho de Lamas de Grilhão. 
Setembro 6 de 1688 

cA villa de Lamas de OrílhSo está assentada no fundo da serra, 
que chamam Rei de Orelhilo, para o norte seis léguas da Torre de 
Moncorvo, e para sul sete léguas da villa de Chaves, entre a villa de 
Mirandella e Murça de Panoias. Tem para a parte do sul junto da villa 
aonde pegam algumas casas está* um outeiro, que algum dia esteve 
cercado, de que ha ainda vestígios, e dentro da cerca moravam os 
moradores d'esta villa, e para a parte do norte bem se parece, que houve 
um fosso para defensa da praça, e mais para poente, e para o norte, 
ao pé da villa está uma capella de Santa Barbora com a era de 1620. 
Dizem pessoas antigas que ainda moraram dentro alguns moradores, 
que n'ella n'este tempo estiveram as casas da audiência a prisão e 
loige (?) e que n'ella esteve o pelourinho. E tinha uma cisterna. 

cE para esta villa veio um Q aspar Vaz Teixeira homem poderoso 
e natural de Oucidres, de Monforte, e que diz fizera as casas da au- 
diência, que mudara o pelourinho, para onde hoje está junto da igreja 
matriz que é de Santa Cruz. 

fN^este tempo que seria pela era de 1630 veio para este concelho 
também um regulo por nome Gonçalo Teixeira de Miranda natural de 



^ [Ha de supprimir-se este está, ou o tem do priucipio do período, a n2o ser 
que falte algum trecho. — J. L. de Y.J. 



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o Archeologo Português 291 

Constantim de Villa Real e cirurgiSo (?) da casa do Marquez de Villa 
Real senhor d'esta villa e das mais do seu marquezado; e veio com sua 
mulher e com quatro filhos, e se aposentou no cimo da villa para a 
parte do sul em que fez casas porquanto lhe deu o dito marquez o 
oficio de juiz dos orfos, e n'ellas fez um poço. 

cE depois pela era de 1640 fez de novo uma quinta junto do logar 
dos Paços a que poz o nome de Bom regalo, de que apanhou muitas 
fazendas, umas por dinheiro outras á força d'elle, e para esta quinta 
pedio ao concelho todas as amoreiras que pôde, cercando esta quinta 
toda de amoreiras que foram mais de õOO — e posto secassem muitas 
ainda tem muitas, e n^esta quinta teve muitas arvores de varias castas 
de fructo, como n'ella se deixa ver. 

cE por baixo d'esta quinta fez uma fonte de cantaria com seus 
pilares, e muitas curiosidades, e para ella dizem os moradores de Lamas 
que o dito Gonçalo Teixeira de Miranda mudou a cantaria do tanque 
d'esta villa. 

cE onde estava o tanque poz uma pia em que descarrega o r^go 
de agoa, para beber as crias doesta villa, a qual pia está aonde chamam 
o Vai do Asno indo para o Franco, junto da estrada aonde descarre- 
gava uma fonte que vinha do cimo da serra para a parte do norte, 
para n'ella beberem as bestas dos passageiros, e tudo o mais. 

cTudo isto fez este regulo, que provavelmente estava no inferno, 
porquanto elle depois de já ser velho, foi vèr um filho a Constantim, 
e de noite partio de uma janella rasgada abaixo e lá está sepultado 
que diz pela era de 1660 pouco mais ou menos. 

cAs casas do outro regulo são umas que pegSo no adro da igreja 
para o sul. Os herdeiros do regulo Gonçalo Teixeira de Medeiros foi 
seu genro Gaspar Teixeira de Miranda qtie foi juiz dos orfos. 

cE doeste procede Bento Teixeira de Miranda que também foi juiz 
dos orfos quatro vezes uma na era de 1710 (?) 

cE d'este são filhos um Francisco Teixeira Bahia que mora em 
Bornes de Aguiar. 

cE outro filho Luiz Bahia de Miranda de Macedo de Cavallo que 
já deu em seu pai — mas também o Bento Teixeira tinha dado em seu 
pai Gaspar Teixeira. 

cTeve outra filha por nome Feleciana casada com José Maria de 
Mirandella cavalleiro da ordem de chisto professo. 

cE dentro da cerca da villa se conta, que no tempo dos mouros 
se recolheram n^esta cerca os christftos, que foram uns falsos, que en- 
tregaram as chaves aos mouros e degolaram todos os que estavam 
dentro, que dizem chigara o sangue aonde hoje está o pelourinho. 



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292 O Archeologo Português 

«E d*6sta villa eram naturaes S. Lieonardo, e sua irmã Santa Comba, 
de gente lavradora e pobos que andavam no monte guardando o gado 
de seus pais; foi o rei mouro^ que se chamava Orilhilo, e quiz entender 
com a moça, elles foram fugindo até aonde está um penhasco alto, e 
a santa se metteu pela fraga e alli escapou, que milagrosamente se lhe 
abrio a passagem para dentro, e dizem lhe tiraram as tripas, coraçSo, 
e as botaram a um poço que está logo por baixo do penhasco para o 
nascente o qual nunca secca bem (?) estar no alto da serra. E da parte 
de fora do cabeço está outra capella da envocaçâo de S. Leonardo 
que dizem foi aqui martirisado. 

cAqui acodem muitas procissões de vários povos a pedirem agoa 
aos Santos e tudo Deus lhe concede por sua intrevençao. 

cA esta parte lhe chamam agora a Serra do Rei Orilhão e em imi 
cabeço que está para sul da capella dos Santos está o refugio donde 
morava o rei mouro. 

«Esta serra n2o tem senão monte e no alto aonde chamam Archo 
de traz da Serra por cima dos Paços está uma fonte que brota muita 
agoa, e de inverno fumega e de verão muito fria e com a agoa rega 
uma lameira que é do limite dos Paços aonde vão pastar os seus bois 
no verão. Em toda esta serra se criam muitos lobos, e corças, e ra- 
pozas. 

«Esta villa colhe mediano pão, algum linho, e azeite e castanha 
ao pé da serra, e tem três fontes. Tem um rego d'agoa que vem da 
serra, mas não rega senSo uma parte da villa para o norte. 

«Tem oitenta vizinhos com suas Quintas — Cascalhai, Ribeirinha, 
Carrapata e Fonte da Urze. 

«Carrapata tem uma fonte, na sua ermida a fonte é muito pezada 
de agoa, tem quatro moradores — Cascalhai, quatro moradores e fonte 
e não tem ermida — Ribeirinha uma capella de Santo António e uma 
fonte para o nascente e outra aonde chamam Picaboi mas sendo fria 
e muito pesada — Lamas tem três ermidas — N. S. do Amparo, S. Braz 
e Santa Barbara. 

«Teve capitão mór, sargento mór e quatro companhias de orde- 
nanças com seus ofl&ciaes; — dois juizes ordinários; três moradores e 
procurador; dois almotaceis, escrivão da camará, três escrivães do 
publico, e notas; um geral dos achados nos legares de legoa a fora 
outro dos achados de legoa a dentro e mais da confidencia; um es- 
crivão das sizas, um juiz dos orfos com seu escrivão, e um porteiro, 
e um alcaide pequeno. Tem este concelho os legares seguintes: Franco, 
Villa bôa, Pereira, Avidagos, Carvalhal, Rego da vide. Cobro, Escovais, 
Barcel, Val-verde, S. Silvestre, Marmelos, S. Pedro, Fonte da Urze 



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o Archeologo Português 293 

que tem três capellas com a de S. Luzia, Bruneda, Gulfeiras, Eivados, 
Eixes, SuççSes e Paços. 

«Eutra n'e8ta villa por correição o ouvidor de Vilia Real, e entra 
o provedor da Torre no que lhe toma a sua jurisdição. 

t Fonte da Urze tem uma fonte, e a capella de Santa Luzia e outra 
de Santa Ursella, outra mil virgens, e outra de S. Apolinário, e o 
coadjutor de Lamas diz missa alli aos dias santos, que lhe pagam os 
moradores as offertas e mais benesses sfte do vigário de Lamas i. 



No Memorial menciona-se como pertencendo ao concelho de Lamas 
a povoação de Escovaes, que ficava effectivamente a 4 kilometros a sul, 
onde hoje se descobre só um pequeno agglomerado de casas em ruinas 
que enchem de tristeza a quem por ali passa. 

A um canto, encobertos pelos muros das habitações, vêem-se os 
restos de uma pequena capella aonde se lê numa pedra de cantaria 
fina, mettida numa das paredes, a seguinte inscripção em lettras bem 
legiveis : 

OP.^A^S PRESAfLDARIRÍV 
(X? DSÂICiíMDOV?EF0RA/9.ES 
ACAPEL^-S.AAÍDAPRSÈÃÇÍ^DSÃ 
QT.^^PORSVAi VO Ç AO E R Ai.1 631 : 

que transcrevemos por ser a única memoria que resta, perdida e aban- 
donada, d'esse logar aonde houve deuses e lares. 



A Serra de Santa Comba é um enorme massiço de 1:001 metros 
de altitude e de forma quasi circular, de onde se divisa vastíssimo ho- 
rizonte, limitado pelas principaes montanhas do systema transmontano, 
taes como as serras de Nogueira, Montezinho, Marão e Padrella, e 
pela Senabría, que pela grande extensão em que se avistava coberta 
de neve e pela sua projecção no ceu, parecia a via láctea correndo na 
direcção NE-NO. Tudo leva a crer, que em tempos não sabidos, 
allumiou com os seus clarSes vulcânicos toda esta immensa amplidão, 
pois ainda se vêem espessas camadas de pedras calcinadas, quebradiças 



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294 O Archeologo Português 

e eanegrecidas que a cobrem quasi toda, impedindo bastante a vegetaçSo, 
cuja existência só se explica como sendo restos de um vulcSo, cujo 
respiradouro principal, a cratera central, devia ser esse enorme e bem 
definido cone a que chamam Fojo, onde agora tomam origem dois pe- 
quenos regatos. 

De onde em onde encontram-se grandes rochedos de schisto que 
apresentam algumas cavidades semelhantes a grutas, destinguindose 
uma de mais de 20 metros de comprimeíito, que parece artificial e 
obra talvez de quando se diz que houve nesta serra desenvolvida explo- 
ração de minas de antimonio. E como fortalezas naturaes prestaram 
guarida aos primitivos habitantes doestes legares, pois nalguns recintos 
por elles limitados vêem-se restos de muros de pedra solta que serviram 
de vedaçSo e de habitações. O refugio do Rei Orilhâo é ura castro 
nestas condições, bem como é o local em que está a capella de Santa 
Comba e outro que se encontra junto do caminho dos PaçoS; indo da 
fraga do Arasco. 

E estes castros devem ser de origem muito primitiva, pois assim 
se induz da sua simplicidade, natureza e organização, mas também 
da lenda de Santa Comba referida no Memorial, em quasi tudo seme- 
lhante á de Santa Comba dos Valles, que se lê em a nota do voL i, 
pag. 382, das Religiòes da Lusitânia do Sr. J. Leite de Vasconcellos. 
E o cavado pintado de vermelho da fraga junto da ermida, que dizem 
ser ora a lançada do mouro, ora o sitio em que foi degolado ou em 
que a rocha se abriu para esconder a santa, não é outra cousa senão 
um signal prehistorico como muitos que o mesmo autor menciona na 
mesma obra. O que é verdade e digno de attençSo, é que a lenda indica 
tér havido uma revoluçRo em defesa da virgindade offendida, confir- 
mando este facto, que se encontra referido em tradições de outros 
legares d'*este8 sitios*. 

A pouco mais de um kilometro, a este, da capella está a fraga da 
conta, chamada assim pelos pastores que a indicaram, que era porque 
tinha um lettreiro que os nascidos não eram capazes de ler nem entender. 
Felizmente, com grande espanto e admiração dos pobres e rudes ca- 
breiros, e dos meus três companheiros, eu pude ler em lettra já bem 
gasta— CAMINHO PARA OS PAÇOS E LAMAS! 

E assim era, porque junto d'elle passava o caminho para estas duas 
povoações. Como depois soube, a minha decifração quebrou todo o en- 



' As lendas de Nossa Senhora de Balsamáo cm Oliveira e do Castello de 
RobordãoB. 



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o Aecheologo Português 295 

canto que tinlia esta fraga, á cerca da qual se contavam as mais in- 
teressantes e curiosas historias nos povoados de volta da serra. 

E nSo admira que se digam lendas de onde o silencio da montanha, 
o esplendoroso e indiscriptivel panorama que se descortina, e a mudez 
da historia nos levam á meditaçSo e a formar um mundo verdadeira- 
mente phantastico e imaginário! 

E quem sabe se o castro, onde se ergue a ermida, não foi já um 
templo, cujo deus desconhecido se foi com os crentes que lhe prestaram 
culto?! 

Bragança, Março de 1900. 

Albino Pereira Lopo. 



Questionário Arclieologico 

Por mais de uma vez se tem elaborado questionários archeologicos com o fim 
de se recolherem elementos para o estudo das nossas antiguidades. Assim, por 
exemplo, na Revista Ârcheologica, i, 110 sqq., publicou um o fallecido escriptor 
Borges de Figueiredo; e.dois outros se publicaram no Arckeologo Português, i, 
268 sqq., e ii, 237, ambos com caracter official, o primeiro pertencente ao sé- 
culo xYiix, o segundo a este século. 

O Sr. Albano Bellino, a quem a arcbeologia do Minho deve já bastantes ser- 
viços, publicou agora também um, que aqui reproduzo a seu pedido, e no interesse 
da sciencia nacional. « . xr 

J. Li. DE V. 

Questionário 

I.° — Nomes dos montes e outeiros. Alem d^sso, algims d*elles 
teem o nome de Cividade ou Cidade, de Castro ou Crasto, de Castéllo 
ou Castéllo, de Cristêllo, Cerca e Citania? Ha em alguns d'esses montes 
vestígios de fortificaç5es? TradiçSes relativas a mouros? Objectos de 
ouro, bronze ou cobre? Pedras esculpidas? 

11.^ — Penedos ou lages com buraquinhos no alto, circules nelles 
gravados, pegadas ou quaesquer signaes attribuidos aos mouros. Ha 
grupos de penedos que formem grutas? — Penedos balouçantes? Ha al- 
guns com nomes exquisitos, como cpenedoí ou cpedra da mourai, 
«cadeira do diabo •, «egreja do diabo», etc., etc.? 

ni.^ — Rios, ribeiros. Os seus nomes, onde nascem, onde desaguam, 
que legares ou povoaçSes atravessam. 

IV.® — Pontes. Se ha alguma ponte com arco ou arcos antigos, se 
a ella se liga alguma superstição, como o ter sido construida pelo diabo; 
ser escolhida para d'ella se tirar agua á meia noite e batizar qualquer 
creança, etc. 



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296 O Aecheologo Português 

V.*^ — Fontes. Nomes das fontes. Se teem nichos de algum santo 
que se venere na noite de S. JoSo. Se ha fontes com nome e tradições 
de mouros. 

VI.^ — Poças. Se ha poças afamadas por serem frequentadas por 
mouras, por bruxas ou por coisas más. 

VIL*' — Minas. Se ha minas antigas e abandonadas em que se falle 
de thesouros encantados. 

VIII.* — Antas, antellas, dolmens^ fornos de mouros; mamôas ou 
mamoinhas (pequenos montes de terra isolados que se levantam nos 
campos). Se ha bouças, campos ou quaesquer sitios com estes nomes. 

IX.** — Sepultaras antigas abertas em penedos ou lages. 

X.® — Se ha algum logar onde se encontrem fragmentos de vasilhas 
de barro ornamentadas ou lisas, contas de lousa, brêlhos, tijolos grossos 
e com rebordo; alicerces de pequenas casas redondas, ou qualquer 
outra antigualha. 

XI.*' — Se ha pedras ou penedos com lettras attribuidas aos mouros 
ou aos romanos. 

XII.* —Copias fidelíssimas de todos os lettreiros, linha por linha, 
em português ou latim, gravados nas pedras soltas, nas paredes ou na 
base dos cruzeiros. 

XIII.* — Noticia de qualquer antiguidade cujo conhecimento possa 
interessar os archeologos, como estatuas ou escuipturas de pedra ou 
cobre; túmulos de varões illustres e suas inscripções; apparecimento 
de moedas romanas ou godas; machados ou cunhas de pedra polida 
(pedras de raio); machados e qualquer objecto de bronze, vasilhas des- 
enterradas em qualquer sitio, e que contenham carvão ou dinheiro 
antigo; pequenas mós, etc. 

XIV.* — Pelourinho, se existe. Se o cruzeiro da freguesia tem al- 
gum merecimento artistico ou histórico. 

XV.* — Nomes de todos os legares e a origem do nome da freguesia, 
se é conhecida, meios de communicação, distancia da sede do concelho, 
numero de almas e de fogos, nomes das freguesias confinantes, velhas 
costumeiras ; descripçSo dos jogos tradicionaes populares e infantis. 

XVl.* — Espadas antigas com ou sem legendas; brasões de casas 
ou de portaes de quintas. 

XVII.* — Sinos antigos e modernos, as suas inscripções escrupu- 
losamente copiadas, incluindo os nomes dos fundidores, as tradições 
e superstições que lhes andem ligadas; mediçSq da altura e do diâmetro 
da boca. 

XVIII.* — Igrejas. Se a porta principal é de arco redondo ou o^val 
com escuipturas e columnas, se está voltada para o poente, se na fa- 



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o Abcheologo Português 297 

chada tem uma janelia redonda, se o friso exterior é sustentado por 
modiIh5es ou cachorros figurados ou lisos^ se nas paredes lateraes ha 
janellas ou em seu logar pequenas frestas, se é de uma, duas ou três 
naves, numero de altares, nome do orago. 

XIX.® — Capellas, oratórios. Sua antiguidade e invocaçXo; votos 
antigos (clamores religiosos); romarias. 

XX.® — Alminhas. Copia exacta dos seus letreiros, sem alteração 
de uma letra, e indicaçXo das figuras mais salientes pintadas no nicho, 
como pontífices, bispos e monarchas. 

XXI.® — Se no archivo parochial se encontram pergaminhos ou 
títulos antigos; se na igreja ha quadros de valor, azulejos, tapessarias, 
alfaias de ouro ou prata, etc. 



Extractos aroheologioos 
das c Memorias paroohiaes de 1768 1 

809. Mlndello (Entre-Dooro-e-Mlnho) 

Pedra de Onilhade 

cEsta sita em terra vayxa em algumas partes alta, e de todo este 

sitio senão descobre mais que para a parte do Nacente o monte da 

Oloríoza Santa Eufemea, e o sitio da mesma santa que dista huma 

Legoa para o Poente se descobre o mar com que avezinha e estando 

no fieiro se descobre des o sitio do Castello da Povoa the a barra do 

Porto couza de cinco Legoas, e deste se ve a grande pedra que tem por 

nome Guilhad* (aic) que só nos grandes impitos do Mar no tempo do 

inverno lhe passa por partes as ondas. Pedra que servia aos viscainhos 

de escondrio (sic) no tempo que guerreavSo contra o Engles » 

(Tomo XXIII, fl. 95Ò). 

310. Mira (Beira) 

Snpposta cidad4'de MIrogaio. — Modo antigo de caçar 

cHâ TradiySo que a dita lagoa de Mira nos tempos antigos fora 
hSa Cidade chamada Mirogayo e que esta se afundara e se conta que 
asestindo nella o gloriozo Apostolo Sfto Thomé delia se retirara e 
Christo Senhor Nosso lhe falara dizendolhe que sahise da dita Cidade 
e se puzesse a vista delia aonde estaria athe o fim do mundo fazendo 
milagres e obrando prodígios. Esta notticia alem de ser commua a tra- 
diçSo referida o certificou tâobem hu clérigo desta mesma Freguezia 
que nella hé cura há muitos annos chamado o PadreAfanoel Bodrigues 



* VUiati genetivo de Viliatns, 



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298 O Aecheoloqo Português 

de Santo António que hindo tomar Ordens sacras a Cidade de Lisboa, 
estando na camará Eccieziastica delia hu homem muyto velho que ahy 
se achava ouvindo falar e dizer que elle hera de Mira lhe certeíicara 
e relatara a sobreditta notticia assim da lagoa ser cidade como o refe- 
rido nome de Mirogayo como de nelle asestir Sam Thomé da maneyra 
sobredita. Dizendo o achara e lera em huma chronica muyto antiga. 

E com efFeito asim o tem mostrado a Experiência em tantos pro- 
digios como obra e tem obrado o gloreozo Apostolo SSo Thomé desde 
que apareçeo há tantos séculos no dito lugar atras declarado athe o 
prezente aonde ainda existe com a mesma frequência de milagres, e 
do povo com tal fervor como se fosse no principio. 

Cria esta lagoa muyto lodo e Ervas a que champô murrassa ou 
molisso de que se utelizao os Lavradores tirando-o e apanhando-a en- 
genhozamente para a cultura de suas terras e com elle semearem as 
suas novidades. E nella se tem achado alguns vestígios que testificlo 
a tradiçSo antiga de que fora Cidade, porque com a dita murrassa 
tem tirado alguns alguidares e Lousa antiga e dinheyro antigo de cobre 
e junto da mesma lagoa se tem achado vestígios de Cazas e hu Almo- 
faris munto antigo, e pello meyo da mesma lagoa hia huma terra 
firme ao modo que foy estrada ou muro a que os naturaes da terra 
chamão Ilha. Criava Erva aonde hia pastar o gado o qual já hoje 
se n^ vê pellas arejas terem alagado munta parte da lagoa e terem 
crescido as agoas. Terá a dita [lagoa quazi hu quarto de legoa de largo 
e quazi meya legoa de comprido e inda que o mar só dista delia meya 
legoa comtudo nSo entra nella, e he toda de agoa doce. Pella parte 
do poente e Norte he toda cercada de arêas que a continuação dos 
ventos e cheas a vam alagando por lhe fallar os resguardos que anti- 
gamente tinha de matos e Arvores de que estava povoado tudo o que 
hoje são arêas desde a dita lagoa athe o mar. He tanto abundante de 
cassa de Adeus, Lavancos, Negras, Rabias e de outras diversidades 
no tempo de inverno a dita Lagoa que costumavão os naturaes da terra 
hirem a espera delia na Entrada e sabida da mesma lagoa, e ah^ com 
huns paus curtos grosos de huma parte e agusados da outra a qae 
vulgarmente chamavão Porrytos (?) lhe atiravão ao ar e matav2o munta 
quantidade de cassa, o que já hoje não fazem por uzarem de espin- 
garda.! (Tomo XXIII, fl. 989). 

81 !• Miranda (Entre- Donro-e-MInho) 

« Cattello dos Mouros 

«Hé terra aberta e nunca foi Praça de Armas e so tem huns Penedos 
altos huns em sima dos outros chamados Castelo de Miranda e há tra- 



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o AttCUEOLOGO Português 299 

diç2o que para elles se Refugiaram os Mouros no tempo da sua ex- 
pugnaçam». (Tomo xxiii, fl. 1025). 

812. Moledo (Beira) 

Rui nau de ediflcioa. • - Castello c obras doa Moaroa. — Entrada coberta. — Castollo da Maga 

«Esta terra nJto he murada, nem nunqua o foi; mas para a parte do 
Nascente fica hum monte alto a que chamam o Oiteiro de S. Lourenço, 
e principia a elevarse logo deste Lugar de Moledo, e athe o mais alto 
deste monte he meia legoa, e no ponto mais alto he quazi de figura 
(êic) adonde se descobrem e acham huas pedras que mostram serem 
ruinas de algum idificio, e ha tradiçam que fora ali Castelo de Mou- 
ros, e correndo o tempo esteve ali também huma capela de S. Lourenço 
(donde se supõem que o oiteiro tomou o nome). . . . ; e para a parte 
do meio dia deste Lugar dos Cazais e entre este de Moledo está outro 
Oiteiro que fica quazi no meio da subida que Ysà deste lugar para 
o Oiteiro de S. Lourenço, e se chama o Oiteiro doVieiro aonde se 
ve huma cova larga com dois braços e ha tradiçam que de hum destes 
braços que fica para a parte do Norte hia por debaixo da terra huma 
estrada sahir a hum Ribeirinho que corre ao pe do Oiteiro, e que tudo 
isto fora obra dos Mouros a estrada esta hoje tapada, e se dis a tapa- 
ram os moradores porque lhe perigavam ali os gados; e para a parte 
do Norte deste Lugar de Moledo fica outro monte que chamam a Serra 
da Maga donde está outro outeiro que chamam o Castelo de Menha 
ou o Castelo de Maga adonde se descobrem huns pedaços de parede 
que em partes teram ainda hoje sete ou oito palmos de altura e parede 
forte, e estam estes três oiteiros fronteiros hus dos outros com distancia 
de meia legoa huns dos outros, e estaiu cheios, e cobertos de matos 
que a terra produs em abundância**. (Tomo xxm, fl. 1098). 

818. Mombeja (Alcmtejo) 

Outeiro do circo 

«No principio da Serra das Pedras distancia de hum quarto de 
Legoa desta Aldeia está hum Monte muito alto que o vulgo chama o 
Outeiro do Sirco este Monte está sercado de Muro antigo que nlo sobe 
da terra e dizem pessoas velhas que nelle quizerâLo edificar a Cidade 
de Beja, porem nlo descubro noticia certa porque dezistirão e a fizerâo 



1 Este extracto já foi publicado por Borges de Figueiredo na Bevista Ar- 
cheologica, iv, 136. 



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300 O Archeologo Português 

aonde hoje existe e bem se vê que só fizerSo os licerses e não houve 

terra ou Cidade por nSo se achar dentro nem fora dos Muros signal 

algum de ruina e dizem que por esta rezSo se intitula esta freguezia 

de Mombeja por se chamar o Monte de Beja antigamente que corrupto 

o vocábulo se chama agora Mombeja ou será também porque esta serra 

he a maior e mais levantada que tem Beja em seu termo •. (Tomo 

xxiu, fl. 1118). 

814. Monchique (Algarre) 

Assento primitivo de Monchique. — Ediflcio antigo 

fMonchique se chama este lugar o qual he muito antiguo teve seu 
principio em o CoUado e pello discurso dos annos se mudou a povoaçSLo 
e juntamente o nome». (Tomo xxm, fl. 1141). 

• Â Igreja Parochial deste Lugar esta dentro do mesmo e nSo tem 
mais lugar que lhe pertença que o dos Cazaes aonde ha a ruina de 
hum antigo edeficio em huma quinta que se chama de Santo Antó- 
nio...! (Tomo xxin, fl. 1141). 

815. Monforte (Beira) 

Minas de ferro. ^ Lapa 

•Há vestigios em varias partes de se fabricar em alguns tempos 
ferro porque se achSo escumalhos do mesmo ferro». (Tomo xxiv, 
fl. 1226). 

«Tem a Serra concavidades em varias partes como são a Caza 
chamada da Lapa debaxo do chão feita em hum penhasco, que só tem 
hua boca por entrada. Outra chamada a Caza subterrânea da mesma 
factura. Dous focos mais que se lhe não pode envestigar o fundo que 
lançandolhe para dentro hSa pedra vay bastante tempo fazendo grande 
roido». (Tomo xxiv, fl. 1227). 

816. Monforie-do-Blo-LiTre (Tras-os-Montes) 

Inscrlpçlo portuguesa do castello 

«O Castello foy mandado fazer pello Senhor Rey D". Dinis como 
se manifesta de huma inscrisam que na porta interior delle se acha 
que dis assim: 

EU DOM DINIS ESTE CASTELLO FIS 

QUEM DEPOIS DE MIM VIER 

SE DINHEYRO TIVER 

PARÁOQUEQUíZERi 

(Tomo xziT,fl. 1224). 



1 Cfr. inscripçâo V do n.« 7 n-0 Arch. Port., u, 137. 

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o Archeologo Português 301 



817. Monsanto (Beira) 

Lapa*. — Balneo. — Torre do Pilo. — Londa. — Serra da Mouraria. 
Trova histórica. — Freguesia do Salvador 

fNo Bispado da Guarda, comarca de Castello Branco, a cujo nas- 
cente distancia de sette legoas está a villa de Monsanto, assim chamado 
pellos Anacoretas que a elle se refugiarão e nelle viverSo pella invazEo 
do Mourof. (Tomo xxiv, fl. 1271). 

fNesta villa floreceu Santo Amador hermitSo da Ermida de S. Pe- 
dro de Vir a Corça asim chamado porque huma vinha á sua Lapa (que 
existe com veneração junto a Ermida) dar Leyte a huma criança que 
o servo de Deos por inspiração Divina foi tirar ao Cimo de huma penha 
inravessiveU. (Tomo xxiv, fl. 1276). 

«Junto a S. Pedro de Vir e Corça say da penha grandiozo olho de 
agoa quente de que em tempos antigos se uzon em Caldas porquanto 
em alguma distancia se vê em penha viva hum capacíssimo balneo 
com escada e repuxos». (Tomo xxiv, fl. 1278). 

cNo cimo do monte tem hum fortissimo Castello com quatro Torres. 
Huma defronte do Castello em penha viva chamada a Torre do PiXo 
demoUda pella face que olha para a Fortaleza. Ignorace quem a demolio. 
Ha porem tradiçSo que pello tempo das alteraçoens de Euora no anno 
de 1637. 

He esta Fortaleza obra dos Templários que nella se fizerSo fortes 
contra a potencia e orgulho dos Mouros, que a tiverSo em citio sette 
annos (e nSo for2o os Romanos, como alguns escreverão por menos 
verídicas informaçoens) a tão prolixo cerco não podião já rezestir os 
Christaons por falta de sustento athé que em dia da Invenção da Santa 
Cruz três de Mayo pellos annos de 1230 lhe inspirou Deos que dessem 
de comer a huma bezerinha huma lemitada porção de trigo que só 
havia no Castello, e a lançassem delle a vista dos inimigos que achando-a 
rebentada e cheya de trigo julgarão que ainda havia tanto mantimento 
que sustentavão os animais com trigo ; pello que desconfiados da Em- 
preza levantarão logo o citio ^ 

Ainda hoje em memoria deste feito no dia de Santa Cruz se ajunta 
a mocidade pellas Torres e penhas com grande regozijo lançando Cân- 
taros, roscas, e varias couzas». (Tomo xxiv, fl. 1278). 



» Cfr. O Arch. Port, xi, 64, nota; e iix, 196, n/» 126. 

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302 O Arcueologo Português 

«^Tem mais á parte do Norte a Serra chamada da Mouraria, em 
distancia de hnm quarto de Legoa, chamada asim por ser habitada 
de Mouros, que para vexarem e combaterem Monsanto principiarão 
fortalezas cujos vestígios existem». (Tomo xxiv, fl. 1280). 

Freguesia de S. Miguel. — t estando em sittio que durou sette 

annos o Castello desta villa, posto pellos Mouros, vendo-se já os sitiados 
na maior consternação se rezolverão a tomar o Conselho de huma Ma- 
trona já velha, no qual lhe dizia que tomassem hu Bezerro e fartando-o 
bem de trigo o lançassem dos Muros a baixo; pêra que vendo os Mouros 
que tinham tanto trigo que até aos animaes o davão, se havião de re- 
zolver a levantar o Cerco; o que com effeito asim sucedeo, dizendo a 
trova seguinte: 

Monsanto, Monsanto; 

Orelhas de Mulo, 

Quem te vencer; 

Vencerá todo o Mundo. 

£ ainda hoje a 3 de Mayo dia de Santa Cruz os Moços solteiros 
indo ao mesmo Castello, e a outros sítios altos com hu Cântaro de 
barro coberto com hum pano fazem esta Cerimonia reprezentativa do 
referido sucesso, e as Raparigas vestindo huma figura em traje de 
Molher lhe tributão seus cultos de bailes, danças e cantigas em me- 
moria também da sobredita Matrona». (Tomo xxiv, fl. 1291). 

cNam há mais couza alguma digna de memoria e só á que por 
tradiçam consta nesta Villa, que vivendo nella hum sapateiro chamado 
o Tratembalde em o anno da felis Aclamação pegando em huma escada 
se foi com ella até as portas do Castello; e arrimandoa á primeira, 
sobio ate chegar ás Armas reais que estão sobre ella; e fês a trova 
seguinte estando alimpando as mesmas Armas do muito musgo que 
tinhão criado: 

As armas tem muito musgo ; 

As armas se hão de alimpar; 

Portugal hade reinar; 

Que não pode ser escuzo. 

E com effeito he tradição que asim succedeo nos termos que asim 
se referei. (Tomo xxiv, fl. 1293). 

€ 80 híia tradição de que quando se fundou esta Villa foi pri- 
meiro intento dos fundadores plantarem na nella para a parte do 
Nascente; e ainda hoje a este sitio lhe chamão Monsanto, e outros 
Maria Criada, tendo por nome toda a Circunferência a Serra da Moraria 
ou Moreirinha corrupto vocábulo i (Tomo xxrv, fl. 1297). 



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o Archeologo Português 303 

818. Monsarax (Alemtejo) 

Inscripçâo latina 

c em hua forte e levantada Torre, e sobre a mesma porta está 

o votto que o Senhor Rey Dom Joio quarto fez de defender a pureza 
da Conçeyção da Senhora, e lhe ser tributário todos os annos escripto 
em hua pedra mármore da maneira seguinte. 

ETERÍÍIT SACR 
IMMACULATISSIMAE 
CX)NCEPTIONI MARIAE 
IO AN IV . PORTUQALL REX 
UNA COM GENERAL • COMITIIS 

SE, ET REGNA SUA 

SUB ANNUO CENSU TRIBUTARIA 

PUBLICE VOVIT 

ATQUE DEIPARAM IN INPERÍI TUTELAREM ELECTAM 

A LABE ORIGINALI PRAESERVATAM PERPETUO DEFENSORU 

JURAMENTO FIRMA VIT 

VIVERET UT PIETAS LUSITAN • 

HOC VIVO LAPIDE MEMORIALE PERENNE 

EXARARI JUSSIT 

ANNO CHRISTI M D C XL VI 

IMPERII SUI VI . 

(Tomo XXIV, fl. 1323). 

819. Montalegre (Tras-os-Moiites) 

Castello romano. — Lago artificial 

€ Também no termo do Lugar de Parafita, que he da freguezia de 
Santa Maria deViade e lemite deste Concelho se devizão as ruinas de 
hum inexpugnável e antiquissimo Castello chamado de Sam Romam 
e ainda que no sentir de alguns fosse o dito edificado com toda a for- 
malidade de que ao prezente nelle se descobre pellos Mouros para 
delle se deflfemderem no tempo que occuparâo as Hespanhas ; comtudo 
a dita openiSo he menos verdadeyra e por tal a reputa o Autor das 
memorias de Braga, afirmando ser o ditto Castello edeécado pellos 

Romanos etc. E n&o há muitos annos que huns moradores do 

Lugar deVeade com ambiçEo de no dito acharem algum thezouro de- 
molir&o muytas couzas memoráveis delle e entre ellas o lugar onde 
estava pintado o novilho e parte de huma sjsterna que no alto do Cas 
tello estava fundada do que ainda existem vestigios indubitáveis em 
distancia de meya Legoa para o Poente ao pé da via Romana, de que 
assima se fas menção. Estão alguas ruinas da fortificação chamada do 



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304 ' O Archeologo Português 



Rodrigo e ao pé desta morão dois Lavradores e as eazas destes ainda 
os alicerses delias e parte da parede hé do tempo da refferída fortificação 
que a darse credito a tradição mais verosímil e avista do que fica ex- 
posto hé sem duvida, foy tudo isto obra dos Romanos e o passarem 
estes pellos referidos sitios he induvitavel e assim o testeficSo os padrois 
que na dita via e perto donde foi o Castello de Sam Romam e o de 
Rodrigo se encontrão. Em o lugar de Sapellos, que hé da freguezia 
de Sam Pedro de Sapiães há hum lago de altura considerável no qual 
andão peixes, e junto do dito ha huas concavidades subterrâneas, e 
arteficiaes, e ainda que alguns queirâo affirmar fora artefactura dos 
Mouros toda esta operaçSo, contudo esta openiSo se deve reputar se- 
guindo a que segue o já citado Autor das Memorias Bracharenses, 
que affirma ser o dito Lago e concavidade originado de nelle tirarem 
os Romanos grandes somas de ouro». (Tomo xxiv, fl. 1389 e seg.) 

820. Mortargll (Extremadura) 

Anexim loc«l 

a só se trás hum ditado muito antigo que os moradores desta 

villa dizem: Serra de Maltim quanto ouro e prata tens em ti: porem 
nâLo consta a cauza porque se dis este ditado». (Tomo xxiv, fl. 1415). 

821. Monte-Mor-o-Nofo (Alemtejo) 

Inscrípçilo romana 

<c A villa de Monte mor o novo está cituada na provincia de Alemtejo, 
Comarca e Arcebispado de Évora em dés gráos e doze minutos de 
Longetude e 38 gráos e 34 minutos de Latitude. No tempo dos Ro- 
manos foi povoação insigne para o que he fundamento irrefragavel a 
pedra que se acha na extrior parede do adro da Igreja Matrís de 
nossa Senhora do Bispo, que ainda hoje existe dentrtf da Cerca da an- 
tiga Villa em que se fás memoria de huma Flaminia de toda a Luzitania 
difrente da Eborense como se vê da inscripçSo de que estando tXo 
publica, nenhum dos nossos historiadores fes mençSo^: 

Outras memorias se achão que mostrSo a sua antiguidade respei- 
tada dos idólatras e venerada em todos os séculos por huma das memo- 
ráveis da nossa Luzitannia. Foi celebrada com o nopie de Castra Maliana, 
pela abundância nativa de seos frutos e pelo inexpugnável Castello com 
que se fazia timivel. Nela estava pregando a fé São Maneio etc.» 

(Tomo xxiv, fl. 1429). 

^ ^ Pedeo a. de Azevedo. 



1 Corp. Insc, Lat, n.« 122. 



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J 



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EXPEDIENTE 



O Arckeologo Português publicar-se-ha mensalmente. Cada número 
será sempre oa quasi sempre illustrado, e não conterá menos de 16 
paginas in-8.^, podendo, quando a afluência dos assumptos o exi^, 
conter 32 paginas, sem que por isso o preço angmente. 

PREÇO DA ASSIGNATURA 

(Pagamento adeantado) 

Anno lfJ500 réis. 

Semestre 750 » 

Numero avulso IGO » 

Estabelecendo este módico preço, julgamos facilitar a propaganda 
das sciencias archeologicas entre nós. 



Toda a correspondência á cerca da parte litteraria doesta revista 
deverá ser dirigida a J. Leite de VasoonoellOS, para a Billio- 
theca Nacional de Lisboa. 

Toda a correspondência respectiva a compras e assignaturas 
deverá, acompanhada da importância em carta registada ou em vales 
de correio, ser dirigida a J. A. Dias CoelllO, para a Imprensa 
Nacional de Lisboa. 



à venda nas príncipaes livrarias de Lisboa, Porto e Coimbra. 



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VOL.V 1899-1900 N."" 11 E 12 

O ARCHEOLOGO '^^ '^'^ ' 




COLLECÇÂO ILLDSTRAD& DE HATERI&ES E NOTICIAS 



PUBLICADA PBLO 



MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 







vS 



Veterum volvens monumento virorum 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 
1900 



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STJlsa^lsa^J^-RXO 



A Judiaria Velha de Lisboa: 305. 

Ruínas do convento do Alcance (Alemtejo): 327. 

Antiguidades do Sol de Portugal: 330. 

Epitaphios: 334. 

Museu Municipal de Bragança: 336. 

Notícla.8 varias: 337. 

Extractos archeologicos das cMemorias parochiaesd: 343. 



Este fasciculo vae illustrado com 4 estampas. 



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o ARCHEOLOGO PORTUGUÊS 



COLlEGÇiO ULUSTRADâ Dl MATERIÂSS E lOfíCIAS 

PUBLICADA PBLO 

MUSEU ETHNOLOGICO PORTUGUÊS 



VOL. V 1899-1900 N." 11 E 12 

A Judiaria Velha de Lisboa^ 

Estado topographlco sobre a aotlga Lisboa 

Muito se tem escrito sobre o antigo e principal bairro dos judeus 
em Lisboa, a que chamavam Judalía Velha ou Judaria Grande, mas 
geralmente ignora-se hoje a região em que existia, e os seus limites. 
Occupava uma pequena extensão do valle da Cidade Bidxa, entre a 
Rua Nova e a egreja de S. Nicolau, e entre a egreja da Magdalena e 
a de S. Julião. Esta Judiaria, ou Judaria, como se encontra escrito nos 
documentos mais antigos, remonta pelo menos ao reinado de D. Af- 
fonso III ^, mas na nossa opiniSo, como em outro ponto se acha ex- 
posta^, já este bairro antes da conquista de Lisboa em 1147 estava 
destinado para os judeus, comquanto alguns doestes vivessem isolada- 
mente entre os christãos, á semelhança do que acontecia com os mu- 
sulmanos, que, tendo as suas Mourarias, moravam alguns d'elles nas 
ruas da cidade destinadas aos christãos. De um caso e de outro vimos 
referencias nos livros das Chancdlarias. D. Affonso Henriques, tomando 
a cidade aos musulmanos, permittiti que os judeus continuassem vivendo 
nos bairros que lhes estavam assignados. 



Além d*esta houve em Lisboa outras judiarias. 
No Campo da Pedreira, no sitio approximadamente do Largo do 
Carmo e seus arredores, havia em tempo de D. Dinis uma Judiaria, 



^ Este artigo é extracto de um artigo intitulado pAs Muralhas da Bibeira 
de Lisboa» em pablicaçáo na Revista de Engehheria MiLrrAR. 

* Direitoê i?ca«, liv. ii, fl. 86 v, era 1814 (aano 1276). 

^ •As Muralhas da Ribeira de Lisbfoa», capitulo sobre «Algumas considerações 
sobre o estuário do Tejo e a população na Baixa de Lisboa». 

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306 O Archeologo Português 

de que este rei desapossou os moradores, afim de fazer doaçXo ao seu 
almirante Micer Manuel Peçanha do meu (do rei) lugar da Pedreira, 
per onde foi deuisado para os ludeus, com casas, e com terras (1317)*. 

Um documento dois annos posterior, alludindo á doação, dá a en- 
tender que já os judeus haviam sido desalojados da sua Judiaria : 

casas e térreo (terreno) du Pedreira onde moravam os Jxideus em Lisboa 
(1319)2. 

Comquanto houvesse varias Pedreiras em Lisboa, nSo resta dúvida 
de que esta, que foi dada ao almirante, ficava entre o convento da 
Trindade e o sitio onde foi construido o do Carmo, pois que D. Dinis 
resolveu sobre uma reclamação que o almirante lhe fez contra os frades 
da Trindade, que lhe tomam o meu campo da pedreira que lhe eu (o rei) 
dei, soterrando ahi os homens para Ih' o alhearem e fazerem perder o seu 
direito (1320)'. 

Podemos, pois, assentar que foram os hebreus expulsos de uma Ju- 
diaria que tinham onde depois foi o Largo do Carmo, entre os annos 
de 1317 e 1319. É provável que fossem então fundar a Judiaria Nova, 
que ficava approximadamente no sitio onde existe a actual igreja de 
S. Julião. O Dr. Fr. Francisco Brandão çoUoca a criação d'esta Ju- 
diaria no reinado de D. Affonso IV, baseando-se apenas em que no 
tempo d'este rei é que começam a apparecer as referencias a esta Ju- 
diaria Nova ^, mas, pelo que acabaipos de ver, é natural que já exis- 
tisse nos últimos annos do reinado de D. Dinis. 



De uma quarta Judiaria em Lisboa encontramos menção, e ficava 
ella no sitio de Alfama, perto da Torre de S. Pedro, d'onde resultou 

chamar-se-lhe Judiaria de Alfama: chão que eUe (o rei) ha na 

Judaria de Alfama, que parte com o muro da parte do mar, e com o 
muro da villa, e com o muro da torre de S. Pedro, e com o ckao da 
^6 (1379)5. 



^ ChanceUaria de D. Dinh, liv. iii, fl. 108, era 1355. Documento transcrito pelo 
Dr. Fr. Francisco Brandão na MonarcMa Lvsitanaf sexta parte, 1672, pag. 240. 

» Id., ibid., fl. 127 V, era 1857. Citado por Fr. F. Brandão, Monarchia Lvai- 
tana, sexta parte, 1672, pag. 17. 

3 Id.y liv. IV, fl. 86, era 1358. 

4 Monarchia Lvsttana, quinta parte, 1650, fl. 22 v. 

& ChanceUaria de D. Fernando, liv. ii, fl: 50, era 1417. Nfio sabemos o qae. 
era a villa a que allude o docamento, porquanto na epocha de que está datado 
já Lisboa era sempre de3Ígnada por cidade. 



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o Abcheoloqo Português 307 

Fr. Francisco Brandão faz referencia a umas casas que JoSo Vo- 
gado, escrivXo da Fazenda de D. AfFonso V, fez da porta da barreira 
até a torre de S. Pedro, que he sobre a ludiaria d' Alfama (1459)*. 

Esta Judiaria tinha, como as outras, a sua synagoga: a es- 

7ioga (synagoga) que foi, que é na dita cidade, najtidaria pequena que 
foi, á (junto da) torre de S. Pedro; parte ao norte com rua publica j 
<w poente com a travessa que vae tei' ao muro (1502)^. Esta Judiaria, 
como as outras, foi extincta em 1496, e d'ella resta como único ves- 
tigio o nome de uma rua. Rua da Judiaria, que vae do Arco do Rosá- 
rio, ao Terreiro do Trigo, ter ao largo de S. Rafael. 



Fr. Francisco Brandão, generalizando a todos os tempos o que se 
dera em outros mais próximos do seu, disse que aos Mouros lhe dauao 
viuenda nos arrabaldes fôra das Cidades e Villas, e aos ludeus permitido 
viuer dentro das Cidades, ainda quefechados nas judiarias ecomgoardas ^. 
Depois d'elle muitos o teem repetido^, sem notarem que é uma inexa- 
ctidão flagrante ; o bairro da Pedreira onde moravam os judeus fora 
tanto arrabalde de Lisboa, como a Mouraria destinada para os musul- 
manos ; a Judiaria Velha, comquanto no centro da povoação commer- 
cial chrístã, não estava comprehendida pelo recinto das muralhas, e só 
o foi no reinado de D. Fernando, depois da construcção da cerca nova. 
Fernão Lopes disse implicitamente que estavam a Judiaria Velha e a 
Nova em um arrabalde de Lisboa, porque assim considerava todo 

o bairro habitado do valle da Baixa : gramde e espaçoso arravallde 

que havia arredor da cidade, des a porta do ferro ataa porta de Samta 
CateUina, edes a torre Dalfama ataa porta da Cruz^; quanto á Judiaria 
de Alfama temos alguns fundamentos para conjecturar que ficava tam- 
bém exteriormente ás muralhas da cidade. 



Indicámos já approximadamente a zona que occupava a Judiaria 
Velha; vê-se quão distante ficava do sitio onde se construiu a igreja 



^ MonarcMa Lvsitana, sexta partey 1672, pag. 17. — Outra citação da Judiaria 
de Alfama está na Chancellaria de D. Affonso V,. liv. xzxti, fl. IH v, anno 1459. 

* Extremadura, liv. i, fl. 252 v. 

3 Monarehia Lvntana, sexta parte, 1672, pag. 17. 

* O Panorama, vol. i, 1837, pag. 20, etc. 

* Chronica do senhor Bei D. Fernando, nono rei de Portugal, na Collecção 
de Uvroê inéditos de Historia Portuguesa, etc., toro. ly, 1816, pag. 311. 



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Wr^^^mS' 



p 



308 O Archeologo Pobtcguês 

e o recolhimento da Misericórdia, onde é geralmente collocada, sem 
razão, a mesma Judiaria. 

Âo findar o século xv soava também para as Judiarias e para a» 
Mourarias em Portugal a sua hora final: ..... Ao qual foi declarado, 
e publicado^ estando dRei ainda em Muja, no mez de dezembro de 
MCCCCXCVJ (1496), em hUa pregação ywe se sobre isso fez, e nam so- 
mente se assentou no conselho que hos ludeus se fossem do regno, coni 
suas molheres, e filhos e bSs, mas também hos mouros pelo mesmo modo^. 

Em dois annos se retiraram do reino os judeus e os musulmanos 
que não quiseram converter-se & fé christS, e desde entSo passaram 
a chamar Villas Novas aos bairros em que elles haviam habitado. Es- 
pecialmente pelo que respeita á Judiaria Velha de Lisboa ou Judiaria 
Grande, por muitos annos, desde o de 1498, os documentos se referem 
a ella por alguma das designações seguintes: villa nova que foijuda- 
ria grande, ou villa nova a nova que foi judaria grande^, 

E podemos affirm&-lo com segurança, porque de centenas de docu- 
mentos que examinámos, nunca, antes da expulsão dos judeus, vimos 
qualquer referencia á Judiaria Grande chamando-lhe Villa Nova, e 
pelo contrario, depois da mesma epocha, e durante a primeira metade 
do século XVI, quasi todos os documentos que alludem a Villa Nova, 
accrescentam : que foi judaria grande, ou que foi dos judeus, ou qualquer 
outra locução indicando que havia pertencido á communa hebraica. 



VUla era antigamente synonimo de bairro, quando applicada a uma 
zona de uma cidade. Houve em Lisboa muitas villas (Villa Franca, 
Villa Gallega, Villa Quente, Villa do Olival, etc.) e algumas Villas Novas 
(Villa Nova, Villa Nova de Andrade, Villa Nova que foi Judaria, etc.). 
Em tempo de D. JoSo I foi imposto sobre o vinho o tributo chamado 
real d'agua, para casear ViUa noia'. 



1 Chronica do êerenissimo Senhor Rei D, Manoel, por Damiam de Góes, ed. 
de 1749, parte i, pag. 18. 

2 NSlo fazemos aqai citações especiaes, porque teremos de apresentar bas- 
tantes no decurso d*e8te artigo. 

3 Elementos para a Historia do Mimicipio de LifòoOy por Eduardo Freire 
de Oliveira, 1.' parte, tom. i, pag. 178. Comquanto a Judiaria Grande, bem como 
uma parte da cidade, tivesse ardido completamente, quando, os castelhanos cercaram 
Lisboa no tempo d^el-rei D. Fernando, nSo foi para reedificar o bairro judeu que 
se impoz a toda a população de Lisboa o tributo do real éCagua, 



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o Abcheoloqo Português 309 

Teèm alguns auctores supposto qae esta Villa Nova era a Judiaria 
Grande, e que portanto a denominação remonta ao final da primeira 
dynastia; indicámos já que a origem do nome, applicado á Judiaria, é 
bastante mais moderna; resta-nos ver onde seria a Viila Nova que mo- 
tivou o imposto. 

Em primeiro lugar, esta Vilia Nova é anterior a D. JoSo I: já exis- 
tia em- tempo de D. Fernando, e nella moravam mulheres chrístás, o 
que nfto podia succeder em bairros destinados exclusivamente para os 
judeus; D. Fernando fez mercê a Aldoriêa Domingues de umas casas que 
éUe ha em viUa nova, em que morasse graciosamente (1373)*. 

Como muitas pessoas queriam aforar para sempre as casas que o 
concelho estava fazendo em Villa Nova, com o producto do imposto, 
e as que d'ahi em deante se construíssem, o rei (D. Jofto I) concedeu 
que o concelho fizesse os aforamentos que entendesse, sem dependência 
<Je confirmação sua (1410)*. 

Um outro documento informa-nos que os moradores do logar de Villa 
Nova eram pobres, e fixava o rei os preços que o concelho podia levar 
pelas casas da rua direita, e pelas das travessas do logo de vUla nova, 
afim de que o dito logar se possa povoar muito melhor. (1420) '. 

No reinado de D. Duarte receavam-se os moradores do novo bairro, 
das facilidades concedidas ao concelho para aforar as casas, e como 
medida de segurança pediram ao rei que lhes confirmasse os afora- 
mentos feitos pelo concelho, o que elle lhes prometteu (1434)^. 

Esta Villa Nova ficava situada no lugar da Pedreira, mas não po- 
demos fixar os limites, nem mesmo approximadamente : cas€u na 

rua da pedreira, a saber, na rua direita que vae para vUla nova, que 
partem com a dita rua publica, e com rua publica que vae para a cor^ 
doaria velha (1444)'. A Rua da Cordoaria Velha (anterior a 1755) ia 
desde o actual Largo da Bibliotheca Publica, ter ao meio, approxima- 
damente, da rua Garrett. Parece que, pelo mesmo tempo, chamavam 
também Bairro do Almirante á Villa Nova acima citada: ..... no logo 
que chamam pedreira, no hains) do dito Almirante (1370)*. 

A denominação de Villa Nova nSo durou talvez muitos annos ; no 
século XVI vemos apparecer um Bairro do Marquês (qual?), que foi 



1 Chàfusellaria de Z>. Fernando, liv. i, fl. 184, era 1411. 

2 Chancellaria de D, João I, liv. ni, fl. 110, era 1448. 

3 Id.y Uv. lY, fl. 13, era 1458. 

* Chancellaria de Z>. Duarte, liv. i, fl. 81 v. 

^ Mosteiro de SarUoê-o-Novo, n,^ 384. 

« Chancellaria de D. Fernando, liv. i, fl. 68 v, era 1408. 



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310 O Archeologo Português 

porventura o successor da Villa Nova : ca$a junto do bairro do 

marqíiez, qxie parte de uma parte com roa que voe do dito bairro para 
a cordoaria velha, e da outra partem com beco a que chamam beco de 
Pedro Rodrigues (1544)*. Outras casas do bairro do marquez ficavam 
situadas ao Chiado^ quando se entra já na rua direita da porta de 8.^ 
Catharina (1610) ^ 



Alexandre Herculano escreveu uma vez: Vdla-nova de Gibraltar 
era a c Communa dos Judeus^^, e coiloca esta communa á beira do Tejo, 
onde se construiu o edifício da Misericórdia. Esta asserção, devido ao 
respeito que se tem pelos mestres, tem passado como um dogma para 
todos os escriptores. Nós, nSo contestando que Alexandre Herculano 
tivesse visto em algum documento chamar Villa Nova de Gibraltar á 
Judiaria Grande de Lisboa, só lamentávamos a nossa infelicidade, por 
os milhares de documentos que tivemos de examinar, e as pessoas a 
quem consultámos, uKo nos fornecerem uma só referencia a essa Villa 
Nova, quando a chave da interpretaçSo nos foi dada pelo hábil paleo- 
grapho o Sr. General Brito Rebello. Provém apenas da leitura errada 
da palavra Gibitaria, nome de uma rua da communa hebraica, em al- 
gum documento de peor orthographia. As ruas do bairro judeu, depois 
da saída doestes, eram também algumas vezes chamadas Villas Novas, 
como por exemplo Villa Nova do Chancudo *, Villa Nova da Gibitaria, 
etc., locuções equivalentes a Rua do Chancudo em Villa Nova e Rua 
da Gibitaria em Villa Nova. Devemos pois acceitar que nunca a com- 
muna dos judeus em Lisboa teve a denominação de Villa Nova de Gi- 
braltar'. 



Havia nas Judiarias varias portas, que se fechavam ao sino de co- 
lher, interceptando o tracto e a communicaçfto com a gente christS ; a 



* Mosteiro de Santos-o-Novo, n.» 410. — O Summario, etc, por C. R. de Oliveira^ 
ed. de 1755, pag. 12, coUoca este beco, em 1551, na freguesia de S, Nicolau. 

* ChanceUaria de D. Filippe II, liv. xix, fl. 269 v. 
3 O Panorama, vol. 2.<», serie 2.*, 1843, pag. 403. 

* Extremadura^ liv. i, fl. 277 v, anno 1499. 

^ Encontrámos uma vez o termo Gibraltar em um documento : casas 

que chamam de Gibraltar (1372), (Mosteiro de Sanios-o-Novo, n.** 282, era 1410); 
mas pelas confrontações se reconhece que estas casas eram fora da Judiaria, na 
freguesia de S. Juliãe, perto da Raa dos Fomos. 



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o Archeologo Português 311 

situação de algumas podemos fixá-la approximadamente, dando-nos um 
meio de marcar também pouco mais ou menos a linha divisória entre 
as duas crenças. Não nos parece que existisse muro especial entre as 
habitações dos christãos e as dos hebreus ; os próprios muros das pro- 
priedades eram sufficientes para manter a separação. 



Ficava a esnoga ou sjnagoga gi*ande da Judiaria Velha perto da 
igreja da Magdalena, e no sitio marcado na estampa que faz parte 
d'e8te artigo *, onde está designada por igreja de N. S.* da Conceição 
dos Freires. Áppareceu uma inscrípçSo em hebraico, em uma excavação 
que se fez depois do terremoto de 1755, para o alicerce de uma casa, 
a qual se referia a uma sjnagoga que foi acabada no anno 1307 de 
Christo *; não julgamos que se trate doesta. 

Depois de os mouros e judeus terem sido expulsos do reino (em 
1496-98) fez D. Manoel doação da egreja de N. S.** da Conceição que 
se fez na casa grande da esnoga dos judeus ao mestrado de N. Senhor 
Jesus Christo (1502) ^. Para ahi vieram os freires de uma ermida que 
tinham no sitio do Restello, onde depois se construiu o mosteiro dos 
Jeronymosy e naquelle templo se conservaram até ao terremoto de 
1755. Como em 1698 se levantou a igreja parochial de N. S.* da 
Conceição, á antiga igreja dos Freires começaram a chamar Conceição 
Velha. 



^ Náo podemos entrar aqui na exposição de como obtivemos a sobreposição 
das doas plantas que constam da estampa; pôde ver-se no nosso trabalho sobre 
As Muralhas da Ribeira de Lisboa, no capitulo intitulado «Mappas, tombos, e do* 
comentos aproveitados neste estodo». 

' Revista Archeologica, vol. iii^ 1889, pag. 115. — Ahi se diz qoe a excavação 
foi feita próximo da egreja da Conceição Velha, onde antigamente houve uma sy- 
nagoga, 

3 ChanceUaria de D, Manoel, liv. iv, fl. 24 v. — No preambolo do regimento 
dado á collegiada da convertida synagoga em 29 de Janeiro de 1504 constam os 

motivos porqoe foi erecta em tempo christão : deliberamos (o rei) da ccua 

da esnoga dos judeus que estavam na judiaria grande desta cidade, asi como era a 
mays principal em que o nome de noso senhor era blasfemado, he as coussas de nosa 
santa fée católica reprouadas e emmingoadas, fcuermos httma solene igreja e casa da 
enuocação de nosa senhora da conseição, na qual com muy grande solenidade e de- 
uação os officios deuinos fossem celebrados. — O Panorama, vol. 2.®, serie 2.*, 1843, 
pag. 404. 



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312 O Archeologo Pqrtuquês 

Diz Damião de Góes que D. Manoel /ez de nouo a Egreja de Nossa 
Senhora da Concep^m de Lisboa rio lugar em que fora a sinagoga dos 
ludeus^; naturalmente esta, fundação reduziu-se apenas á purificaçio 
do templo, e ás obras necessárias para adaptação ao culto chrístlo. 

Era a Igrya. muy vistosa, e alegre de hua sé nave com a poria 
principal para o Poente, e outra para o Sui^; foi consumida pelo fogo 
no terremoto de 1755^ 

A sua situação na planta actual de Lisboa era no leito da Rua da 
Princesa (dos Fanqueiros), a meia distancia das ruas de S. Nicolau e 
da Conceição (dos Retrozeiros). 



Além da esnoga grande havia outras sjnagogas na Judiaria Velha. 
Ha um documento que dá a entender que eram três; • . . • . em 144õ se 
passou sentença a favor doesta egreja de S.^ -Jf.** Magdalena, contra 
a communa dos judeus, que pagasse cada anno de cada sinagoga ÕO 
reaes brancos, que faziam lõO reaes brancos, que ajudaria grande pa- 
gava por todas as outras em dia de Paschoa *• 

Uma d'ellas era naturalmente uma esnoga que foi das judias, que 

pelas costas ficava mistica com um hospital que foi da communa; 

loja que parte de uma parte com casas da esnoga que foi das judieis, 
e da outra com hospital que foi da communa, e entesta com casas de 
F,j e por diante com rua que se chama da synagoga (1499)^. 

Pela ignorância em que nos achamos de qual a rua a que davam 
aquella denominação, não podemos calcular onde ficava situada a sy- 
nagoga das judias. Havia um Beco ou Pateo da esnoga^, para onde se 
entrava por um arco na Rua do Chancudo^; talvez fosse ahi a esnoga 
das judias. 



* Chronica do êerenissimo Senhor Rei D, Manoel, ed. de 1749, parte ir, 
pag. 600. 

2 Chorografia Portuguesa, etc., pelo P.* A. C. da Costa, tom. in, 1712, pag. 450. — 
Ab medições da egteja estão no Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 
1755, fl. 270 V. 

' Historia Universal dos Terremotos, etc., por J. J. Moreira de Mendonça, 
1758, pag. 128. 

* Collegiada da Magdalena, n.* 14, documento sem data mas posterior a 1768. 

* Extremadura, liv. ii, fl. 203. 

* Corografia Portuguesa, etc., pelo P.* A. C. da Costa, tom. iii, 1712, pag. 440. — 
Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro do Rodo, 1755, fl. 167. 

' Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro do Rodo, 1755, fl. 166 v. 



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o Archeoloqo Poi^tuquês 313 

Esta, ou nuus provavelmente uma outra synagoga, ficava situada 
em vUla nova que foi judaria grande, na freguezia e rua de S. Gião 
(Julião) (1502) * ; esta rua é a que depois se chamou rua dos Merca- 
dores. 



Âo norte da synagoga passava uma rua que em 1755 se chamava 
Rua ou Travessa dos Latoeiros^, mas que no tempo de C. Rodrigues de 
Oliveira (1551) denominavam Rua das Ferrarias Velhas', ou da Fer- 
raria Velha ^, e que no tempo dos hebreus era a Ferraria da Judiaria ^ 
ou a judiaria dos ferreiros^; ha muitas confrontaçSes de tendas, si- 
tuadas UB, judaria velha, onde estão os ferreiros, que partiam ao avrego 
(sul) com a synagoga e a aguião (norte) com a nta publica (da Fer- 
raria)^; depois da saída dos judeus a synagoga é substituida, nas 

confrontaçSes, pela nova egreja: casas na correaria, á porta 

de viUa nova que foi judaria, na ferraria, junto com N. S.** da Con^ 
ceição; partem por detraz com a egreja de JV. S.** da Conceição, e por 
diante com a dita rua publica que vae de villa nova, que foi ferraria 
(1507)8. 

No extremo oriental d'esta rua ficava uma porta da Judiaria. O 
documento antecedente citada, e grande numero de outras se referem 
a ella casoà que são na ru>a que vae da Magdalena para S. Ni- 
colau (Rua da Correaria, de 1755), a porta da judaria dos ferreiros 

(1459) ^; — .casas que são na sapataria (Rua da Correaria, de 1755), 

apar da porta da rua da ferraria da judaria velha; partem ao avrego 
(sul) com rua publica (1423)*^. 



1 Cancdlaria de D. Manod, liv. vi, fl. 103 v. 

2 Tombo da Cidade de lÂsboa, Bairro da Bua Nova, 1756, fl. 305 v,-- Coro- 
grafia Portuguesa, etc, pelo P.« A. C. da Costa, tomo iii, 1712, pag. 450. 

' Summairio, etc, ed. de 1755, pag. 17. 

* Elementos, etc, por E. F. de Oliveira, 1.* parte, tom. i, pag. 551, nota. — 
CharuseUaria de D. João ílí, liv. xzi, fl. 91 v, anno 1536. 

^ ChanceUaria de 2>. João I, liv. ly, fl. 63 v, anno 1423. — ChanceUaria de. 
D. Affonso V, liv. xxiii, fl. 27, anno 1442. — Exlremadura, liv. vi, fl. 223 v, anno 
1495. 

« Exlremadura, liv. xi, fl. 296, anno 1459. 

" Chancelaria de Z>. Fernando, liv. i, fl. 25 v, era 1406 (anno 1368). — /d., 
liv. I, fl. 36, era 1407 (anno 1369).— Id., liv. ii, fl. 63 r, era 1418 (anno 1380). 

* Exlremadura, liv. xiu, fl. 11 v. 
9 Id., liv. XI, fl. 296. 

'O Chancellaria de D, João I, liv. rv, fl. 63 i?. 



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S14 O ÂRCHEOLOGO POBTUUÊS 



Do largo em que ficava situada a igreja da ConceiçSo dos Freires 
saia, em direcção á igreja de S. Julião, uma rua que se chamava dos 
Mercadores^; algumas vezes também apparece designada por Rua da 

Conceição; casas na rua da Conceição, que fazem um canto para 

a run do vidro (1556)*. 

Em tempos mais remotos, uma parte d'esta rua, para nascente do 
ponto em que nella desembocava a Rua dos Carapuceíros, tinha per- 
tencido á Judiaria, e chamava-se-lhe Rua do Picoto ^ : rtm do pi- 
coto, que vem ter á rua que vem para S. Gião, que foi judaria grande, 

que ora se chama villa nova (1499) ^ ; — casas n*esta cidade abaixo 

da Conceito; teem duas servidões, uma para um beco da rua dos mer- 
cadores, que se chama (a rua) do picoto, e teem outra serventia para a 
rua do chancudo (1559) '. O beco a que neste ultimo, documento se faz 
referencia é provavelmente o Beco do Coveiro ^. Extincta a Judiaria, 
&rua direita chamou-se ao principio Rua de Villa Nova dos Mercadores '. 

A outra parte da Rua dos Mercadores, até á Rua Nova dos Ferros, 
ei*a christã, e chamava-se-lhe Rua de S, Gião (JuliSo)^. 

O ponto de separação entre a communa hebraica e a freguesia de 
S% Julião era nesta rua marcado por uma porta, cuja situação presu- 
mimos que seria entre o Beco do Coveiro e a Rua dos Carapuceiros ; 
vimos já um documento que a cita, e ha outros : casas que são 



* Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 1755, fl. 327 v.— Coro- 
grafia Portuguesa, etc., pelo P.« A. C. da Costa, tom. ni, 1712, pag. 444 e 450. 

* Privilégios de D. João III, liv. t, fl. 258 v. — Summario, etc, por C. R. de 
Oliveira, ed. de 1755, pag. 14. 

5 Chaneellaria de D. João I, liv. iv, fl. 9, anno 1425. — ChanceUaria de 
D. Duarte, liv. i, fl. 209, anno 14Se. — Eoctremadura, liv. viii, fl. 299, anno 
1451. — Idem, liv. in, fl. 198, anno 1484. — Livro dos Próprios das Casas e He- 
ranças d*d'Rei Nosso Senhor, n:^ de ordem 93, anno 1506, fl. 25. 

4 JSxtremadura, liv. ii, fl. 206 v. 

^ Mosteiro de SatUos-o-Novo, n.* 239. 

* Corografia Portuguesa, etc, pelo P.« A. C. da Costa, tom. m, 1712, 
pag. 450. — Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 1755, fl. 355. 

f Elementos, etc, por E. R de Oliveira, !.• parte, tom. i, pag. 651, nota, do- 
cumento da primeira metade do século xvi. -^ ChanceUaria de D, João III, liv. n, 
fl. 121, anno 1543, etc. 

^ Dourados d^Alcobaça, liv. i, fl. 116, anno 1476. 



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o Archeologo Português 316 

na rua do picoto, entrando por a porta da judaria que é na rua que 
vem de S. Gião, á mão direita (1453) *. 



Qaasi parallela á Rua dos Mercadores ficava, da banda do norte, 
a Rua do Chancudo^; esta denominação, porventura alcunha de algum 
individuo, remonta pelq menos ao reinado de D. Dinis'; pertencia á 
Judiaria, e perto do seu extremo occidental havia uma porta da com- 
muna, a que chamavam a Porta do Chancudo ^. 



Ka nossa planta vemos sair d'esta rua, em direcção ao norte, uma 
pequena rua chamada Beco da Bofetada^. Ignoramos aonde os tom- 
badores da cidade em 1755 foram buscar esta designação, pois que o 
seu nome era Rua ou Beco de D. Rolim ou do Rolim^, e doesta forma 
o traz o P.* J. B. de Castro no Mappa de Portugal, que foi escrito 
pouco depois de 1755'. 

Esta rua pertencia á communa dos judeus : casas que estavam 

em villa nova que se chama judaria grande, na rua que se chama de 

D. Rolim (1499)^; — casas em vala nova na rua de D, Rolim, 

e entestam na rua do chancudo, freguezia de S. Nicolau, e partem ao 
norte e levante com casas, ao sul com a dita rua do chancudo, e ao poente 
com a rua de D. Rolim (1502)*. 



1 Extremadura, liv. it, fl. 287 v. 

* Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Sua Nova, 1755, fl. 316. 

3 Livro dos Bens dos Próprios dos Beis e das Bainhai, fl. 13 v e 16 v^ do- 
cumento do anno de 1299. 

* Chancdlaria de D. Dinis, liv. ii, fl. 85 v, era 1832 (anno 1294). — Livro 
dos Bens dos Próprios dos Beis e das Bainhas, fl. 16 v, anno 1299. — ChaneeUaria 
de D. Affonso V, liv. xxxv, fl. 104, anno 1471., — Idem, liv. xzxii, fl. 33 v, anno 
1480. 

* Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Bua Nova, 1755, fl. 116. 

* Summario, etc, por C. R. de Oliveira, ed. de 1755, pag. 12. — Corografia 
Portuguesa, etc., pelo P." A. C. da Costa, tom. lu, 1712, pag. 440. 

7 Ed. de 1870, tomo iii, pag. 231. 

* Extremadura, liv. i, fl. 272. — Litn^o dos Próprios das Casas e Heranças 
d'el'Bei nosso senhor, n.® de ordem 93, anno 1506. 

* ChaneeUaria de D. Manoel, liv. nr, fl. 24 v. 



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316 O Abcheoíx>go Portuquês 

Foi esta rua aberta por 1480, oa por FernSo de Moara e D. Rolim, 
ou em terreno de umas casas doestes ^ ; alguns annos mais tarde ainda 

D. Rolim tinha umas casas junto da Porta do Chancudo : tenda 

detraz da porta do chancudo, encostada ao muro das casas de D. Rolim 
(1506) «. 

Junto aos extremos d'esta rua ficavam duas portas da Judiaria; a 
situada ao sul tinha uma denominação própria. Porta da Rua do Chan- 
cudo ou Porta do Chancudo ; as que apparecem citadas nos seguintes 
extractos referem-se por isso naturalmente á que ficava do lado norte, 
bem que os documentos n&o permittam affirmá-lo com completa segu- 
rança : ..... uma porta que voe da rua de S. Nicolau (nesse sitio cha- 
mado Rua do Calçado Velho) para a rua de D. Rolim, que está em villa 
nova que foi judaria; junto d'ella havia umas casas que partem com 
rua publica que voe de S. Gião para S. Nicolau (Rua do Calçado Ve- 
lho), e por detraz com rua publica de D, Rolim que vae para a cor- 
rearia (1501)'. Ha um documento que diz: aporta da judaria que se 
chama de D, Rolim ^, e se o qualificativo de D, Rolim, se refere á 
judaria, aquella locução é equivalente a porta da rua de D. Rolim na 
jtidaiia. 



As duas ruas que da Travessa dos Latoeiros se dirigiam parallela- 
mente para o norte, a Rua da Tinturaria^ e o Beco dos Tintes^ fi- 
cavam na Judiaria^, e nellas estavam installadas as lojas de tinturei- 
ros^, já desde o tempo dos judeus. 

O Beco dos Tintes não se acha rasgado completamente até á Tra- 
vessa dos Latoeiros, na Planta da Cidade de Lx.^ (1650) por Joio 
Nunes Tinoco, de onde parece dever inferir-se que foi aberto, como 
estava em 1755, nos cem annos que precederam o terremoto. 



* ChancéUaria de D. Âffonso F, liv. xxzn, fl. 83 v. 

2 Livro doê Proprioê deu Casas e Heranças d^el-Rei nosso senhor, n.<> de or- 
dem 93, anno 1506. 

3 Extremadura, liv. ii, fl. 131 v 

* Id,, liv. 1, fl. 216, anno 1498. 

s Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 1755, fl. 809 v, 
« Id., fl. 318. — É o Beco da tenloraria do Summario de C. R. de Oliveira, 
ed. de 1755, pag. 18. 

^ Eoctremadura, liv. u, fl. 120, anno 1501. — ChaneeUaria de D. Sebastião 
e D, Henrique, liv. vi, fl. 109 v, anno 1560, ctc 

* Elementos, etc., por £. Freire de Oliveira, 1.* parte, tomo i, pag. 557, nota. 



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o Abcheologo Portuqués 317 



Da Rua do Calçado Velho saia para a Rua da Correaria uma outra 
rua que em 1755 se chamava Rua do Arco de Jesus*; parece ser a 
que nos melados do século xvi chamavam Travessa dos Torneiros*, 
mais tarde Largo dos Carmelitas^; pertenceu naturalmente á communa 
dos judeus, mas ignoramos como se chamava entlo. 

Nesta rua ficava situado o convento dos Carmelitas Descalços 
dedicado ao Santíssimo Sacramento, ou de Corpus Christi, edificado 
pela rainha D. Luisa, mulher de D. Jo^ IV, no local de umas casas 
que se derrubaram; a igreja ficava ao sul do convento, e ambas oc< 
cupavam todo o lado occidental da Rua dos Torneiros^; começou- se 
em 1648, e completou-se em 1661, e nas copias da planta de Tinoco, 
de 1650, vê-se no seu local um ermida com a denominaçio, certamente 
corrupta de ermida do Marinho. 

Estes edificios foram destruídos pelo terremoto*; na reconstrucçlo 
da cidade a nova igreja, que também chamavam dos Torneiros, oc- 
cupou muito approximadamente o local da antiga, ficando com a porta 
para o nascente sobre a Rua da Princesa (R. dos Fanqueiros), e uma 
elevada cúpula; o convento, com o risco das construcç3es pombalinas, 
ficava-lhe ao norte, occupando todo, ou quasi todo o quarteirão de casas 
até á Rua da Victoria. Hoje são tudo propriedades particulares, no- 
tando-se ainda a fachada da igreja (onde está um armazém de fa- 
zendas) e a cúpula (cujo interior constituo uma vasta sala das sess5es 
de uma associação particular). 

Nos dois extremos da Rua do Arco de Jesus ficavam provavel- 
mente duas portas da communa; da do lado occidental já tratámos, e 
talvez fosse o arco do calcado velho, a que se faz referencia em um 
documento ^; a do lado oriental é possível que fosse a porta da jii- 



1 Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 1755, fl. 163 v. 

* Summario, etc., por C. R. de Oliveira, ed. de 1755, pag. 17. 

3 Largo da Igr^a dos CarmeUtas descalços, na Corografia Portuguesa, etc., 
pelo P.* A. C. da Costa, tom. iii, 1712, pag. 450. — L<urgo dos Carmelitas no Mappa 
de Portugal, etc , pelo P.* J. B. de Castro, ed. de 1870, tom. ui, pag. 150. 

* Pôde ver-se o motivo da fundação na Corografia Portuguesa, etc., pelo P.« 
A. C. da Costa, tom. iii, 1712, pag. 440 sqq., e as dimensões do edifício no Tombo 
da Cidade de Lisboa, Bairro da Bua Nova^ 1755, fl. 185 v. 

^ O terremoto, e incêndio memorável poz todo este sagrado edificio na ultima 
miséria. — Mappa de Portugal, etc, pelo P." J. B. de Castro, ed. de 1870, tom. lu, 
pag. 216, nota. 

« Chancfllaria de D. Filippe II, liv. xxviii, fl. 290, anno 1614. 



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318 O Abcheologo Português 

daria que vos para a carrearia (1384)*, ou aqaella que ficava defronte 

de uma certa casa da Rua da Fancaria: na fancaria, apar da 

porta dajudaria (1405)^, comquanto, pelas confrontações citadas, tanto 
se possa entender esta porta, como a que ficava no extremo da Tra- 
vessa dos Latoeiros, que todavia costumava ser especificada pela de- 
signação da Rua da Ferraria, na qual era situada. 



Desde a Rua do Arco de Jesus até ao adro da igreja de S. Ni- 
colau eram, antes da extincçSo da communa, habitaçSes de judeus. 
Possuia D. Dinis uma casa apud atrium Sancti Nicholai contra ju- 
dariam (1299)3. 

Sobre este adro abria-se uma porta da Judiaria, que parece ser a 

mencionada no seguinte extracto : ad portam dejudaria, in cot- 

latíone Sancti Nicholai, contra j lidariam (1299)*, e que é com certeza 
a que se acha em vários documentos : porta da judaria que voe para 
S. Nicolau (1370)**; porta dajudaria d'apar S. Nicolau (1395)*. 

Parece que o sitio d'esta porta era em um pequeno beco, que em 
direcção ao sul safa do adro de S. Nicolau, em K; ainda se nota na 
Planta da Cidade de Lx,^ (1650) por J. N. Tinoco, mas nSo existe 
na Planta da Cidade de Lisboa Arruinada (1755), que é a que consta, 
em fragmento, da nossa estampa, nem o Tombo da Cidade de Lisboa 
(1755) se refere a ella. Nesta ultima. planta existe, porém, na mesma 
direcçSo, saindo da Rua do Arco de Jesus, o Beco dos CarretSes sem 
saida ^. Talvez que estes dois becos fossem o resto da antiga rua da com- 
muna, em que existia a mencionada porta da Judiaria que communicava 
com o adro de S. Nicolau. 



No sitio approximadamente onde se construiu no terceiro quartel 
do século XVII o Convento dos Carmelitas Descalços tinha D. Fer- 



^ ChanceUaria de D. João I, liv. i, fl. 74, era 1422. 

) Extremadttra^ liv. xi, fl. 89 v, era 1448. 

' Livro dos Bens dos Próprios dos Reis e das Bainhas, fl. 13, era 1337. 

* Id,, fl. 12, era 1387. 

» ChanceUaria de D, Fernando, liv. i, fl. 49 v, era 1408. 

^ChanceUaria de D. João I, liv. lu, fl. 41, era 1483. — Extremadura, liv. xi, 
fl. 85, era 143a 

' Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro do Bodo, 1755, fl. 165. — Corogrc^a 
Portuguesa, etc, pelo P.« A. C. da Costa, tom. iii, 1712, pag. 440. 



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o Abcheolooo Português 319 

nando uma adega, na qual fez abrir uma rua para morada dos j u- 

deus : eu (o rei) mandei derribar a rua das taracenas, em qÚ4 

os judeus moravam, para accrescentar as cascís das ditas taracenas, 
em que estão as minhas galés, em a qual rua dizem que moram muitos 
judeus e judias, ^ que ora não teem em que morem, porque essajudaria 
velha é tão pequena que não podem em eUa cabei', mando-vos que façaes 
fazer em a minha adega qus é apar d'essa judaria velha uma rua pela 
metade (meio) d' dia, e mandai fazer casas e sobrados de uma parte e 
da outra, e fazei cerrar a porta da dita adega de contra o adro de 
S. Nicolau, e abri uma porta em o outro (lado) da dita adega, de contra 
a ditajudaria, para servidão d' essa rwa (1370).* 

E provavelmente esta a origem do Beco da Adega: ..... beco da 
adega em villa nova que foi judaria grande (154õ)^, o qual ficava no 
seguimento da Rua da Tinturaria'. 

A Planta da Cidade de Lx.^ (1650), por J. N. Tinoco, bem como 
a que consta da nossa estampa, mostram apenas em frente da Rua da 
Tinturaria um pequeno beco, provavelmente o resto do Beco da Adega, 
que em 1755 se chamava Beco do Ourinol sem saída ^. 

Correspondendo a elle, do lado do adro de S Nicolau, mostra a pri- 
meira das citadas plantas, um pequeno beco, que n%o existe na que 
consta da nossa estampa, e que parece ser o que teve a denominação 
de Beco de Pêro Ponce de Leão *. 

A Rua travessa de N. S.^ da ConceiçSo dos Freires, também 
chamada vulgarmente a Travessa da Conceição Velha, ou simplesmente 
Travessa da Conceição^ ia desde a Rua dos Ourives da Prata até 
á Rua dos Mercadores^; alargava a rua defronte da porta travessa 
da egreja, e do lado sul do mesmo largo houve no 1;empo dos judeus 



1 ChaneèUaria de D, Fernando, Uv. i, fl. 68, era 1408. 

* ChanceUaria de D. João IH, liv. xxv, fl. 50 v. 

' ChaneèUaria de D. Sebastião e 2>. Henrique, liv. ti, fl. 109 v, aano 1Õ60. — 
Chancdlaria de D. FUippe I, liv. xxii, fl. 850 r, aano 1592. 

* Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro do Sócio, 1755, fl. 165 v, — Mappa de 
Portugal, etc, pelo P.« J. B. de Castro, ed. de 1870, tom. ni, pag. 150. 

^ Confronte-se com o que dii o P.' A. C. da Costa na Corografia Portu- 
guesa, etc., tom. ni, 1712, pag. 441 : mandou alugar três moradas de casas, 

todas contíguas hxias com outras no sitio em que hoje está a Igreja (doa Carmelitas 
Descalços), fazendo entrada para dias peia parte de 8. Nicolao, aonde estava o beco 
de Pêro Ponce de Leão, e na ultima morada, q cahia para a Fancaria de cima, 
aonde hoje está a Capella do Coro deste Convento 

* Sum ma r io, etc., por C. R. de Oliveira, ed. de 1755, pag. 17. — Corografia 
Portuguesa, etc., pelo P.« A. C. da Costa, tom. iii, 1712, pag. 450. 

7 Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Bua Nova, 1755, fl. 270. 



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320 O Archeologo Português 

umas cascís que foram estudo de pcdaqano ^, em vala nova, na praqa 
de N. S.^ da Conceição, em frente da esnoga que foi dos judeus, que 
ora é casa de N. S,^ da Conceição^. 

A parte oriental, que communicava o adro da egreja com a Rua 
dos Ourives da Prata, foi aberta já depois de serem expulsos os judeus : 

casa em vala nova a nova, na rua nova que ora novamente se 

abriu, que vae de N. /S.* da Conceição para a Ourivèzaria (1504)^. 

O Beco do Sardinha^ já tinha esta denominação em 1685', que 
nSo sabemos de onde provenha. 

Terminava na Rua da Gibitaria^on da Jubetaria^, que, como aquella, 

pertencia á communa^; na ma da gibitaria, em villà nova a nova, 

quefoijudaria grande (1502)^. Nesta rua havia uns banhos dos judeus *^, 
ou talvez antes das judias^', que eram naturalmente alimentados pela 
agua das thermas romanas que naquelle sitio existiram. 



Na Rua de S. JuliSo, a meio do lanço comprehendido entre as 
ruas Bella da Rainha (R. da Prata), e da Princesa (R. dos Fanqueiros), 



^ Palaçano ou Apelaçano é appellido de origem hebraica. — Veja-se Chan-- 
edlaria de D. Afonso V, liv. iii, fl. 38, auno 14õ3. 

' ÇhanceUaria de D, Manod, liv. xv, fl. 24 v, anno 1502. — Extremadurct, liv. ix, 
fl. 239 V, anno 1503. 

5 Extremadura, liv. vi, fl. 1. — Idem, liv. ix, fl. 164 v, anno 1503. 

* Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da. Boa Nova, 1755, fls. 272, 272 r, 298, 
321 V, 822, etc. 

5 Elementos, etc., por E. F. de Oliveira, 1.* parte, tom. i, pag. 557. 

• Corografia Portugiiesa, etc., pelo P.* A. C. da Costa, tom. m, 1712, pag. 450 : 
rua da Gibitaria Velha. — Mappa de Portugal, etc, pelo P.« J. B. de Castro^ 
ed. de 1870, tomo iii, pag. 150. — Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua 
Nova, 1755, fl. 321. — Assim também em muitos docmnentos das Chancellarias. 

GiBiTERio ; offidal que fazia gibanetes, giboens, e vestidos d^armoÃ, sayas de ma- 
lha, etc. — Elucidário, de Santa Rosa de Viterbo. 

JuBBTBiRo; alfayate q»te fazia «Gibanetes». E mais propriamente o algibebe, que 
remenda ou compõem vestidos, ou roupas velhas, e rotas. — Eltiddario, de Santa 
Rosa de Viterbo. 

JuBiTABiA.; vulgarmente AlgibetarifiL.He a rua em que se vendem juboens, eat- 
çoens, etc. — VocaJbtdario, de Bluteaa. 

7 Summario, etc., por C. R. de Oliveira, ed. de 1755, pag. 17. — Mosteiro de 
S. Domingos, liv. zxxi, fl. 52 v, anno 1561. 

8 Extremadura, liv. viii, fls. 60 v. e 137, anno 1484. 

9 Id., liv. IX, fl. 198. 

«o Id., liv. I, fl. 252 V, anno 1500. 

11 Mosteiro de S. Domingos, liv. xxxii, fl. 55 v. 



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o Archeòlogo Português 321 

houve até ao terremoto um poço, provavelmente em commúnicàçSo 
com as nascentes thermaes, com lô palmoê de largo, e 30 em redondo, 
que é de muito boa agua^. D^elle se refere que no dia do terremoto 
lançara de ai toda a agua e alguns peixes^. 

Chamava-se-lhe no reinado de D. Dinis, Poço da Fotreya^, e depois 
Poço da Fotéa^, nome de origem evidentemente hebraica. 

Ficava situada no Largo do Poço da Fotéa^, do qual saiam quatro 
ruas: a Rua ou Beco de S. JoSo, o Beco dos Seguros, a Travessa do 
Poço da Fotéa, o Beco de Lava-Cabeças ; a primeira pertencia á Ju- 
diaria; a segunda cremos que nSo; as ultimas eram chrístâs. 

A Rua ou Beco de S. Joâo^ era anteriormente chamada Rua do 
Poço da Fotéa ', e umas vezes era considerada Rua Direita*, e outras 

simples beco: castzs em vUla nova, na rua dos mercadores, na 

freguezia de S Julião; partem ao levante (?) com a dita rua publica 
dos mercadores, e ao poente com o beco que se chama do poço de 
Fotéa (Rua de S. João) (1502)». 

No extremo sul doesta rua ficava uma porta da Judiaria, que 

também se chamava Porta de Fotéa: no beco acima da porta de 

Fotéa por onde entram para ajudaria (1436)*^.— ]>orta que está 

apar do poço de Fotéa (1438)**. 

Entrando pois pela Porta da Fotéa, em direcção ao norte^ encon- 
trava-se do lado esquerdo um beco, naturalmente o Beco dos Agu- 
lheiros**, onde os judeus tinham as suas carneçarias: in come- 



* Archivo Piitoresco, vol. nr, 1861, pag. 407, documento de 1552. 

2 Diccionario Geographico, do ma. Archivo Nacional da Torre do Toinbo^ 
tom. XX, Paroehia da Conceição, por Braz José Rebello Leite, pag. 743. 

3 Liuro dos Bens doa Proprioê dos Reis e das Rainhas, fls. 13 v, e 16 v, era 
1337 (anno 1299). 

* Chancellaria de D. Âffonso IV, liv. iir, fl. 12, era 1365 (anno 1327 ). 

* Corografia Portuguesa, etc, pelo P.« A. C. da Costa, tom. m, 1712, pag 450. — 
Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 1755, fls. 299, 303 v, etc 

* Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Ifova, 1755, fl. 290 v, — Coro^ 
grafia Portuguesa, etc., pelo P.« A. C. da Costa, tom. in, 1712, pag. 450. 

"' Extremadura, liv. i, fl. 252 v, anno .1500. — Idem, liv. n, fl. 118, anno 
IbOi. — Summario, etc., por C. R. de Oliveira, ed. de 1755, pag. 14. 

* ChaneeUaria de D. Duarte, liv. i, fl. 193, anno 1436. — Chanedlaria de 
D. Affonso V, liv. xxxiv, fl. 166 v, anno 1450. 

9 ChaneeUaria de D, Manoel, Uv. iv, fl. 24 v. 
>« ChaneeUaria de D, Duarte, liv. i, fl. 193. 
" Mosteiro de CheUas, lettra E, fl. 5. 
» Tonibo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 1755, fls. 292 e 293. 

21 



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322 O Archeolooo Português 

qwrias injudaria, apud puteum de fotreya (1299)*. No terceiro quartel 
do século iTf já lhes chamavam carneçarias velhas^; foram queima- 
das pelo exercito de D. Henrique II em 1373^, e ficando reduzidas 
a pardieiros^, tiveram por isso de transferir os talhos para outro 
logar. 

As seguintes confrontaçSes marcam claramente o local das carne- 
çarias: pardieiros que eUe (o rei) ha najudaria velha, junto com 

o poço de Fotéa, partem ao levante comjudaria, ao poente e avrego (sol) 

coni casas; a aguião (norte) o beco que foram carneçarias (1374) * — 

sótão e sobrado que são na judaria vdha, onde em outro tempo soiam 
de ser as carneçarias velhas, que são junto com um beco que está apar 
da porta por que sahem da dita judaria ao poço de Fotéa, quando vão 
da dita porta á mão esquerda para a rua direita (1436) ^. 

Transferidas pois as carneçarias do beco perto do Poço de Fotéa 
foram installadas talvez no sitio a que se faz referencia no seguinte 

documento : dois sobrados e mais um retrete (sic) com um poço, 

que desce dos ditos sobrados para a rua da correaria, os quaes so- 
brados estão sobre uma loja de um judeu detraz da dita correaria de 
contra a judaria, assim como partem de um cabo com a estcãa^em dos 
judeus, e do outro com a rua da cameçaria dos ditos judeus, e de leste 
com a casa de F. (judeu), e da parte da rua da correaria partem com 
F. (christâo), (1484)^. Esta Rua da Cameçaria, se n2o era a Rua do 
Arco de Jesus (de 1755), devia ser o Beco dos Tintes, ou alguma 
outra n^essas proximidades, que desappareceu, ou não se acha marcada 
na estampa. 

Na mesma Rua do Poço da Fotéa havia, do lado esquerdo cami- 
nhando para o norte, um outro beco, porventura o Pateo de Campo- 
lide^, em que estava situada a cadeia dos judeus, que julgamos ser o 



1 ÍAvro doê Bens dos Próprios dos Reis t das Rainhas, fl. 160, era 1337. 

' casa em Lisboa, na judaria dentro no beco d*apar das carneçarias 

velhas (1369).— ChanceOaria de D, Fernando, Uv. i, fl. 41 v, era 1407.— 

casas que êão najudaria vdha, que partfm com outras casas nossas, que são dentro 
no beco d^apar aponde soiam estar as eameçarieu velhas dos judeus (1369). — Ex' 
tremadura, liv. xi, fl 93 t;, era 1434. 

3 ChfimceUaria de D, Duarte, Hv. i, fl. 193, aimo 1436. 

« ChanceOaria de D, Fernando, liv. i, fl. 128, era 1411 (anno 1373). 

» Id., ibid., fl. 100 V, era 1412. 

• ChanceUaría êt D, Duarte, liv. i, fl. 193. — Veja-se também Livro dos Bens 
dos Próprios dos Reis e das Rainhas, fl. 107, era 1418 (aono 1380). 

^ Mosteiro de Chdlas, ii.« 802. 

• Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 1755, fl. 294 i;. 



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o Archeologo Português 323 

qne algans documentos chamam alfavez^: casas que são naju- 

daria vdha, na rua direita (Rua de S. João, de 1755), assim como vão 
para a porta do poço da Fotéa, á mão esquerda, apar do canto de um 

beco onde está o alfavez dos judeus (1450)*. — casas que foram 

cadeia dos judeus, em vUla nova que foi judaria grande, na freguezia 
de 8. CHào, em um beco que sae á rua do poço de Fotéa (1500)^. — 

rua que vae do poio para o poço da Fotéa, defronte de um beco 

onde éoia de estar a cadeia dos judeus (1513)*. 



Vejamos agora as oatras mas que sainn do pequeno largo em 
que estava o Poço da Fotéa. Ignoramos a origem da deneminaçlo do 
Beco dos Seguros ^, que parece ser posterior ao século xvii ; anterior- 
mente n&o sabemos qual tivesse ; casas á beira do poço da Fotéa, 

na rua que vem sahir á rua nova, onde mora mestre Vasco (1466)*. Esta 
rua n2o pertencia á Judiaria, cujas casas ficavam misticas pelo fundo, 

com as que nella existiam da parte do norte; casas á beira do 

poço da Fotéa, na rua que vem ter onde mora mestre Vasco, e entestam 
com casas da judaria (1474)^. Em um documento de 1599, que trata 
de umas coãoã no beco de mestre Vasco junto ao poço da Fotéa, acha- 
se escrito á margem, em lettra mais moderna: casas no beco dos se- 
guros *. 

Em direcçSo ao sul safa do largo a Travessa do Poço da Fotéa ^; 
em um dos lados d'esta rua houve em remotas eras uns banhos, ba- 
nhos de Fotéa, naturalmente alimentados, como os da próxima Bua 
da Gibitaria, pela agua das thermas romanas '^ : pardieiro que soia 



' Nfto encontramos esta palavra nos diccionarios pcHrtugoeses, nem no Foeo- 
btdario, nem no Elucidaria. 

2 ChanceUaria de D. Affonso V, liv. zxxiy, fl. 166 v. 
' Extremadura, liv. i, fl. 252 v, 

* Id., liv. ziii, fl. 127. — Oatra citaç2o na Chanedtaria de D, Manod^ liv. it, 
fl. 57 Vy anno 1505. 

& Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Bua Nova, 1755, fls. 161 v, 162, 
802 V a 904 v. — Corografia Portuguesa, etc, pelo P.« A. C. da Costa, tom. iii, 
1712, pag. 450. 

« Mosteiro de CheUas, lettra F, fl. 15. 

1 Id, lettra G, fl. 4. 

« Id., liv 3, fl. 52. 

• Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Bua Nova, 1765, fl. 299 w. 

w Mosteiro de Santos-o-Novo^ n.«> 388, era 1883 (anno 1345).— Id., n.» 839, 
era 1424 (anno 1386). 



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324 O Archeologo Pobtuqcês 

de ser casas, na rua nova junto com o tavolado, que partem com casas 
que foram banho, e com a rua nova, e com rua que vae da dita rua 
nova para o poço dafoteya (1396) * ; talvez fossem no local onde se con- 
struiu a igreja parochial da ConceiçSo Nova, pois que existiam dentro 
da igreja dois poços; um d^élles, que ficava em um saguão junto á 
sacristia, na occasião do terremoto (1755) se exhauriu e ficou chão com 
a terra péla elevação d'esta^. 

Finalmente, a quarta rua, ou rua de lava-cabeças que vae do poço 
da Fotéa para a rua de mata-porcos, onde estão as lameiras^ (1533)^ 
pertencia á populaçSo christã. Na freguesia de S. Julião, na rua onde 
lavam as cabeças (dos porcos ?), e entestam com rua publica que vae do 
forno derribado para o poço de Fotéa (1374)'. 



Vamos agora, para approximadamente marcar os limites da Judia- 
ria Velha, no tempo em que ainda era habitada pelos hebreus, isto é, 
anteriormente a 1496-^98, percorrê-la em volta com o auxilio da nossa 
estampa. Vemos que tinha vagamente a figura de um parallelogrammo 
obliquangnlo, com a diagonal maior um pouco desviada da direcçSo 
norte -sul. 

Começando pelo Largo de S. Nicolau ao sul da igreja^, que ficava 
no sítio e a meio do comprimento da actual igreja de S. Nicolau, en- 
contrávamos primeiro nelle, em F, talvez no fundo de um beco, a 
porta da adega que D. Fernando mandou fechar. 

Seguia a linha divisória em direcção sud-este, ao lado da Rua dos 
Torneiros e da Rua da Correaria, ficando as casas d'estas ruas contí- 
guas, pelo fundo, com as casas da communa^; havia nesta extenslo, 



1 Mosteiro de Santoa-o-Novo, n.*» 335, era 1434. 

* Diccionario Gtographico, ms. do Archivo Nacional da Torre do Tombo, por 
Braz José Rebello Leite, tom. xx, Parochia da Conceição, pag. 743. 

' Parece ser synonimo do sitio pantanoso ou lamaçal, — Vocabulário de Blu* 
teau; — Lameira; planta que vem nos lameiros, a que o vulgo supersticiosamente at* 
tribuia grandes e sobrenaturaes virtudes, — Diccionario Universal da Lingua Por* 
tuguesa, por uma sociedade de litteratos. 

* Chancellaria de Z>. João III, liv. xix, fl. 69. 

& CoUecção Especial, caixa u.^ 94, 15 de junho de 1412. 

* Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro do Rocio, 1755, fl. 142 v, 

'^ Os documentos comprovativos acham-se citados no nosso trabalho sobre 
As Muralhas da Ribeira de Lisboa, no capitulo intitulado «Algumas Buas da Fre- 
guezia da Magdalena». 



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o Abcheologo Português 325 

naturalmente uma porta em «7, e em -á a Porta da Ferraria dos Ju- 
deus. Chegava pois a Judiaria até muito próximo da igreja da Ma- 
gdalena, tendo talvez algumas casas sobre o sitio do actual largo da 
dita egreja. 

Da Rua da Correaria e Largo da Magdalena seguia a linha de se- 
pararão para o sul, descendo ao longo da Rua dos Ourives da Prata. 
Em B nSo devia haver porta, porque, como vimos, a pequena travessa 
que ligava o adro da Magdalena com o da egreja da Conceiçlo dos 
Freires só foi rasgada depois de expulsos os judeus. Em (7, no extremo 
oriental da Rua da Gibitaria, devia ter havido uma porta, mas nXo a 
encontrámos mencionada nos documentos que vimos. 

Ao ponto Z>^ isto é, quasi ao sitio em que se cruzam as ruas de 
El-Rei e da Princesa, devia chegar a Judiaria ; ha um documento que 

o dá a entender : casas no cometo da rua nova da parte da Ou- 

rivezaria; das costas entestam na judaria, e da outra (parte) com rua 
publica da rua nova (1447) *. 

D^ahi seguia a linha divisória para o poente, e depois para o nor- 
oeste, passando pela rectaguarda das habitações de christãos do Beco 
dos Seguros, do Beco de Lava-cabeças, do Pateo da Rosa^, da Rua de 
Mata-porcos, e da Rua dos Carapuceiros^. Em E abria-se a Porta da 
Fotéa, em Z a Porta da Rua do Picoto, e em (? a Porta do Chancudo. 
Esta ultima ficava muito próxima da actual Rua dos Correeiros, no 
sítio em que ella é cortada pela Rua de S. Nicolau. 

D'aqui, a linha de separação entre a communa hebraica e as fre- 
guesias christãs seguia em direcçXo ao norte, fechando no ponto de 
partida no Largo de S. Nicolau. Em jÈT houve naturalmente uma porta 
e no adro de S. Nicolau, uma outra, em Kj approximadamento. 



Em 1366, numas disposições ordenaâas por D. Pedro I sobre o 
trato e communicaçâo de christXos com' judeus e mouros, figura o se- 
guinte : ..... outrosim mando que cerrem logo os ditos judeus a porta 



1 Extremadura, liv. vii, fl. 32 v. 

2 Corografia Portuguesa, etc, pelo P.* A. C. da Costa, tom. iii, 1712, 
pag. 450. — Beco ou Pateo da Rosa, ou Largo de Lava-cabeças, no Tombo da Ci- 
dade de Lisboa, Bairro da Rua Nova, 1755, fls. 284 e 285. 

3 Corografia Portuguesa, etc, pelo P.« A. C. da Costa, tom. iii, 1712, 
pag. 444. — Tombo da Cidade de Lisboa, Bairro da Bua Nova, 1755, fl. 338 v. 



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326 O Archeologo Português 

do poço de Fotéa, e a porta do ckancuao, e a porta que está junto com 
as casas que foram de Falhava^. Esta ultima porta não sabemos qual 
fosse. 

O mesmo diremos de outras duas, que enoontrámos citadas em do- 
cumentos, mas cujas confrontações s2o com ruas cuja identidade com 
as que existiam em 1755 nSo nos foi possível estabelecer. 

Uma é a seguinte : sótão e sobrado á porta da judaria, as 

quaes partem com rua dos bainheiros, e com casas, e com a pmia da 
dita judaria, e da outra catn rua publica (1399) *. 

A outra é : casa, sótão e sobrado, na ruxi das ervas (sic) apar 

da porta da judaria velha, que parte ao levante com rua publica, ao 
poente, e avrego (sul) e aguião (norte) com casas (1368)'. 

No nosso estudo sobre As Muralhas da Ribeira de Lisboa, no capi- 
tulo qu^ trata das portas das muralhas que se abriam no Terreiro do 
Paço, dizemos que á rua que da Rua Nova ia para a Ribeira, por baixo 
do Arco dos Barretes, deram algum tempo a denominação de Rua da 
Cerva*. Comquanto seja fácil admittir uma grande semelhança na pro- 
núncia, e d'ahi corrupção na orthographia, basta lançar os olhos para 
a nossa estampa, para ver quão inverosímil seria fazer-se a confron- 
tação de uma casa junto ao Arco dos Barretes tomando para referencia 
qualquer porta da Judiaria, mesmo a do Poço da Fotéa, que era a que 
lhe ficava mais próxima. A Rua das Hervas, do tempo de D. Fernando, 
era pois uma das que ficavam próximas da linha de separação entre a 
communa e a christandade. 



Descriptos assim os limites topographicos da Judiaria Velha de Lis- 
boa, que já pelos auctores do século xvii eram ignorados, parece-nos 
ter fornecido os elementos sufficientes para desfazer a lenda de que 
ficava no local onde se construiu a igreja e o recolhimento da Mise- 
ricórdia, de que hoje resta apenas a igreja da Conceição Velha na 
Rua da Alfandega, e para demonstrar que nunca foi designada por 
Villa Nova de Gibraltar, como alguns auctores modernos teem imagi- 
nado, baseando-se na auctoridade de Alexandre Herculano. 

A. Vieira da Silva. 



1 Chancellaria de Z>. Pedro I, liv. i, fl. 124, era 1404. 

2 Extremadurci, liv. xi, â. 108 v, era 1437. 

3 Chancellaria de D. Fernando, liv. i, fl. 43 v, era 1407. 

* Extremadura, liv. x, fl. 183 v, anno 1436. —Id., liv. vm, fl. 174, anno 145L 



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Oãrghêit/^ /^^tií^aã 



A JUDIARIA VELHA DE LISBOA 




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o Abcheologo Português 327 



Ruínas do oonvento do Aloanoe (Alemtejo) 

 poente da villa de Mourão, a 1:680 metros d'ella e á direita do 
lanço de estrada que fica entre o Guadiana e a povoaçSo, estão, numa 
propriedade de Joaquim Caetano Guerreiro, as ruinas de um antigo con- 
vento, e áquem d'ellas, na distancia de 490 metros e parte mais alta 
da tapada da Balôa, encontra-se um calvário ou cruzeiro, resguardado 
por um pavilhão, cuja cobertura, de forma pyramidal^ descansa em 
quatro postes de schistO; como ella. 

As ruinas do convento não tem cousa alguma notável. O que nelle ha- 
via bom ou aproveitável foi vendido ou empregado noutra parte. O corpo 
da igreja e as dependências do antigo convento, que ainda estão de pé, 
servem de abrigo de gado ou arrecadação de alfaias agrícolas. 

O cruzeiro está mutilado, e, ainda de pé, o pavilhão e parte d'elle. 
Este cruzeiro compunha-se de uma colnmna cannelada^ com capitel 
ornamentado de folhas de couve lombarda; sobre o áha>co estava a 
imagem de Nossa Senhora da Piedade, de mãos postas, assentada e 
encostada a uma cruz, com o Senhor Jesus morto, deitado de costas 
no regaço' Segundo pessoas antigas, a Senhora estava voltada para 
o sul, e o Christo tinha a cabeça para o nascente e os pés para o poente. 

No capitel e sob os pés da Senhora estava um letreiro em portu- 
guês, em letra gothica, composto de cinco linhas, de que, apenas, se 
pôde decifrar: — Esta criiz foi mandada fazer por Pedro Domingos (?) 

religioso desta O cruzeiro é de mármore branco (material que 

não se encontra na localidade). As dimensões das partes não repre- 
sentadas no desenho são: Capitã, altura O", 16; comprimento 0",20; 
largura 0™,20. A Senhora (parte entre o coUo e os pés, a única exis- 
tente), altura 0°*,22. A cruz, a que a Senhora se encostava, tinha 0°*,09 
de diâmetro. 

O escabello (?) em que a Senhora está assentada tem 0™,10 de 
alto e o envasamento, em que está, fica saliente ao ábaco 0^,045. 

O capitel e a parte da imagem, que com elle faz corpo, foram re- 
colhidos no Museu de Cenáculo (annexo á Bibliotheca de Évora). 

O pavilhão é todo de schisto, material abundante na localidade. 

As letras da inscrípçSo eram guarnecidas de bitume preto, que ainda 
se vê em algumas d^ellas. 



^ Era semelhante á imagem do Padrão que esteve em Arrojos (Lisboa) e á 
da Cruz de Portugal (Silves). 



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328 



O AbCBEOLOGO PORTDGtJÊS 














< 0^3 > 
0^3 


r 











-2,10- 



Segnndo a lenda corrente na localidade, no lagar das ruinas foi 
mandada construir uma ermida pelo condestavel D. Nuno Alvares Pe- 
reira, dedicada a Saneia Maria de Évora Alcance^ em memoria da 



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o Archeoloqo Português 329 

victoria, naquelia paragem, obtida sobre os Castelhanos, em perseguição 
dos quaes elle ia de Évora. Posteriormente a ermida foi transformada 
em convento da Ordem de S. Camillo de Leilis. 

Esta lenda vem referida na Vida de D. Nuno Alvares Pereira por 
Fr. Domingos Teixeira *. 

No PoHugal antigo e moderno^j por Augusto Soares de Azevedo 
Barbosa Pinho Leal, lê-se o seguinte: íA 2:500 metros oeste da villa 
(Mourão) está a Capella de N. Senhora do Alcance, muito antiga e 
ampla. Segundo a tradiçSo constante foi obra do Condestavel, D. Nuno 
Alvares Pereira, pelos annos de 1400, em memoria de alcançar neste 
sítio um grande triumpho contra os Castelhanos, dando á padroeira 
o titulo de Sancta Maria de Évora Alcance, por ter saído de Évora em 
perseguição do inimigo e o ter alcançado neste logar. A batalha via-se 
pintadíuna parede do alpendre da Capella, ainda no fim do sec. xvii; 
porém uns mordomos muito iUustrados mandaram cobrir a pintura 
com grossa camada áe> cal. 

€ Junto a esta capella, e a requerimento do povo de MourSio, funda- 
ram 08 primitivos frades agostinhos descalços um mosteiro da sua 
ordem, em 1670, aonde se conservaram os religiosos até ao dia 23 de 
julho de 1676, sendo nesse dia obrigados a sair do mosteiro, por ordem 
do desembargo do paço, por nio ser um dos comprehendidos no número 
de dez, que a Sancta Sé havia^marcado pelo Breve da confirmação 
desta ordem. 

a O mosteiro caiu em ruinas, e apenas aqui ficou um ermitão, para 
cuidar da capella; mas hoje, e ha muitos annos, que nem ermitão 
aqui ha» ^. 

Assim, as ruinas do convento e o calvário (embora possa ser menos 
antigo do que elle) commemorarm mais uma victoria dos portugueses 
e um dos milagres militares do grande condestavel. 

Entretanto, na Évora Gloriosa^, lê-se o seguinte com referencia 
a uma acção entre portugueses e castelhanos nas margens do Digebe, 



* Impressa em 1723. Lisboa occid^ntal, pag. 464, n.°« 81 e 82. 

2 No artigo Mourão, Esta obra é impressa em Lisboa, 1875. 

3 Entre as imagens que existiam no convento e que hoje (segando o Rev.*'® 
P.« António José Lopes da Silva, natural de Mourão) se encontram numa igreja 
que fica a 500 metros de Mourão, e é dedicada a S. Bento, nota-se a do Senhor 
Jesus da Boa Morte, a qual representa, em tamanho natural, Nosso Senhor cru- 
cificado, e é tão perfeita que os entendidos a consideram um primor d^arte. 

4 Escripta pelo P.® Francisco da Fonseca, e publicada em Roma, no anno 
1728. Pag. 90, n.» 148. . 



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330 O Archeologo Português 

proximidades de Évora, em seguida ao regresso da batalha de Touro : 
cSeguio-lhe o alcance D. Garcia de Meneses feríndo-os, e matando-os 
tam generosamente, que a retirada se converteo em fugida tam confusa 
e precipitada, que abandonada a forma, chegaram totalmente descom- 
postos aos portos do Guadiana. O Alcayde mór de Mourão D. Diogo 
de Castro, e o fronteyro Rodrigo Casco de Vasconcellos, ambos Eboren- 
ses, conheceram desde o Castello que os Castelhanos iam batidos, e 
desbaratados, e saindo a elles com cento e sincoenta lanças, fiseram 
um cruel estrago. Está hoje no sítio d'esta victoria uma Ermida de 
Nossa Senhora, com a invocação de S. Maria do Odigebe alcance (outros 
disem Évora alcance) que se erigio para memoria, e acção de graças t. 

Doestas noticias se concluo que no sitio do Alcance foram obtidas 
duas victorias sobre os Castelhanos: uma em 1400 e outra em 1476. 

Em vista de o Condes tavel ter a devoção de fazer construir igrejas 
para commemorar as suas victorias, parece-me, salvo melhor parecer, 
mais plausível que a Ermida de Nossa Senhora do Alcance, em Évora, 
fosse mandada erigir por D. Nuno Alvares Pereira. 

Em todo o caso são dignas de veneração as ruinas do Convento 
que substituiu a Ermida de 1400, e, como ellas não se poderão hoje 
conservar, bom seria que o Governo mandasse restaurar e resguardar 
o Calvário, e que a Camará de Mourão tomasse aos seus cuidados a con- 
servação doeste, embora modesto, monumento da gloria nacional. 

C. DA Camâra Manuel. 



Anti^idades do Sul de Portugal 

Mosaico lasitano-i^mauo de Leiria.— Noto deus do pantlieon InsItaBlco 

Em sessão de 14 de Junho de 1899, por occasião da minha estada 
em Paris, fiz á Sociedade dos Antiquários de França, por convite de 
alguns membros d'eila, as duas seguintes communicaçSes archeologicas, 
que foram publicadas no respectivo Boletim, e que reproduzo aqui com 
pequenas alterações. 

I 

tLa mosaíque romaine polychrome dont j'ai Thonneur de vous pré- 
senter une aquarelle provient des environs de Leiria, en Portugal. 

La ville de T^eiria correspond à Tanciemie Colippo; on a trouvé 
dans cette ville, à des époques diversos, beaucoup d'autres antiquités 



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o ÂBCHEOLOGO POBTUGUÊS 331 

romidnes, sartout des inscriptions, qui ont été publiées dans le tome II 
du Corpus. 

Cette mosalque, três grande, oocupe á peu prés un espace de 
vingt mètres canrés. Avec elle on a trouvé des chapiteaux três simples, 
des moolins, des briqaes, des tuiles, des clous, une fibale eu bronze. 
Tons ces objets sont de Tépoque romaine. On m'a dit qu'il y avait aossi 
des monnaies romaines, mais je n'ú pu les obtenir. Comme il arríve 
souvent, cette mosaique a été trouvée par hasard, au cours de travaux 
ruranx. M. Eorrodi, professeur à Técole indastrielle de Leiria, m'a 
immédiatement averti de la trouvaille, et j'ai pu racquérir pour le 
Masée ethnologique portugais, grâce à Tobligeance de M. Luis Gaspar 
Portella, propriétaire da terrain. Elle est encore inédito. Malheureuse- 
ment, le monoment est un peu deteriore, mais la restitution idéale da 
sujet est três facile. On y voit Orphée jouant de la lyre, entouré d'oi- 
seaax et de quadrúpedes, par exemple le chien, le cerf, etc. Ce sujet 
est bien connu des archéologues. On a trouvé des mosaíques semblables 
en Italie, en Franco, en Afrique: ici même, au Louvre, il y en a une 
provenant d'Hadrumète. M. Heron de Villefosse en a dressé la liste 
dans le BúUetin des AnUquaires (1881, p. 320 et suiv.). Cependant, 
on ne connaissait encore en Lusitanie qu^une mosaique représentant 
ce sujet (Voir Archivo Pittoresco, i, 125); c'est pourquoi il m'a paru 
utile d'oflFrir à votre Société ces quelques renseignements três som- 
múres». 

II 

cL'autre sujet sur loquei je désire arrêter votre attention pendant 
quelques minutes appartient aussi à Tarchéologie romaine de mon pays, 
mais à une ré^on éloignée de celle dont je viens de vous parler. 

II s'agit d'une inscription romaine inédito, trouvée prés d'Evora: 

sa;^ctr 

VNESO 

CÉSIO 

SACRV 

GLIC . . . 

QVINT 

cINV . . . 

BALS 

Évora s'appelait dans Tantiquité Ebora. Les Romains lui ont donné 
le titre de municipium Liheralitas Itdia. De son ancienne splendeur 



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332 O Archeologo Português 

à Tépoque roinaine, il reste encore dans la ville d'importants ves- 
tiges: des inscriptions, des marailles, une porte et surtout on temple 
presque entièrement conserve dont j*ai Thonneur de fidre circuler une 
vue; malheureusement, on ne sait pas à quelle divinité il était consacré. 
Le Musée archéologique d'Evora renferme quelques antiquités trouvées 
dans rintérieur du temple, mais elles n^ont rien apporté pour la déter- 
mination de la divinité. Le temple òccupe le point le plus élevé de la 
ville, prés de la eathédrale. Évora est aussi célebre par ses monnaies 
autonomes ; on y a frappé deux sortes de monnaies à Tépoque romaine, 
représentées toutes deux dans le Cabinet des médailles de la Biblio* 
thèque nationale de Paris. Les environs d'Evora, comme tout le dé- 
partement, sout três riches en antiquités romaines. II y a une petite 
bibliographie sur ces antiquités: on doit surtout citer au xvi*' siècle 
les travaux d'André de Resende, le pèrô de Tarchéologie portugaise, 
et actuellement ceux de M. Gabriel Pereira, né à Évora et directeur 
de la Bibliothèque Nationale de Lisbonne. On y rencontre même des 
antiquités d^autres époques. Dans VArch, Port., iv, 121 sqq., j'ai publié 
dernièrement quelques notices d^antiquités préhistoriques de cette ré- 
gion. Cette même province (Alemtejo) a fourni aussi une belle épée de 
bronze que j'ai achetée pour le Musée ethnologique portugais et qui 
appartient à la fin de Tépoque du bronze. On a trouvé en France des 
exemplaires qui rappellent ce type: ici même, au Louvre, il y en a 
quelques-uns; mais en Portugal c'est le seul exemplaire connu de cette 
longueur. Le même type existe en Espagne (Voir Les ages préhisto- 
riqv£8 de VEspagne et du Portugal de M. Cartailhac, pag. 233). 

Ce n'est pas cependant de Tarchéológie préromaine que je veux 
particulièrement vous entretenir, mais, comme je Tai dit, d'une in- 
scription romaine. 

Je ne peux pas entrer dans beaucoup de détails sur la paléographie, 
et je resume Tétude que j*en ai faite. 

Je lis Tinscription de la manière suivante: 

Sancto Runeso Césio sacrum, Gaius Licinius Quinctinus, BaU 
sensis. 

Balsensis veut dire natif de Balsa, qui était une ville romaine de 
TAlgarve. 

De cette ville il reste encore de nombreuses antiquités romaines: 
des inscriptions, des lampes, des vases, des verres, des bronzes, etc; 
beaucoup de ces objets sont reunis dans le Musée ethnologique por- 
tugais de Lisbonne. 

Cette inscription est importante parce qu^elle nous fait connaitre un 
nouveau dieu du Panthéon lusitanien, Panthéon qui n'en était pas pauvre. 



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o Archeologo Português 333 

J*w rhonneur d'offrir sur ce sujet à la Sooiété, pour sa bibliothèque, 
le premier volume d'un ouvrage auquel je travaille actuellement et un 
abrégé en français de tout ce travail. 

Le nouveau dieu s^appelait Eunesxia Cesius. II est difficile de dire si 
Cesius est une épithète ou s*il appartieat proprement au nom, qui en 
ce cas serait composé, comme tant d'autres dn Panthéon lusitanien, 
par exemple Trebaruna. Le nom Runesus me parait celtique: forme 
du thème Run-, qui se retrouve aussi dans le nom de la déesse que je 
viens dè citer, Trebàrunayei dans Tirlandais run, qui signifie cmystère» ; 
le suffixe -esus se trouve par exemple en Lobesus, Lovesus, noms qu'on 
peut líre dans des inscriptions du sud du Portugal (Voir sur ce suffixe 
V Altcdtischer Sprachschatz de Holder). Selon cette explication, le nom 
du dieu signifierait quelque chose comme le mystérieux, dénomination qui 
convient parfaitement à un dieu et qui était aussi celle de la déesse 
que j'ai mentionnée plus haut. M. d^Arbois de Jubainville, Tillustre et 
aimable professeur au Collège de France, que j 'ai consulte sur Téty- 
mologie que je viens de proposer, ne la désapprouve pas. L'autre 
partie du nom, c'est-à-dire Cesitis, est plus difficile d^expliquer; ce- 
pendant, je ne serais pas éloigné de croire que dans ce texte, évidem- 
ment barbare, on a pu écrire Cesius au lieu de Gaesiusj parce que les 
lettres C et G d*un côté et ae et e de Tautre sont fréquemment sub- 
stituées Tune à Tautre dans répigraphie romaine. Dans cette hjrpothèse, 
Oaesius, serait un dérivé du mot celtique qui en latin a la forme gaesum 
et en grec la forme yataoç; comme ce mot signifie cdard,» Tadjectif 
Oaesius signifierait carme du dard». Runesus Cesius serait donc un 
cdieu arme du dard». 

Quoi qu^il en soit, le fait positif acquis à la science et surtout 
à rethnologie du Portugal, c'est que, à Tépoque romaine, les peuples 
des environs d'£bora adoraient un dieu appelé Runesus Cesius, qui 
portait probablement un nom celtique, ce qui est d'accord avec ce que 
nous savons de la domination des Celtes dans cette région du Portugal, 
soit par les auteurs comme Pline dans son Histoire naturelle, s^it par 
Tonomastique. Le nom même d'Ebora a la physionomie d'un nom cel- 
tique apparenté au nom irlandais xbhar, qui signifie cif>: le nom latin 
correspondant est taxus, d'ou provient la forme portugaise actuelle 
teixo, qui est abondamment représentée dans Tonomastique modeme 
du Portugal, particulièrement dans les derives, Teixeira, Teixedo et 
d^autres. Que le nom Ebora ait été, dans Tantiquité lusitanienne, un 
nom commun, cela est démontré par le fait qu'il y avait dans la Lusitanie 
d'autres localités du même nom. Un texte de Pline et une inscription 
que j 'ai décou verte, et qui est encore inédite, nous donnent Eburobrit- 



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334 O Archeologo Português 

tíum et EburO'] il y a encore aujourd'hui au nord du Tage, dans la 
région à* Eburobrittiumj un village qui porte le nom d*Evora. 

Ainsi, le petit texte dont j'ai Thonneur de yous parler soulève des 
questiona de deax ordres: la rèligion indigène á Tépoque romaine; 
rinfluence celtiqae dans le sud de la Lusitanie portugaise; et il foarnit 
snr ces deax sujets des indications qui contribuent à les éclairer». 

{BuUetin de la Société dea ArUiquaires de France, 1899, pag. 269-273). 

J. L. DE V, 



EpitapMos 



ObservaçSes sobre os que yem transcriptos em O Archeologo Por- 
tuguês, u, 144, 262, 149 e 150: 

1) O epitaphio do Dr. Gaspar Pinto Correia (pag. 262) é composto 
de distichos de hexametros e pentametros; deve pois escrever-se do 
seguinte modo: 

Hicjacet, hic tacUus loqtiitur sine você niagister. 

Multa loquendo dedit, plura taceiído doceU 
Multa dedit calamo et lingua documenta per orbein; 

Sed majora brevis dat documenta lápis, 
Qui mole vixit ertt post mortem mortuus ideni ; 

Post mortem vivus si bene vixit erit, 
Ars bene vivendi et moriendi est una, viator, 

in aeternum vivere, disce unori. 

Na lacuna da ultima linha deviam estar duas sjUabas, sendo a 
primeira longa e a segunda breve, e devendo esta acabar em consoante. 
Porventura o autor escreveu cFw et [também] in aeternum viverei w^ 
e teria na mente o verso de Vergilio — Vultis et his mecum pai^iter eon- 
sidere regnisf (Eneida, i, 572). 

2) No epitaphio que vem a pag. 146, em Petrus Durandi, o ge- 
netivo Durandi deve traduzir-se nSo por «Durando» (ou cDurão»), como 
fizeram Jorge Cardoso e Cerqueira Pinto, mas sim pelo patronjmico 
cDurâes». 

A pag. 148, linha 1.^, está ttbi, quando no fac-simile se lê sxbu 
O erro é tjpographico ou do ms. de Cerqueira Pinto, síbi por ei (assim 
como secum por cum eo) pertence ao latim medieval; encontra-se, por 
exemplo, no opúsculo anonymo publicado por Hey denreich com o titulo : 



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o Archeoloqo Português 335 

De Constaivtino Magno yusque matre Helena libeUiis^ a pagg. 5, 1. 25; 
14, 1. 6; 18, l. 8; 21, 1. 32; 22, 1. 6. Jorge Cardoso, pensando que 
8Íbi estava por tibi, traduzia inexactamente os dois últimos versos. 

3) O epitaphio de Fr. Estevío Vasques Kmentel (pag. 149 sgg.) foi 
aberto por individuo em extremo negligente, que chegou a pôr o nu- 
meral septuuginta em duas palavras, interpondo um ponto entre septiia 
e ginta. E pois ás vezes dífficil, senão impossível, reconhecer o que es- 
tava no original que o abridor tinha diante de si, 

O epitaphio é em distichos de hexametros e pentametros leoninos. 

No verso 3 devia estar Tiascy segundo exige o sentido e a rima, 
(com Valascy). 

No verso 8 foram saltadas duas syllabas entre inelim^e e transiit, 
sendo a primeira breve, e a segunda longa e final de palavra. 

Duvido absolutamente da exactidSo da palavra tetras no verso 7. 
Deve encobrir o nominativo de um adjectivo. 

Os versos 10 a 14 são obscuríssimos. Velho de Barbosa diz que 
no verso 10, em lugar de papa sedehat iby, devia ser talvez (adverbio 
supprímido no artigo de que estou fallando) papa accedehat ibi, NSo 
pôde ser porque ficaría o verso errado, sendo que as seis ultimas 
syllabas devem ter a forma — -'-^ — — e a supposta emenda de Velho 
de Barbosa (que assim mostra haver desconhecido a natureza do verso) 
daria ^— . No verso 12 a segunda -palavra era no original indu- 
bitavelmente Rivus. W não é o doble v germânico, senão as letras vu 
(em caracteres maisculos V V) enlaçadas. 

Que o % anteposto ao r é devido a erro do abridor da inscripção, 
prova-o a métrica, pois que assim a primeira sjllaba do verso, que 
tem de ser longa, ficaria breve. No verso 14 é obvio que devia estar 
numeratido. 

No verso 16 uhi plus placuit foi traduzido por Velho de Barbosa 
«onde melhor lhe agradou», erradamente. A traducção verdadeira' é 
conde, de mais (calem d'isto») lhe aprouve», (sendo o sujeito a oração 
seguinte de ut, para a qual pertence o adverbio uhi). 

No verso 18 consociis está bem; é dativo que pertence para re- 
liquit e ha-de ler-se cum sociis, que V. de Barbosa traduz fantastica- 
mente ccom as suas pertenças», hiis é graphia do dativo do plural 
de Í8, = iis; concorda com consociis. 

No verso 23 « é abreviatura de sic. 

No verso 25 tercentenit por ter centenis é evidentemente erro do 
abridor. 

Epiphánio Dias. 



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336 



O Archeologo Português 



Museu Municipal de Bragança 

Entre os objectos curiosos que tem entrado neste Museu venho 
aqui apresentar os desenhos de dois,^que, com o que foi encontrado 
nos Estevaes de Mogadouro e já foi enviado, por cópia, para O Ar- 
cheologo Português (vid. vol. V, pag. 250), constituem três exemplares 
muito interessantes e representativos de uma epocha. 

1) 




O n.** 1 é de cobre nEo oxidado, está bem conservado e foi achado 
no Castro de Picote (Miranda do Douro) com algumas moedas romanas 
e outros objectos de cobre. A respeito doesta povoação e do seu castro 
veja-se O Arch. Port. v, 143-145. 

2) 




O numero 2 foi encontrado no Castro de Argozello (Vimioso). É de 
cobre também, e está de tal modo oxidado que parece, assim como o dos 



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o Argheologo Português 337 

Estevaes, estar coberto de uma tinta esverdeada e luzidia. E, como 
se vê, trabalho mais perfeito e de mais luxo que o de Picote. D^elles 
parece que ainda pendiam appendices, pois que na parte interna das 
voltas se conhecem algumas saliências como que feitas pelo roçar de 
qualquer argola ou gancho de uma substancia rija como o cobre ou 
ferro. 

Foram «fibulas» usadas pelos povos que viveram nos castros onde 
foram encontradas. 

Bragança, Junho de 1900. 

Albino Pereira Lopo. 

P. S. 

SSo particularmente interessantes para a nossa archeología as fi- 
bulas precedentes, cujo typo constituo um dos caracteres da segunda 
idade do ferro, denominada de La Tène, do nome de uma localidade suiça 
que se tornou célebre como estação archeologica. A segunda d'estas 
fibulas encontra se noutras localidades da Peninsula, e parece ser-lhe 
peculiar; no Museu Ethnologico tenho alguns exemplares doeste typo, 
encontrados por mim no nosso oppidum de Pragança (Extremadura) ; cfr. 
também o que diz E. Cartailhac nos seus Ages prehistoriques de VEs- 
pagne et ãu Portugal, pag. 298-299, etc; dos bellos typos hespanhoes 
por este archeologo reproduzidos ibidem, pag. 298, possue o Museu 
Ethnologico Português um exemplar que adquiri em Hespanha, com 
outras preciosidades archeologicas, em 1900. A civilizaç&o de La Tène, 
que se propagou em grande parte da Europa, é também chamada 
gaulesa ou céltica. No Museu Ethnologico archivei outro exemplar das 
fibulas características de La Tène, que obtive na Suiça, e tem a mesma 
proveniência que muitos que estão no Museu de Zurich. 

J. L. De V. 



Notiol8U3 várias 



1* Moedas antigas 



«Na caserna do corpo de bombeiros, na Esperança, quando se 
procedia ao levantamento de umas lages, numa dependência do antigo 
convento encontraram-se algumas moedas sendo, 6 de ouro, 2 de cru- 
zado, 2 de oito tostões, 2 de dez, e de prata, 1 de 40 réis e outra de 
três vinténs, em perfeito estado de conservação,- e juntamente um co- 
ração de madrepérola com a seguinte inscripção: V.* C. MEVAMOR, 
tendo um arabesco por baixo, que parece gravado a agulha ou canivete. 

ti 



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338 O Archeologo Português 

Estes objectos vão ser remettidos pela inspecção dos incêndios, 
onde se acham, ao Presidente da Camará Municipal de Lisboa, que 
lhe dará o destino conveniente». 

(De um jornal, de cojo nome me esqueci de tomar nota). 

2. Yandallsmo 

«Em Silves, uma das quatro vetustas cidades do reino árabe dos 
Algarves, existe uma velha cathedral, monumento archeologico pre- 
cioso, digna de toda a veneração. 

O tempo, como é natural, imprímiu-lhe o seu cunho de vetustez, 
o aspecto denegrido, do que é antigo. 

A junta de parochia da terra, porém^ embirrou com a velhice do 
monumento e resolveu remoçá-lo. 

Mandou pintar de vermelho o templo, tanto exterior como interior- 
mente, e como as juntas das pedras, mordidas pelos séculos, estavam 
gastas e carcomidas, mandou-lhes fazer uns rebocos de gesso, salientes 
e em forma de frisos, brancos, para dar mais realce e, porventura, mais 
encanto ao singularissimo remoçamento. 

Ficou muito catita o velhissimo templo. De longe parece um chalet 
de praiai. 

(Notícia extrahida de um jornal). 

S. O pelourinho de Santa Combadio 

«Ha dias a Camará Municipal mandou mudar o pelourinho — um 
velho e grosseiro monolitho de granito — do largo do Engenheiro Ur- 
bano, para o do Tribunal, mas o encarregado da mudança, pela saa 
impericia, dirigiu por tal forma a operação, que a columna partiu em 
quatro pedaços. E como nSo ha meio de obrigar o mestre d'ohras a 
fazer outra, ali permanecem, e hão de permanecer, por largo tempo 
08 destroços d^aquella ohra prinva dos nossos maiores». 

(D'A Folha do Povo, de 2 de Maio de 1898). 

4. Antiguidades de Santarém 

c Numas excavaçSes que estSo fazendo em Pombalinho, para edi- 
ficação de uns lagares e adegas, tem apparecido bastas ossadas hu- 
manas, algumas moedas antigas e imagens de santos. 

Naquelle local, ou próximo, foi em tempo uma igreja sob a invoca- 
ção de Santo António». 

(O Século n.» 5:891, de 11 de Julho de 1898). 



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ii 



o ÂRCHEOLOGO PORTUGUÊS 339 



5. Mnseu de antlfruidades do Instituto de Coimbra 

•Reabriu no dia 1, ao público, o Museu de antiguidades do Instituto 
de Coimbra. 

Fundado em 1873, por iniciativa de um grupo de homens dedicados, 
este museu manteve- se durante annos com proporções modestas. 

Depois, a morte de alguns dos principaes influentes, e o can- 
saço de outros, fizeram que elle caisse em completo estado de aban- 
dono. 

Salvaram-o alguns enthusiastas e amadores, que, eleitos em 1895 
para a direcção da secção de ^rcheologia, tomaram a peito reorganizar 
o museu em proporções mais vastas, colligpndo alli todos quantos ob- 
jectos de valor archeologico ou artistico pudessem obter. 

Assim o fizeram, e a 26 de Abril de 1896 realizava-se uma sessão 
solemne da secção de archeolo^, para o effeito de inaqgurar o Museu 
na sua nova installação. 

Depois d'Í8S0, a direcção, que é composta dos Srs. Drs. António 
Garcia Ribeiro de Vasconcellos, Joaquim Martins Teixeira de Car- 
valho, Joaquim Mendes dos Reme£os, José António de Sousa Nasareth 
e de António Augusto Gonçalves, não se tem poupado a trabalhos para 
salvar da destruição os documentos históricos de maior ou menor valor, 
que ainda nos restam, e para os ir reunindo e coUeccionando. 

Em breve se reconheceu que as duas salas, denominadas c Ayres 
de Campos» e c Costa Simões», eram insufficientes para conterem ob- 
jectos. A direcção da secção de archeologia pede nestas alturas e obtém 
do reitor da Universidade, o benemérito dr. Costa Simões, a concesssão 
de umas casas occupadas pela Universidade e contíguas ás salas do 
Museu ; do Ministério das Obras Publicas consegue que se realizem as 
obras necessárias de adaptação, e assim se arranjam em poucos meses 
amplas salas, onde novamente se distribuem e installam os objectos, 
em disposição ao mesmo tempo ordenada e artística. 

Acabamos de sair agora mesmo do Museu do Instituto, e devemos 
declarar que saimos muitíssimo bem impressionados. 

Quer attendamos ao valor do que alli se encontra, quer ao bom 
gosto na disposição e arranjo, não é fácil depararem-se-nos museus 
que nos satisfaçam tão completamente. 

Vamos dar uma nota muito rápida do que é o Museu de antigui^ 
dades do Instituto. 

Oompõe-se de quatro grandes salas alem de pequenos annexos. 

A primeira sala (cAjres de Campos») tem duas secções. Encon- 
tramos em primeiro logar a secção romana, onde se vêem numerosos 



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340 O Archeologo Português 

monumentos sepulcraes, amphoras, tijolos, fragmentos de estatuas^ 
mosaicos e muitos utensilios de ferro e de barro do tempo dos ro- 
manos, todos encontrados em Portugal, e a maior parte d'elles nas 
ruinas de Conimbriga, perto de Condeixa-a-Velha, e de Aeminium, 
actual Coimbra. 

Ha aqui monumentos de alto valor histórico. 

A outra secção da primeira sala é medieval, rica de monumentos 
das artes românica e gothica. 

Chamam aqui a attenção, em especial, uma bella coUecçSo de 
imagens do século xiv, diversas esculpturas em meio relevo, nume- 
rosas inscripçSes gothicas, um bellissimo quadro cmudjari de estu- 
que, etc. 

A segunda sala («Costa SimSesi) foi destinada exclusivamente a 
faiança. 

Admira-se alli uma coUecçSo de louças, valiosissimas pela abun- 
dância e valor dos exemplares. 

Quem quiser estudar a historia da faiança em Portugal nSo pôde 
deixar de visitar esta sala, e de se demorar nella em minucioso exame. 
Os progressos da faiança coimbrS no século passado, antes da decan- 
tada influencia do Dr. Vandelli, são uma verdadeira revelação, devida 
ás peças documentaes aqui reunidas, a algumas das quaes não falta 
nem a assignatura do fabricante, nem a data do fabrico. 

Na terceira sala, encontram-se objectos de mobiliário, pinturas ^ 
esculpturas de madeira, uma vasta coUecção de manuscriptos em per- 
gaminho, plantas e alçados de vários edifícios e secções da cidade de 
Coimbra, desenhados no século passado, tapeçarias, vidros, bronzes^ 
etc, etc. 

Na quarta sala, acha-se reunido tudo quanto ha no Museu em estjlo 
da Renascença, encontrando-se alli bellos exemplares de escniptura de 
pedra, e nove magnificas estatuas de barro, que representam Jesus 
Chrísto e os apóstolos, de tamanho maior do que o natural, trabalho 
dos principies do século xvi. 

Finalmente, numa pequena sala contigua a esta, encontram-se ob- 
jectos que não tem cabimento em nenhuma das outras. 

Os trabalhos de installação foram dirigidos pelos Srs. António Au- 
gusto Gonçalves e Dr. Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, dois 
artistas distínótissimos e illustradissimos, aos quaes as artes devera 
mui relevantes serviços. 

Ambos são colleccionadores muito notáveis, e as suas collecç8es 
avultam no Museu do Instituto, que acabamos de descrever, e onde quem 
quiser pôde depositar qualquer objecto, desde que lá tenha cabimento. 



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o Archeologo Português 341 



A grande collecçlb do faianças que enche a segunda sala pertence 
quasi exclusivamente áquelles dois cavalheiros. 

O Museu acha-se aberto em todos os domingos e dias santificados, 
desde as 11 horas da manhS até ás 3 da tarde». 

(D'0 Secuh, de 16 de Janeiro de 1899). 

6. Relíquia apagada 

cNa freguesia de Molellos, concelho de Tondella, existe um baldio 
<|ue mede quatro kilometros em circumferencia, denominado o Tojal- 
Mau, em cujo centro se eleva uma eminência de quatro metros, appro- 
ximadamente, de cota, e setenta de circumferencia. Haverá quarenta 
annos que existia, em poder de uma mulher da freguesia, um roteiro 
a que ella n&o ligava importância alguma, e que passou ás mSos de 
um homem que mais ou menos orientado sobre a qualidade de the- 
souros escondidos num subterrâneo do referido local, lhe conferiu o 
devido valor pela luz que viria fazer sobre o caso. 

De facto, o tal roteiro dizia que no Tojal-Mau existia um thesouro 
enterrado, e indicava o ponto em que se encontrava. Este individuo 
usou de discreçSo, communicando o facto apenas a alguns amigos Ín- 
timos, e tratou de explorar o ponto que o roteiro recommendava. 

Começaram as excavaç5es, e, á profundidade de vinte palmos, 
encontraram pedra, removeram-na, e certificaram-se de que ella era 
como que a parte de entrada para uma galeria, cujo tecto era aboba- 
dado, onde entraram, e, avançando por ella dentro^ encontraram-se 
no interior de um quarto também de abobada, e construído com pedras 
enormes, cuja superfície devia ser de 5 a 6 metros quadrados por 4 
ou 5 de altura. Doeste quarto saiam dois corredores, um para leste 
e outro para nordeste, com dimensões taes que por elles podia tran- 
sitar um cavalleiro. 

Estes corredores eram também construídos com pedras enormes e em 
abobada. Dizia o referido roteiro que um d^elles ia ter ao rio do Portu- 
dinho, e o outro ao riacho das Fráguas, uma distancia de 4 a 5 kilome- 
tros. NSo se sabe se os individues, que exploraram o subterrâneo, 
encontraram o annuneiado thesouro, ou se este consistia em objectos 
de que se apossaram, diversos utensílios, entre os quaes alguns de 
mármore. Posteriormente, algumas pessoas voltaram a explorar, com 
a mira no decantado thesouro que o roteiro annunciava, mas debalde. 

Durante bastante tempo esteve aberta, á vista dos curiosos, esta 
relíquia; ninguém pôde, porém, ir ao fim dos corredores, pela falta 
de luz e ar que se fazia sentir gradualmente. Passados annos, um in- 



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342 O Archeologo Português 

dividuo, com prévia auctorização competente, procedeu á sua demo- 
lição, utilizando essa preciosa pedra na construcçXo de um prédio. 

Hoje, apenas existe a eminência, em cujo centro se abre um fosso, 
e algumas pedras notáveis pelo seu tamanho; os corredores estSo im- 
penetráveis pela agglomeração do entulho produzido pela demolição. 

E para lamentar que a auctoridade competente d'aquelle tempo 
consentisse na demolição d'aquella memoria tão digna de admiração. 
O que influiria para este fim? O magro dinheiro que pela sua apro- 
priação reclamariam? Talvez». 

(O Stculo, de 19 de Janeiro de 1899). 

7. Achado archeologieo 

fNuma bouça* pertencente ao Sr. Dr. Rebello Barbosa, de Santo 
Thyrso, procedendo-se a excavações, foi encontrado um grande vaso 
de barro dentro do qual estava um outro da mesma matéria cheio de 
moedas antigas, litteralmente cobertas de verdete e formando por assim 
dizer uma massa compacta, de forma que impossivel se tomava sepa- 
rá-las umas das outras e tirá-las pela bocca da vasilha. Partiu-se esta, 
e as moedas, adherentes umas ás outras, apresentavam o feitio da 
vasilha destruida. Depois de alguns esforços, conseguiu-se fragmentar 
o bloco das moedas e destacar algumas, reconhecendo-se que eram 
romanas, de cobre. 

As moedas são em grande quantidade, calculando-se em cerca de 
5:000. 

Procedendo-se á limpeza de algumas moedas (umas 130), notou-se 
que são do tempo dos imperadores romanos Gallieno e Probo, sendo 
muitas de bilhão e achando-se em perfeito estado de conservação». 

(O Popular, de 22 de Agosto de 1900). 



Tendo o redactor d' O Archeologo escrito ao Sr. Dr. Rebello Barbosa 
a pedir-lhe informaç5es do achado, recebeu d'elle as seguintes, que, por 
serem interessantes, aqui se publicam para explanação da noticia pre- 
cedente: 

«Paços de Ferreira, 30 de Agosto de 1900. — Espero reconstituir 
uma das vasilhas. A outra, que servia de envolucro á que continha as 



^ Chamada Lage, freguesia de Yillarinho, concelho de Santo Thjrso. 

/Goógie 



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i 



o Abcheologo Português 343 

moedas, n£o pôde já ser reconstituida, porque os seus fragmentos 
acham-se actualmente na posse de muitas pessoas. Junto do local do 
achado não ha vestígios de construcç5es, nem sepulturas. Segundo os 
melhores calculoS; as moedas foram enterradas ha mais de 1:600 annos, 
visto n^ haver moedas de Constantino Magno nem de outros impera- 
dores posteriores a este. Quando as moedas foram escondidas, a fre- 
guesia de Villarinho era completamente deshabitada. Vèrifica-se á face 
de documentos e prazos antigos que a freguesia de Villarinho começou 

a ser habitada depois de 1300t. 

Pedro A. de Azevedo. 



Eztraotos aroheologioos 
das cMemorias paroohiaes de 1768» 

S22. Monte-Mor-o-Yeltao (Beira) 

RainM 

fO seu primeiro nome foi Acedobriga que teve duraçam de 1780 
annos porque sendo seu Governador o Romano Manlio, 120 annos do 
salutifero nascimento lhe deu o nome de Cidade Manlianense, com que 
he conhecida dos Latinos *. Confirmasse o nome de Cidade por algumas 
antigas escrituras, pella constante tradiçam, largos e espaçozos ves- 
tígios de edifieios e sepulturas que mostram haver sido populoza, pois 
se estendia até o sitio de Ravel, que de prezente he olivedo, e terras 
de pam em grande circumferencia. Algumas pessoas se persuadem, a 
que teve o nome de Cidade de Arravel, mas nam se deve deixar o certo 
pello duvidozo». (Tomo xxiv, fl. 1465). 

82S. Monte-Negro (Tras-os-Montes) 

Mioft de estanho 

f Nesta dita serra junto a S. Julião em hu sitio que dizem VcUdoar 
me dizem pessoas velhas que ouvirilo dizer se tirava antiguamente esta- 
nho de hua mina; e lá se vem ainda hoje alguns vestigios» . (Tomo xxiv, 

fl. 1504). 

S24. Monte da Pedra (âlemtejo) 

Povoftçio antiga. — Penedo Oordo e Lage de Santo Estevio 

• Antigamente era esta Igreja a do logar do Sourinho e orago era 
Nossa Senhora com o titolo de Santa Maria, porem dezertarão os mo- 



^ Nota marginal: Manuscriptos dos Antiquários Manuel de Barros de Escovar 
e Capitam Mór António Corrêa da Fonceca. 



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344 O ÁRCHEOLOOO Português 

radores aquelle lugar que dista desta terra para ò Poente meya legoa 
ahonde ahinda hoje existem os fundamentos dos edificios que estio 
em terra da Sagrada Religi?(o de Malta. 

A razão, o motivo que se dis, tiverSo os moradores para dezem- 
pararem aquelle logar e Povoaçam do Sounnlio forão humas Fantas- 
mas ^ que tãobem se diz ali apparecião e intimidados delias os moradores 
forSo obrigados a dezemparar aquelle lugar e constetuir a Freguezia 
em este Monte da Pedra, em huma Ermida de Santiago que aqui estava 
e por isso ahinda hoje os moradores eonserv&o a Imagem de Santiago 
em o Altar Mor ao lado direito. 

Neste lugar de Sourinho se diz moraySo e assistião muitos Cavai- 
leiros que se ehamavâo os Cavalleiros da Espora dourada, os quais 
por tradição se diz que se extinguirão e morrerão na seguida que fi- 
zerSo a ElRej Dom Sebastiam para a guerra, porem como com os 
incêndios se consumirão os livros e papeis antigos, nSo ha hoje outra 
certeza mais que t&o somente a tradiçSo e a pouca curiozidade fas 
muitas vezes ficar as coisas em esquecimento. , 

Chama-se a esta terra o Monte da Pedra pela notabelidade de 
duas pedras que estSo no seu limite; huma chama-se o Penedo Gordo 
que está junto a esta terra na distancia de cento e cincoenta passos 
pouco mais ou menos, ahonde os moradores deste Povo ajuntSo no 
verSo todo o pHo em palha e asi o fabricam e malh&o com muito cómodo 
porque podem no mesmo tempo andar seis lavradores tratando sepa- 
radamente cada hum do seu paro. 

A outra pedra chama-se a Lagem de Santo Estevão a qual fica 
distante deste Povo a seixta parte de huma Lagoa para a parte do 
Sul, esta está em huma Planice com alguns cabeços pequenos de redor 
inclinada para o sul, porem he tão plana que por qualquer parte se 
pode entrar e sair delia, tem de comprimento cento e septenta passos 
pouco mais ou menos; e de largura tem noventa passos pouco mais 
ou menos. 

Para os seus naturais exagerarem a grandeza e singularidade desta 
Pedra ou Lagem, dizem que se podem em hum mesmo tempo fazer 
em ella quatorze Malhas. Chama-se-lhe a Lagem de Santo Estevão 
porque está perto de hum cazarão que era antiguamente Ermida de 
Santo Estevão que se acha hoje colocada na Igreja desta Freguezia e he 
de quem se fas mensão no Interrogatório treize, ut infra». (Tomo xxiv, 
fl. 1510). 



» Cf. n.o 169 dVsta CoUecçãò. 



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o ÁRCHEOLOGO PORTUGUÊS 345 



S25. Monteiro (Beira) 

Outeiro dft Bandeira 

c hum outeiro que eliamSo da Bandeira situado perto deste 

lugar a parte do nascente e o mais alto deste sitio: dizem as pessoas 
antigas que este nome lhe ficara por no tempo das guerras no levan- 
tamento se dar signal com hua Bandeira por ser sitio alto. Bem pode 
ser esta a razSo do nome, seja o nSo tivesse nesse tempo nascido de 
algua acçSo supresticioza». (Tomo xxiv, fl. 1689). 

826. Monra (Aleintejo) 

Estatua romana. — Inscripçio romana e ontroa portagaeses. — Lenda 

Freguesia de Santo Agostinho. — t Marco Antero Paulino, que por 
famigerado se lhe levantou estátua, cuja inscripyão se achou em huma 
pedra de altura de hum homem, a qual estava enterrada em hua querela 
de terra dos religiosos do Carmo desta villa, junto ao porto de ArdiUa, 
<[ue vay para Mourão aonde se achSo vestígios de grandes edifícios». 
(Tomo XXV, fl. 1731). 

Freguesia de S. João Baptista, — «No castello da villa se descobre 
hum padram em huma quina do Convento das Rellij^ozas de Nossa 
Senhora da Assumpção com esta inscripçam: 

JULIAE AGRIPINAE NERONIS CAESARIS MATRI 
NOVA CIUITAS ARUCITANA». 

desta inscripçam se vê, que sobre o mesmo padram leuantaram os mo- 
radores statua a maj de Nero para eternizarem agradecidos nos séculos 
futuros a memoria de algum grande benefficio que lhe deuecem. Quando 
os mouros conquistaram os Hespanhoes ficou Senhor de muytos povos 
de Alemtejo com titulo de alcayde hum Mouro potentado chamado 
Boaçem, o qual deu a senhoria desta grande pouoaçam a sua filha 
Saluquia com o titulo de Alcajdesa. Como a senhoria hera moura e 
a cidade com o tempo perdeo o splendor primejro, trocou o titulo e 
o nome: pelas ruinas do tempo, ficou somente com o titulo da villa; por 
ser moura a senhoria, ficou com o nome de Moura. Dizem outros que 
lhe ficou o nome de Moura, porque Dom Álvaro e D. Pedro Rodrigues 



Completa em parte no ii.« 963 do Corp. Insc. Lat. 

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346 O Akcheologo Pobtugcês 



caualheyros que servirão de tronco a familia illustre dos Mouras fo- 
ram 08 que a resgataram do poder dos mouros». (Tomo xxv, fl. 1741). 
«O tecto he de madeyra e dos trez corpos que forma a Igreja {do 
Convento dos CamulitcLS Calçados)^ o do meyo he todo estradado, a dos 
lados e o mays corpo da Igreja estam lagiados com 120 campas ma- 
gnificas de mármore com as armas de seos donos e varias inscripsoins, 
entre as quaes se lê em huma este Epitaphio cellebre: 

AQUI JAZ JOÃO DE ABRIL 
QUE MORREU 
POR SE RIR.. 

(Tomo xxv, fl. 1743). 

«O sino he o grande que se conserva hoje na"^orre do Conventa,- 
por meyo do qual obra a Senhora (da Luz) continuamente muytos 
prodígios afugentando as tempestades, e fazendo bem succedidas nos 
seos partos todas aquellas mulheres, que tem aperto semilhante a in- 
vocam com devoção». (Tomo xxv, fl. 1750). 

cA hum lado desta Capella (do Conde de Vcd dos Reis) ultima está 
erigido hum Mausoleo soberbo de mármore embutido na parede com 
esta inscripção formal: 

AQUI JAZEM OS CAVALHEYROS QUE RESGATARAM 

E GANÇARAM AOS MOUROS ESTA TERRA EM TEMPO DE 

DOM ROLIM». 

(Tomo xxv, fl. 1751). 

827. Monrfto (Tras-os-Montes) 

Cabeça murada. — Anexim local 

«Sertefico em como tudo o Referido asima he verdade e nam achey 
couza mais couza de sustancia nem notável de que se faça memoria 
mais do que estar esta pouoacam defronte de hum cabesso que se 
chama Cabeça Morada sito no destricto de Vai do Forno e distante 
huma Legoa desta pouoacam. Ha outro destricto ou sitio a que chamam 
Lubazim e por intunumazia se dis deziam os Mouros coando foram 
espulçados destas Terras : Cabessa Murada e Vai Lubazim munto ouro 
e prata fica em ti. Donde infiro que por se chamar Mouram esta po- 
uoacam e ficar em meio dos dous si tios já referidos seria abitaçam em 
algimi tempo de Mouros e como de Mouram para Mourama só lhe 



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o Archeologo Português 347 

-■' 

falta á, seria falta dos Escrítoros o a quererlhe calar os Moradores^». 
(Tomo XXV, fl. 1788). 

Si8. S. Martlnho-de-Monros (Beira) 

Origem do nome 

fHe esta terra chamada o Concelho de Sam Martinho de Mouro, 
denominação que me persuado lhe prouem asi de ser antigamente 
habitada de Mouros, ou de Barbaridade dos costumes de seos habi- 
tadores; porque de ordinário sam soberbos, e altivos ainda que pobres 
na mayor parte, qualidades que suponho particip&o de Júpiter por ficar 
mães chegado a este tenitroante (sic) prezidente dos ares». (Tomo xxv, 
fl. 1825). 

S29. Moita (Extremadnra) 

Inscrípv&o portngaofa 

cOutra Capella fora da villa próxima a ella com o titulo de S. Se- 
bastião, que foi freguezia e sagrada he antigua, pello que consta da 
primeira pessoa velha sepultada por hum letreiro de letra gótica que 
se acha lavrado em huma pedra dentro da Igreja da parte do norte 
no meyo da parede; que dis o seguinte: 

AQUI JAS CATHERINA MARTINS MOREIRA 
FILHA DE MATHIA8 VASQUES MOREIRA ESCU- 
DEIRO CRIADO DE ELREY D. DUARTE SEU 
VASSALO, E FINOU NA GUERRA PESTINHOZA, 
NESTA ERMIDA EM IDADE DE VINTE ANNOS 
MOÇA ESCOSSA («c) A DOZE DE lULHO, ERA 
DO SENHOR DE 1453. A PRIMEIRA AQUI SEPULTADA. 
DEOS HAJA SUA ALMA A BEM. 

(Tomo xxv, fl. 1846). 

880. Mozellos (Beira) 

Oatoiro do Mnrado 

«Junto a esta Igreja ha hum outejro a que chamam do Morado 
que fica munto alto em hum monte o qual serve de apacentar os gados 



^ As vinte povoações existentes em Portugal, desde Tras-os-Montes até 
o Alemtejo, com o nome de Mourão, tem todas a mesma etjmologia, que é Mau- 
rant ou Mauran, nome de homem. 



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348 O Archeologo Português 

cuja planicia no alto delle terá de comprido dozentos braços e de largura 
mús de cem tudo plano na suma altura mostra este no^ antigos tempos 
ser cercado com bailo, cuyo monte ou outejro dizem os antigos que foi 
Praça dos Mouros, de cujo se descobre grande parte do Mar, a \illa 
de Aueyro e todo o Rio que fica junto* i. (Tomo xxv, fl. 1883). 

SSl. Moiellos (Entre-Donro-e-MInbo) 

Ruínas de um paço 

cHa memoria de huma Caza chamada do Passo ^, de que ha poucos 
annos havia vestígios de pedras, portaes, genellas, e outras que mos- 
travam grandesa da ditta couza, mas hoje nada disto ha no tal sitio, 
este hera na chamada quinta do Passo, que ainda assim se chama, a 
mayor parte delia esta inculta, cheya de Carvalhos que dam Lenha 
e a menor parte se lavra e cultiva; esta Casa he tradiçam que fora 
de huus Brandões e Barbozas, gente nobre». (Tomo xxv, fl. 1888). 

892. Mnraja (Beira) 

Tumulo. — Grandes lages 

cOs privillegios e antiguidades desta freguezia he somente achar 
se na Parochia delia hum Tomolo de pedra lavrada, mitido em hum 
largo Nicho da parede da mesma que he de hum acendente da caza 
de Mello ». (Tomo xxv, fl. 1978). 

cNam ha couza mais notável no dito Lugar dé que estarem a major 
parte das cazas delle circuitando hamas grandes Lagias, que ficam 
no meyo e lhe servem de heyras para malhar, estender e recolher os 
frutos e palhas, com tanta largueza, que podem muito bem andar seis 
ou cete malhas todas juntas, e ficando no meyo da mesma Lagía a 
capella do gloriozo Mártir S. Sebastiam ». (Tomo xxv, fl. 1979). 

S$8. Nandafe (Beira) 

Arcof de pedra. — Crasto 

aFinalmente advirtase que a Igreyja deste Povo Nandufe tem nas 
costas ao lado, que lhe fica ao Norte trez Arcos de pedra miúda rentes 



* Cfr. O Árch. Port, m, 139. 

2 Os grandes proprietários do norte, no período da reconquista clirístíL, as- 
sistiam em Paços (palatioe). Paços (palatiolos) e Sás (salas). 



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o ÂRCHEOLOOo Português 349 

da terra, e já tapados ha muntos annos com o mesmo material, e nam 
ha quem dê inteliigencia a elles. Somente dizerem mantos que já ou- 
viram dizer aos mais Antigos, que devia ser mysquita de Mouros, e 
para mais veneraçam de Sam Joam Baptista intravam e sahiam por 
aquellas portas por lhe nam virarem as costas. E ha hum sitio perto 
desta Igreyja chamado o Crasto, que bem mostrava antigamente ser 
Cidade, ou Povoaçam de Mouros, porque nelle haviam aUcerses de 
Cazas e delia trouxeram pêra fabricar cazas muntos do Povo pedras 
bem quadradas, e com vários feytios, cujo sitio está de monte, pinhais 
e oliveyras e outras mais Arvores». (Tomo xxv, fl. 41). 

8aé.NUai(ÂleniteJo) 

InBorípçdes Portuguesa e romana. — Anta. — Achados de mosaicos.— L^ge artificial.— 
Pelorinho. — Grata 

Freguesia de Nossa Senhora da Graça, — «Floreçeo em virtudes 

Frey Adam Dinis, natural desta vilta foy sepultado no Adro da 

Matris como se vê do Epitáfio da Campa de sua sepultura: 

AQUI JAS FREY ADÃO DINIS 

delle fas menção o Padre Frey Agostinho de Santa Maria no to- 
mo 3.® do Santuário Marianno, Livro 4.® paginas 392». (Tomo xxv, 
fl. 150). 

Fregitesia do Espirito Santo, — tNo convento de S. Francisco da 
Cidade de Portalegre se acha em hum Livro, que trata das antiguidades 
das terras deste Bispado e diz assim: «A terceyra povoaçSo em anti- 
guidade (dado que já destruida) foy Nisa estSo seus edifícios junto da 

vilta de Niza, que parece ser depois edificada em memoria da antiga 

etc.» (Tomo xxv, fl. 168).. 

aAhinda hoje em as dittas ruinas se acha trigo queimado, como 
carvio; porem, com figura que bem dá a conhecer o que era. Poucos 
annos há andando lavrando hum Laurador achou em huma pilheira 
subterrânea huma Vazilha de azey te e feyto exame, de que tinha dentro, 
se achou ser azey te ahinda com sua própria forma; porem, sem gosto 



^ Nam documento de 8 de Novembro de 1352, que inclue um outro de 8 de 
Maio de 1829, faz-se menção da quinta e ribeira da Aniêa. Archivo Nacional, 
CoUecçâo Especial, caixa 113. 



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350 O Archeologo Português 

algum, do que era. Neste mesmo citio estão ahinda hoje vestígios de 
muytos edifícios: como sEo: O castello, que a ditta villa tinha, cujo está 
em hum outeyro muy alto, principalmente para as partes do Nascente, 
e Norte, de cujas era invencivel. No mesmo citio se tem achado muitos 
dinheyros do tempo dos Romanos; e alguns se conservílo ahinda hoje 
nesta Villa». (Tomo xxv, fl. 168). 

cÂo poente desta Villa em huma tapada se achou há annos hum 
tumulo com seu amparo de parede em roda sobre o qual estava huma 
pedra de cantaria fína, e nella o Epitaphio com as letras que abaixo 
vSo; hoje, porem, se acha a ditta Campa posta por escarçam de huma 
janella em huma caza que o senhorio da ditta tapada mandou fazer 
junto do ditto tumulo, que fica distante dos muros desta villa para 
o Poente hum bom tiro de baila, e para porem a ditta pedra no lugar 
referido lhe abrirão hum buraco, com cuja abertura cortárSo as lettras 
que se prezume diriSo o Imperador, que então reynava*. 

Há também, junto da Ermida de São Qens, que em seu lugar vay 
huma legoa distante desta Villa ao Sudoeste a trinta passos ao poente 
da ditta Ermida, huma Anta de tal grandeza, que he admiração o ver, 
como se pôde por a lagem em sima das grandes pedras de que está 
formada, pois sendo da largura de huma caza ordinária, tudo cobre 
a ditta Lagem e tem de ^ossura quatro palmos. 

Ha no termo desta Villa, em distancia de huma grande Legoa ao 
sudueste no mesmo citio da Anta assima, huma lagoa a que chamão 
Posso da Lança. Â Etimologia do seu nome ignorão os naturais. Esta 
tal lagoa ou posso foy algum dia mina de pedras preciozas de varias 
cores; porem hoje está occupada das agoas e tão copiozas, que há 
annos veyo hum sugeito de Lisboa por ordem do Senlior Rey D. Joío 
Quinto de feliz memoria a trabalhar nelle para descubrir a ditta mina, 
e com todas as bombas que trouce o não pôde esgottar, e só chegou 
a descobrir nelle forma de Cazas subterrâneas ao lado do posso. Vendo 
o ditto sujeito a impossibilidade que havia para o esgottar, abrio outro 
junto delle vinte passos, e nelle encontrou hum grande pé de Sovereyro 
com cortiça de grossura de hum palmo, e aprofundando-o athe altura 
de settenta palmos, delle tirou muyta pedra de varias cores, como 
Amarellas que erão as mais finas. Vermelhas e brancas com rayos azuis, 
e também roxas e todas o ditto sugeyto mandou para Lisboa. Nesta 
terra também ficarão algumas que hoje se conservão postas em anéis. 
Huma branca e azulada que o dito sugeito mandou pôr no peito da 



1 N.*» 171 do Corp, In$c. Lat, 



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o ÂRCHEOLOQO POETDGUÊS 351 



Imagem do Senhor SSo Gens, que fica perto do ditto posso, e tinha a 
grandeza de &ama amêndoa de casca, furtario-na ao ditto Santo; e só 
existem no seu resplandor algumas mais piquenas vermelhas e verdes* 
Foy cavando o ditto sugeito profundamente athe que sahio agoa em 
tanta quantidade, que lhe impedio o intento. Huma memoria se acha 
deste posso nesta Villa e he que no anno de 1561 pella falta de agoa 
que houve davfto a beber em vazilhas aos gados da agoa do ditto posso, 
e pella muyta agoa que tirarSo aparecerão duas escadas Lavradas na 
pissarra que descifto para baixo, e hoje se vem ahinda quatro degraos 
de pedra de cantaria que descem para baixo. Tem hum bojo muyto 
largo e em certo tempo se conta hindo hum carreteiro com os seus 
boys prezos á carreta, por junto do ditto posso, principiarão a fugir 
de tal sorte que se despenharão para dentro delle, e quando chegou 
o dono já não vio, senão a bulha da agoa. Está o ditto em o cume 
de hum outeyro, sem passos, pouco mais, ou meno& do Rio Sor, que lhe 
passa ao meyo dia; e segundo o parecer de muytos, se podia com 
empenho esgottar com huma oortadura. 

No anno de 1718 que foy, quando inttentarão esgotar o ditto posso, 
tinha de fundo trinta braças, hoje, porem, tem só doze. Ahinda agora 
na circumferencia do ditto posso se achâo muytas pedras transparentes 
mais ou menos humas que outras, de que se tem approueitado muytas 
pessoas, que os tem levado para Elvas, e Portalegre e outras terras 
para imbutidos de fontes, etc. Há também nas vezinhanças do mesmo 
posso huma fonte a occidente délle meyo quarto de legoa a que chamão 
Fonte Fadagoza, unicamente com aquelle omatto de que a dotou a 
natureza etc.». (Tomo xxv, fl. 171 e segg). 

«O Plourinho parece que era ahinda o de Niza a Velha por estar 
esculpida nelle a cruz da Ordem do Templo. No simo das portas prin- 
cipais desta villa estão dous letreyros em pedra mármore, dos quais 
consta em como o Senhor Rey D. João Quarto tomara por Padroeyra 
do Eeyno a Nossa Senhora da Conceyçâo». (Tomo xxv, fl. 175). 

«Na mesma serra (de S. Miguel) indo desta Villa para o porto de 
Villa Velha de Ródão, á mão esquerda e a terça parte de huma legoa, 
antes de chegar ao Tejo, para a parte do Poente está huma grande, 
profunda e dillatada grutta, que eu já prezenceey, com a boca para o 
sul: chamão os naturais a esta grutta Boca da Fayopa, e dizem, que 
vários sugeitos vindos por ali com livros de minerais e thezouros tem 
perguntado por esta mesma grutta com o nome de Fayopa. Muytos 
homens temerários que ahinda hoje existem vivos nesta villa tem tomado 
a empreza de hirem examinar a distancia da referida grutta levados 
da ambição de que ali se conserva notável thezouro; e tendo andado 



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352 O ÂRCHEOLOGO PORTUGUÊS 

por beneficio de linternas mais de meya distancia, que pella parte 
fasceal lhe corresponde todos confesslo que vay muyto para diante e 
nSo passarem dali, he por cauza de huma lagoa que no ditto cittío occupa 
a grutta, e os impede e n2o ha duvida que paresse ser assim, porque 
na falda da própria Serra para a mesma parte do poente correspon- 
dente a meya distancia da ditta grutta, sahe quazi meya telha de agoa, 
sinal evidente de ser a mesma que pellos mattos da terra corre, sendo 
a sua arca aquella a que os temerários chamfto lagoa dentro da grutta. 
Ha também no fundo da mesma serra junto do lugar em que sahe a 
referida agoa mas já em campo razo, hum citio a que os naturais 
chamfto Conhal dito assim, por haver nelle, quazi immensos montes de 
seyxos ou pedras a que elles chamfto cenhos e está quazi junto ao 
Tejo. He tradiçfto constante ser este citio mineral de ouro no tempo 
que os Carthaginezes e Romanos rezidi&o neste Puz e se faz digna 
de credito esta tradiçfto por se devizar ahinda hoje em distancia mais de 
huma legoa, huma custoza levada que principia na ribeyra de Kiza 
e dali vay em direytura ao sobreditto Conhal, pella qual dizem se levava 
agoa pêra as dittas minas: hoje porem nfto pode hir a agoa pella dita 
levada, por estar já muyto entulhada». (Tomo xxv, fl. 176 segs). 

S85. Nogueira (Beira) 

Tbesonroi e restii^os doa mouros 

Freguesia de S. Ckristovão. — iNfto consta que na Serra desta fre- 
guezia se abrisem nunca minas só consta que junto a dita Serra há 
hum sitio que chamfto Sam Payo e dizem que em algum tempo nelle 
habitarfto Mouros e no mesmo sitio se vê algus vestígios de quererem 
habitar nelle; a algumas pessoas se tem introduzido e o querem ter 
por certo que no mesmo sitio ha thezouros mas que huma Moura 
encantada o guarda, eu tenho isto por fabula e ahonde fundfto alguns 
ignorantes o seu pensamento he que no mesmo sitio algumas pessoas 
acharSo alguns trastes como foy dizem huma argola de ouro, mas já 
nfto ha memoria de quem os achasse». (Tomo xxv, fl. 193). 

aNfto consta que neste nosso Reyno tenha o dito Rio Douro ponte 
alguma; nesta dita freguezia nos regatos que já disse há duas pontes 
de pedra e huma de pau; e huma delias que existe no sitio de Sani 
Payo, dizem que fora fabricada pellos Mouros quando no dito sitio 
fizerfto alguma habitaçfto mas esta se acha sem goardas e aruinada 
em algumas partes delia». (Tomo xxv, fl. 197). 

P£DBO Â. DE AZEVEDO. 



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índice 



ACQUISIÇOES do Museu Etimológico Português: 

Dadiva feita ao Museu pelo Dr. Alves Pereira : 33. 

ANTIGUIDADES LOCAES: 

I. — i*or ordem chronologrica 

A) Prebistorlcas: 

Loiça neolithica da Junqueira (Figueira da Foz) : 123. 
Gh)iva de pedra' da Figueira: 205 (com figura). 
Machado de metal : 280 (com figura). 

B) Lusltano-romanas: 

Limia e Brutobriga: 2. 

Estudos sobre Tróia de Setúbal : 7 (com estampa). 

Alcobaça archeologica : 79 (com figura). 

Necropole luso-romana dos arredores de Lagos : 102 (com figura). 

Obejectos romanos achados em Coruche: 104 (com figura). 

Arco e muralha romana de Évora: 110 (com figura). 

«Cidade» da Concórdia (Baralha): 119. 

Antiguidades várias do concelho da Figueira : 122. 

Gimonde : 136 (ruinas e marco milliario). 

Vestígios romanos emVianna do Castello: 175. 

Quinta da Ribeira (Tralhariz): 193 (com figura). 

Carranca de bronze: 281 (com figura). 

Antiguidades de Lisboa: 283. 

Mosaico de Leiria: 330. 

Deus Runesus : 331. 

Í3 



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354 O Archeologo Português 

O Portngriiesag: 

Sêllo do Padre-Mestre Origiis : 24 (com figura). 

O cálix de ouro do mosteiro de Alcobaça: 65, 97, 129, 161 (com illus- 

tração). 
O morgado de Andró de Resende: 87 (com figura). 
Esculptura de pedra de Ferreira d'Aves: 116. 
Castellos de Fraiào e de Pena da Rainha: 134 
Castello de Noudar : 146. 
Paço ducal de Barccllos: lõl (com figura). 
Topographia histórica de Lisboa: 212, 258, 305. 
Amuletos: 287 (com figuras). 
Convento do Alcance : 327 (com figura). 

D) De dirergag epoohag e de epochas Indetermluadas: 

Banhos antigos de Leiria : 117. 
Da Lusitânia á Betica : 225. 
Areheologia trasmontana : 290. 
Antigualhas de Molellos : 341. 

Vid. neste índice : Castros^ Crrutas, Dolmens, Fibulaê, Epigraphia e Nu- 
mismática. 

II.— Por ordem geographica 

A) Alemtejo: 

Alcance: 327 (com figura). 

Ayres (N. S.* de) : 117 (inscripção romana). 

Beja: 225 (museu). 

Casa Branca (herdade): 116 (inscripção romana). 

Crimeia (herdade) : 170 (inscripção romana). 

Elvas : 31 (ponte de Oli venças). 

Évora: llO (arco e muralha romana), 171-172, 331 (inscripção). 

Juromenha: 29 (vestígios). 

Machede : 159 (vária). 

Manisola (Évora) : 87 (André de Resende) 

Marmellar : 189 (ruinas de um palácio). 

S. Mathias: 254 (castello de Giraldo) 

Matos: 255 (ruina). 

Mertola: 239 (vária), 256 (ruina), 

Mombeja: 299 (outeiro do circo). 

Monsaraz: 303 (inscripção latina portuguesa). 

Montemór-o-Novo : 304 (inscripção romana). 

Monte da Pedra: 343 (vária). 

Moura: 345 (vária). 

Nisa: 349 (vária). 

Noudar: 146 (castello). 

São- Jordão: 27 (cova). 

Serpa: 231 (vária). 

Torrejam: 115 (inscripção romana). 



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o Arcueologo Português 355 



B) Algarve: 

Baosuris: 17 (moeda). 

Balsa: 174 (inscripçSo romana). 

Castro- Marim : 24 G. 

Faro: 43 (inscripçao romana). 

Lagos: 31 íruina), 102 (necropole romana). 

Monchique: 300 (vária). 

Ossonoba: 43 íinscripção romana). 

Salir : 40 (inscripçao ibérica e antiguidades várias). 

Silves: 338 (vandalismo). 

Tavira: 174 (inscripçao romana). 

Torre d' Ares : 143 (marca fígulina). 

C) Beira: 

Bobadella: 171 (inscripvSo). 

Brenha: 122 (estação lusitano romana). 

Cárqucre : 206 (inscripçao romana). 

Castendo (Insoa) : 138 (inscripçao romana). 

Chões: 123 (cerâmica lusitano -romana). 

Coimbra: 75 (versos leoninos). 81 (inscripçao), 331) (museu) 

Dornes: 13 (com estampa). 

Ferreira d*Ares: 116 (esculptura e penedo). 

Ferreira do Zêzere; 85 (inscripçao e castello). 

Infias : 26 (inscripçao romana). 

Junqueira: 123 (louça neolithica). 

Lagares : 30 (etymologia popular). 

Lamas do Vouga: 50 (cidade). 

Lamego: 50 (minas, inscripçao). 

Langroiva: 156 (mina). 

Longa: 156 (fortaleza). 

Loriga: 156 (penha esculpida). 

Louredo: 157 (pegada de Nossa Senhora). 

Lousã: 157 (castello dos Mouros). 

Maiorca: 188 («castello» de mouros). 

Mangualde: 188 (acastello»). 

Marialva: 189 («cidade de Aravos). 

Marmelleiro: 190 (areias auriferas). 

Mata de Lobos: 192 (sepultura). 

Matança: 192 (letreiro). 

Mato: 254 (gruta). 

Mira : 297 (vária). 

Moita (Cantanhede): 203 (dolmens). 

Moledo: 299 (vária). 

Molellos: 341 (ruinas). 

Monforte: 300 (ruinas). 

Monsanto: 301 (vária). 

Monteiro: 345 (outeiro da Bandeira). 

Montemór-o- Velho: 343 (ruinas). 

Moruja: 348 (vária). 



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356 O Archeologo Português 

Mosellos: 347 (muros). 

Nandufe: 348 (vária). 

Nogueira: 3õ2 (Mouras). 

Oliveira (Alhadas): 206 (com figura). 

Pedrulha: 122 (ruinas lusitano-romana), 253 (inscripç&o). 

S- Jorge: 27 (caldas antigas). 

S. Martinho de Mouros: 347 (lenda). 

Santa Comba Dão : 388 (pelourinho). 

Santa Leocadia: 92 (sepultura). 

Tavarede: 203 (castro). 

D) Entre- Douro-e-MInbo: 

Alto-Minho : 33. 

Barcellos : 151 (paço ducal, com figura). 

Barrosa: 14 (dolmen). 

Braga: 81 (inscripção), 82 (inscripçSo), 86 (moedas romanas), 119 (in- 

scripçSo romana), 192 (inscripção romana). 
Dume : 85 (inscripçSo romana). 
Frai2o e Pena da Rainha : 134. 
Junqueira: 28 (cividade). 
Juvim: 29 (cidade). 
Lamoso : 52 (Mouros). 
Lanheses : 52 (mina de estanho). 
Lavra: 91 (cidade). 
Leça : 92 (inscripção). 
Lemenhe: 91 (castello). 
Lufrei: 157 (tumulo). 
Magrellos : 187 (castro). 
Manhuncellos : 188 (a pedra que falia). 
Marco de Canaveses: 32 (sepultura romana). 
Mentrestido: 256 (cova). 
Mindello (pedra de Guilhade): 297. 
Miranda: 298 («castello dos Mouros»). 
Mosellos: 348 (ruinas). 
Perosello: 115 (inscripçâo romana). 
Porto: 83 (inscripçâo latina). 
S. Frutuoso: 119 (moedas romanas). 
8. João de Rei: 27 (castro). 
8. Martinho de Sande: 119 (moedas romanas). 
Santa-Martha : 190 (dolmen). 
Santo Thyrso: 342 (moedas romanas). 
Torre da Magueixa: 192 (inscripçâo romana). 
Vianna do Ca.stello: 5 (castro de Santa Luzia), 175 (restos romanos)* 

E) Extremadnra: 

Alcobaça: 66 (o cálix de ouro do mosteiro), 97 (id.), 129, 161, 79 (an- 
tiguidades romanas, com figura). 
Baralhas: 119 (ruinas). 



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o ÁSCHEOLOGO POBTUGCÊS 3Õ7 

Cintra: 82 (subterrâneo). 

Columbeira : 173 (inscripçAo romana). 

Coruche: 104 (tnstramentos romanos). 

Debarbas (Leiria): 42 (inscripção romana). 

Juncal : 28 (assento primitivo). 

Lamas: ÕO (ermida). 

Lapas : 90 (subterrâneo). 

Leiria: 117 (banhos antigos), 330 (mosaico). 

Lisboa : 153 (antiguidades várias), 173 (inseripçáo romana), 212 (topo- 

graphia histórica), 258, 288 (antiguidades romanas), 306 (topogra- 

phia antiga), 337. 
Lunúar : 158 (inscripçSo portuguesa). 
Moita: 347 (inscripçSo). 
Montargil : 304 (annexim). 

8antarem: 24 (com figura), 83 (sepultura portuguesa), 338. 
Santo Izidoro: 30 (inscripção). 
Tróia de Setúbal : 7 (cerâmica romana). 
Valle d'Ovos: 107 (dolmen). 

F) Tras-os-Montes : 

Argozello : 336 (fibula, com figura). 

Bragança: 79 (Mouros). 

Carragosa : 184 (inscripção portuguesa). 

Escovaes: 290 (inscripção portuguesa). 

Estevaes do Mogadouro: 249 (várias antiguidades). 

Fonte Arcada : 184 (inscripçSo portuguesa). 

Fri3es: 84 (caixão do pedra). 

Gimonde : 136 (ruinas e marco milliario). 

Izeda: 30 (cidade). 

Lamares: 49 (ruinas). 

Lamas de Orelhão : 50 (muralhas), 290. 

Lobrigas : 155 (ruinas). 

Lombeiro de Maquieiros : 14 (com figuraj. 

Luzellos: 159 (vária). 

Macedo de Cavalleiros : 159 (chave de S. Pedro). 

Marzagão: 191 (ruinas várias). 

Mazouco: 255 («castello»). 

Mesâo-Frio: 256 (sepulcros), 

Monforte do Rio Livre: 300. 

Montalegre: 303 (vária). 

Monte-Negro: 343 (minas). 

Mourão: 346: (vária). 

Picote: 143 (com figura), 336 (fibula, com figura). 

S. Jusenda: 114 (castro). 

S. Lourenço : 105 (cavernas). 

Samil: 105 (castro). 

Serra de Santa Comba : 290. 

Soutello : 184 (inscripção portuguesa). 

Torre de D. Chama: 279 (ruina). 



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358 O Archeologo Português 

Tralhariz : 193 (estação romana). 
Villa Pouca de Aguiar: 281 (dolmens). 

G) Colónias: 10 (moedas)^ 47 (moedas). 

H) Ilha do mar Pérsico: 81 (ms. árabe). 

AMULETOS: 

Portugueses: 287 (com figuras), 

BIBLI06RÀPHIA: 

Revista de Guimarães :. 13. 
O dolmen da Barrosa : 14. 
Revue Archédogique: 52. 
Lapide romana da Geira : 87. 

BIOeRAPHIÂS: 

P.« José Augusto Tavares: 17. 
Comelius Bocchus : 49. 

CASTROS: 

Do Lombeiro de Maquieiros: 14 (com estampa). 
De Samil: lOõ. 
S. Jusenda: 114. 
Tavarede: 203. 

CONGRESSOS: 

De Historia das Religiões : 123. 

CURSOS ESCOLARES: 

Aula de archeologia do seminário de Bragança : 44. 

DOLMENS (OU ANTAS): 

Antas em geral : 86. 

A Mesa dos Ladrões (Chão de Maçãs) : 107. 

Da Moita: 203. 

De Villa Pouca de Aguiar: 281. 

EPIORAFHIA: 

A) Ibérica: 40 (Salir). 

B) Lusitano-roniana: 

Dcbarbas— Leiria: 42. 

Inscripçâo de Salir : 42. 

De Ossonoba : 43. 

Do Museu de Bragança : 79. 

DePerosello: 115. 

Da Torrejam: 115. 



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o Aecheologo Português 359 

Da Casa Branca: 116. 

De N. S/* de Ayres: 117. 

De Castendo : 13a 

De Picote: 143 (com figura). 

Marcas figolinas do Algarve: 143. 

InscripçSo da Crimeia (Alemtejo) : 170. 

De sitio incerto : 170. 

DeBobadella: 171. 

De Évora: 171-172,331. 

DaColumbeira: 173. 

DeOlisipo: 173,283,284. 

De Balsa: 174. 

Do Maseu do Carmo: 174. 

DeMertola: 175. 

DeVianna do Castello: 176-177. 

De Cárqnere : 206 (com figara). 

De Serpa: 237. 

De Moura: 345. 

C) InscrlpçOes em versos leoninos: 

Museu de Coimbra : 75. 
Várias: 334. 

D) Portngnesag: 184 (Fonte Arcada, Carregosa, Soutello), 293 (Escovaes), 
346 (Moura). 

E) De diversas epocbas on de epoehas Indeterminadas: 167 (Valpaços). 
EXTRACTOS: 

Â) Notieias arcbeologlcas: 

Das «Memorias Parochiacs» : 26, 49, 90, 153, 187, 2.54, 297. 

B) Máximas e rellexOes: 

Do Conde de S. Lourenço : 78. 
De D. Fr. Amador Arrais: 166. 

FIBULiS: 

Trasmontanas da epocha de LaTénc: (com estampa) 33G. 

GRUTAS: 

De S. Lourenço: 105. 

HISTORIA DA ARCHEOLOOIA EM PORTUGAL: 

Vid. Cwêos Escolares, Sociedades, Mtteeus, Biographiaa, 

LEITORES (AOS): 1. 



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360 O Aecheologo Português 

MUSEUS: 

Etimológico: vid. Âcquiaições. 
Da Figueira da Foz : 177, 202. 
De Coimbra: 339. 

NUMISMÁTICA: 

A) Lusitana: 

Monnaies de Baesuris : 17 (com figtira). 

B) Romanas: 

Moedas de chumbo da Republica: 13 (com estampa). 
Achado de moedas : 119 (Braga e Torres Novas), 167 (Leiria), 285 (Lis- 
boa), 342 (Santo Thyrso). 

C) Portuguesa: 

Contos para contar: 52 (com estampas), 168 (id.) 

Medalha conmiemorativa do Centenário do Brazil: 120 (com estampa). 

Achados de moedas : 337. 

Numismática colonial portuguesa: 10, 47 (com estampa). 

D) Factos dirersos: 

Congresso de Numismática : 93. 

Vid. Cursos escolares, 

PROTECÇÃO DADA PELOS GOVERNOS, CORPORAÇÕES OFFICIAES E 
INSTITUTOS SCIENTIFICOS Á ARCUEOLOGIA: 

15. Gabinete numismático de Bruzellas : 74. 

16. Ruinas de Itálica : 75. 

17. Museu numismático de Athenas : 166. 

(QUESTIONÁRIO ARCHEOLOOICO : 

De Albano Bellino: 295. 

SIGILLOQRAPHIA: 

Sêllo do Padre-Mestre Gonçalo Origiis : 24 (com figura). 

SOCIEDADES: 

Archeologica da Figueira : 203. 



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ERRATAS 



A pag, 173, linha 25, leia-se XXXIX em vez de XXIX. 

A pag. 199 disse eu que ao norte do Douro se conheciam só, que 
me lembrasse, dois mosaicos romanos; mas esqueci-me de accrescen- 
tar que existe outro em Braga, que eu de mais a mais tinha visto havia 
annos. Acerca do mosaico de Vizella vid. Boletim da Real Associação 
dos Architectos e Archeologos Portugueses^ 1881, pag. 145; estEo de- 
senhos d'elle no Museu de Guimarles. 

Pag. 225, linha 6.*, em vez de de lá, por Faro, leia-se de lá, por 
Tavira e Faro; linha 10.*, adeante de Baesvris accrescenta-se : ao aro 
de Tavira corresponde Balsa, 

Pag. 227, linha 18.*, em vez de dedicou ao imperador Lúcio Vero 
leia-se dedicou a Ludo Vero, 

Pag. 233, linha 8.*, em vez de ao ponto leia-se a pontos, 

Pag. 240, linha 30.*, em vez de provém, leia-se provinha. 

Pag. 283, linha 15.*, leia-se no mesmo em vez de do mesmo, 

Pag. 286, linha 14.*, leia-se não pôde em vez de nada pôde. 

Pag. 286, linha 31.*, leia-se Ás pessoas em vez de As pessoas. 



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EXPEDIENTE 



O Archeologo Português publicar-se-ha mensalmente. Cada número 
será sempre ou quasi sempre illustrado, e nâo conterá menos de 16 
paginas in-8.^, podendo, quando a affluencia dos assumptos o exigir, 
oonter 32 paginas, sem que por isso o preço augmente. 

PREÇO DA ASSIGNATURA 

(Pagamento adeantaâo) 

Anno IfibOO réis. 

Semestre 750 » 

Numero avulso 160 » 

Estabelecendo este módico preço, julgamos facilitar a propaganda 
das sciencias archeologicas entre nós. 



Toda a correspondência á cerca da parte litteraria doesta revista 
deverá ser dirigida a J, Leite de VasconoellOS, para a Biblio- 
theca Nacional de Lisboa. 

Toda a correspondência respectiva a compras e assignaturas 
deverá, acompanhada da importância em carta registada ou em vales 
de correio, ser dirigida a J. A. Dias CoelllO, para a Imprensa 
Nacional de Lisboa. 



k venda nas principaes livrarias de Lisboa, Porto e Coimbra. 



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3 2044 041 995 879 



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Thú book shouM be retumed 
to the Ubrary ou or befora the 
last date stamped below. 

Please retum promptlr. 




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